Pandemia pode prejudicar saúde mental de crianças e adolescentes

A falta de orientação e acolhimento durante a pandemia do novo coronavírus pode causar danos à saúde mental que só serão vistos em 10 ou 15 anos, quando os jovens de agora se tornarem adultos. O estudo feito na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, analisou relatos de outros eventos trágicos do mundo para tentar prever os problemas que essas crianças e adolescentes podem acabar desenvolvendo.

               
485

O impacto da pandemia na saúde mental de adultos e profissionais da saúde na linha de frente é debatido desde o ano passado, mas outro público também teve o bem-estar mental afetado: as crianças e adolescentes. Este tema foi o centro da análise da pesquisadora Priscilla Oliveira Silva-Bonfim, biofísica do Instituto de Biologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), que conversou com exclusividade com Futuro da Saúde. O resultado dessa avaliação sobre o impacto que a pandemia pode estar causando na saúde mental das crianças e adolescentes está descrito em artigo publicado na Frontiers NeuroImmunology ainda em 2020.

Motivada pelo descontentamento do próprio filho e com base em informações de diferentes períodos da história, epidemias e desastres naturais ao redor do mundo, Priscilla descobriu que o mais impactante para o ser humano em situações dramáticas como estas é o medo de perder quem se ama: “As pessoas não têm medo da perda material, daquilo que você pode batalhar e comprar, mas sim de perder as pessoas amadas”.

“Mamãe, eu não gosto do mundo virtual. Eu quero poder abraçar meu amigo, jogar bola e brincar com ele”, respondeu o filho de 5 anos de Priscilla quando ela sugeriu que fizessem uma chamada de vídeo para amenizar a saudade que a criança sentia do amigo da escola. A internet pode ajudar a lidar com a distância, mas não é suficiente para seres sociáveis como são os humanos. Dados de uma pesquisa online realizada pela UNICEF com 4 mil adolescentes de 15 a 19 anos indicam que 72% sentiram necessidade de pedir ajuda durante a pandemia, mas 41% não recorreram a ninguém. Nos casos em que solicitaram ajuda, 36% buscaram amigos ou parceiros. A minoria recorreu a familiares, professores ou profissionais da área de saúde mental.

O isolamento social é uma medida necessária, mas problemas surgem quando essa medida se estende por muito tempo. Privados da socialização, dos estudos presenciais, sem entender muito bem a pandemia e, muitas vezes, sem receber apoio de outras pessoas, crianças e adolescentes podem sofrer com consequências para a vida inteira, como transtorno de estresse pós-traumático, quadros graves de depressão, ansiedade e até mesmo ideação suicida. 

O que a ciência diz?

No caso das crianças, o medo de perder pessoas que amam pode ser ainda mais intenso, devido à dificuldade de compreender a situação e entender a dimensão dela. Segundo a pesquisadora, para crianças e adolescentes “o coronavírus é quase algo palpável, como se fosse abrir a porta e entrar na casa delas. Elas entendem que é invisível, mas ao mesmo tempo ele está em todos os lugares. Então a vigilância é máxima”.

O estresse é uma condição necessária para orientar e proteger os seres humanos, mas a sua constância pode fazer com que se torne transtornos mentais ou até doenças. Ele desencadeia no organismo uma série de reações que alteram o equilíbrio das funções exercidas no cérebro. A mente humana funciona como uma roseira, que para crescer e gerar frutos, precisa receber estímulos e ter seus ramos cortados. No cérebro, há uma ‘árvore’ dendrítica que segue a mesma ideia, precisando então de estímulos gerados pela interação das pessoas com o ambiente para poder desenvolver os impulsos dos neurônios.

Quando essa estrutura é afetada, a produção de cortisol — o hormônio do estresse —, a poda sináptica — que corta os ‘ramos’ dos neurônios — , e as ocitocinas pró-inflamatórias — que incentivam inflamações no organismo —, podem alterar o funcionamento regular da mente e limitar o sistema nervoso. Eventos traumáticos podem trazer danos, independente da idade em que ocorreu, mas traumas durante a infância e adolescência, quando o cérebro ainda está se formando, implicam em dificuldades durante a vida adulta.

Qualidade do ambiente em casa

O estudo liderado pela pesquisadora indica que há ainda os jovens que estão expostos a violência, maus tratos e negligência quando estão dentro de casa. A situação piora se a família for de baixa renda ou tiver muitas pessoas na casa, pois é difícil administrar recursos, como comida e internet. Neste contexto, o ambiente escolar é essencial, pois são os estímulos sociais ali gerados que ensinam as crianças a como viver em sociedade, além ter papel na alimentação e entretenimento, principalmente para aqueles que não tem tantos recursos disponíveis.

Segundo Silva-Bonfim, a dificuldade de lidar com os sentimentos pode levar as crianças a uma regressão no comportamento. Exemplos disso são aumento do choro, medo de dormir sozinho, querer dormir abraçados com os pais por medo de perdê-los e voltar a urinar na cama.

Além disso, a pandemia pode ser um agravador para as crianças e adolescentes que já possuem diagnósticos de transtornos mentais. Para jovens com transtorno do espectro do autismo (TEA) ou transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), por exemplo, pode ser difícil passar tanto tempo em casa, sem outros estímulos sociais.

Minimizando o impacto

Para a pesquisadora, “quando você orienta a população sem divulgar informações incorretas, mas baseadas em ciências, você consegue sensibilizar sobre a necessidade de manter o isolamento social e seguir as demais medidas. A orientação precisa valer para crianças e adolescentes também, mas não adianta explicar da mesma maneira. A linguagem usada deve ser apropriada, evitando termos que possam chocar muito as crianças, como ‘morte’, ‘pessoas com 60 anos têm maior risco de letalidade’. A criança vai associar diretamente com os avós”.

A UNICEF indica algumas ações para minimizar o impacto da pandemia nos mais novos: ficar atento as emoções da criança e manter a calma, garantir que as crianças estejam em um ambiente protegido, transmitir segurança e postura acolhedora, escutar atentamente o que elas tem a dizer e ser compreensível, ser claro quanto ao que está acontecendo e quais cuidados precisam ser tomados, manter as crianças ativas com histórias, jogos e brincadeiras, evitar especular boatos na frente delas e tentar manter uma rotina.

A líder do estudo também diz que outro ponto prejudicial pode ser o abre-não-abre das escolas, que confunde as crianças. Contudo, para escolas que já abriram e aquelas que possuem psicólogos, ela sugere também utilizar dos recursos disponíveis para acolher as crianças, como usar o pátio, respeitando o distanciamento, para ter uma conversa coletiva sobre a pandemia, com orientação de um psicólogo ou assistente social.

A ideia é criar um espaço para os mais jovens onde eles possam falar sobre seus medos e angústias. A imaginação também pode acabar aumentando o medo, por isso é importante tirar as dúvidas das crianças. Apesar das observações apontadas no estudo liderado pela professora e pesquisadora da UFF, ela explica que só veremos as consequências reais daqui aproximadamente 10 anos e que até agora, o que temos é uma ideia do que pode acontecer.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui