Home Sua saúde Pandemia ou endemia? O que determina a classificação da Covid-19 e qual...

Pandemia ou endemia? O que determina a classificação da Covid-19 e qual o impacto da mudança

Além da classificação de pandemia só poder ser retirada pela OMS, alto número de mortes e falta de parâmetros impossibilitam a mudança no status.

               
425
Ministério da Saúde rebaixar status da Covid-19 de pandemia para endemia.

O Ministério da Saúde afirmou no início de março que está estudando rebaixar a classificação da Covid-19 de pandemia para endemia, com a melhora nos índices de casos e internações. Apesar de parecer um movimento relacionado ao controle da doença no país, especialistas ouvidos por Futuro da Saúde apontam algumas preocupações sobre essa possibilidade, entre elas o alto índice de mortes diárias, a baixa adesão da população à terceira dose e falta de antivirais disponíveis no SUS. Há ainda a preocupação de como essa alteração poderia impactar em questões legais, como o uso da telemedicina, hoje permitida no país em caráter emergencial.

Em primeiro lugar, em termos de nomenclatura e status, é preciso lembrar que a pandemia ocorre a nível mundial e apenas a Organização Mundial da Saúde pode declarar o seu fim. Além da impossibilidade, epidemiologistas afirmam que o país não está em uma situação semelhante a uma endemia, já que os níveis de infectados e internados sofrem alterações constantes e a média de mortes diária está acima de 500.

Por ser uma doença relativamente recente, não é possível estimar qual o número esperado de casos, óbitos e as suas variações, de acordo com as mudanças de temperatura e época do ano, por exemplo. Tradicionalmente, doenças que já existem são acompanhadas de 5 a 10 anos para se estabelecer os parâmetros “normais” de incidência.

“A questão de estar em um momento ainda pandêmico ou não, tem um valor simbólico muito grande. Dá um ar de controle, sensação de segurança e retorno à normalidade. A pandemia perdeu o sentido apenas epidemiológico, tem um caráter político e econômico. Não é adequado a gente afirmar que estamos em uma situação de endemia. Imagina se a gente ficasse por anos morrendo 500 pessoas por dia? Não é tolerável. Estamos muito longe de entrar em uma endemia”, afirma André Ribas Freitas, Doutor em Epidemiologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor da Faculdade de Medicina São Leopoldo Mandic.

O termo correto

  • Surto – Aumento repentino no número de casos de uma doença em uma determinada região
  • Epidemia – Surtos de uma doença em diversas regiões ou comunidades
  • Endemia – Doenças localizadas ou com grande incidências em um país, com números estabelecidos de casos e óbitos 
  • Pandemia – Disseminação mundial de uma doença

O rebaixamento de classificação de outras doenças já ocorreu no passado. Em 2010, a OMS foi responsável por declarar o fim da pandemia de gripe suína (H1N1), por ter sido controlada, com números bem estabelecidos e de forma similar entre os países, mesmo com o vírus circulando. Em 2019, anos depois da pandemia, 796 mortes por H1N1 ocorreram no Brasil, número semelhante ao de 2018, que teve 918 mortes. Em comparação com a Covid-19, somente no dia 9 de março a doença matou 652 pessoas no país. Novos subtipos da influenza tendem a provocar surtos, mas nem todos chegam a se tornar epidemias ou pandemias. Foi o que ocorreu recentemente com a gripe H3N2.

“A gente tem que esperar a resposta dos indivíduos ao longo do tempo e o surgimento de novas variantes. O mais próximo que temos à Covid de uma doença endêmica é a influenza. Mas é muito diferente do ponto de vista da letalidade. O número de óbitos ainda é muito alto, ainda precisamos de grandes esforços para o controle da doença. Não é hora de baixar a guarda”, reforça Freitas.

Outro ponto que tem reforçado a ideia de um controle, mesmo com o alto número de mortes, é a desobrigação das máscaras. Diversos estados e municípios já se movimentaram sobre o assunto, liberando o uso devido à redução na taxa de ocupação de leitos de UTI e alta cobertura vacinal primária (duas doses). Apesar da liberação em alguns locais, é importante ressaltar que a desobrigação não impede que as pessoas continuem utilizando, principalmente idosos, não vacinados e imunossuprimidos, e que a transmissão é menos frequente em ambientes abertos sem aglomeração.

“Continuamos com todas outras medidas de proteção. Temos a intensificação da vacinação e hospitais com leitos reservados para Covid-19. Isso demonstra que ainda estamos em uma situação de alta transmissão e com uma doença fora de controle”, alerta o epidemiologista.

Um ponto sensível ainda ao determinar que a Covid-19 deixou de ser uma pandemia no Brasil neste momento são as questões jurídicas e legais. Diversas leis, portarias e contratos foram estabelecidos de forma excepcional, facilitando os trâmites convencionais. Caso o status seja alterado, é preciso criar uma transição sem que haja perdas. A própria telemedicina, por exemplo, está autorizada apenas enquanto durar a pandemia e seu projeto de regulamentação ainda aguarda aprovação no Congresso.

Lua de mel

O período de queda no número de casos e mortes por Covid após o pico de uma onda, como ocorre atualmente pós-omicron, tem sido chamado de lua de mel. Essa foi a quarta onda desde o início da pandemia. O risco de surgimento de uma nova variante, principalmente por uma falta de equidade vacinal no mundo, pode provocar uma quinta onda. Considerando essa realidade, rebaixar o status nesse momento é precipitado. É o que acredita a epidemiologista Ana Brito, que é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

“Este é momento de estabilidade e de redução de ocupação de leitos de UTI, que pode continuar por dois ou três meses. Eu creio que estamos começando a experimentar uma redução da transmissão comunitária da Covid, mas é precoce [declarar endemia]”, declara a médica.

Vale lembrar que é possível se reinfectar com a Covid. Dados da Inglaterra sugerem que mais de 650 mil pessoas tiveram uma segunda infecção, durante a onda da ômicron. Aqueles que foram infectados acabam criar anticorpos contra a mesma variante que permanecem por até 6 meses, mas com o risco de emergir novas variantes, é provável que mesmo os vacinados se reinfectem ao longo do tempo.

“A transmissão da Covid é aguda. Você precisa ter uma condição de permanência de bolsões de pessoas onde ocorra transmissão ativa. Uma vez que vacinarmos toda a população mundial, nós vamos interromper a transmissão. Esse seria o cenário ideal. Mas nós temos populações em países com menos de 30% vacinados. Enquanto não distribuirmos vacinas de forma equânime, nós vamos conviver com novas variantes”, alerta a pesquisadora.

Ao menos 4 mil variantes da Covid existem no mundo. Entretanto, as chamadas variantes de preocupação, são as que conhecemos e provocaram a grande maioria dos casos: Alpha, beta, gama, delta e ômicron. Atualmente, a Organização Mundial da Saúde monitora o surgimento de uma nova variante que mistura característica da delta e da ômicron e já foi identificada em três países europeus. Ainda não se sabe a gravidade dessa variante. “A Covid de hoje em uma condição endêmica, não garante que não vamos ter picos epidêmicos, dependendo da formação de novas variantes e as características que elas vão assumir”, explica Bento.

O papel dos antivirais para fim da pandemia

Há uma grande expectativa dos médicos para a chegada dos novos medicamentos antivirais, já que, de acordo com os dados disponíveis, se mostram eficazes e podem ser uma ferramenta no combate à Covid. Eles atuam nos primeiros dias de sintomas e mostram bons resultados na prevenção de casos graves. Em estudos científicos, as novas terapias reduziram em até 89% o risco de mortes e hospitalização. 

“Acho complicado falar em endemia sem brigarmos para que medicamentos efetivos estejam disponíveis no SUS para os vulneráveis e que protocolos de atendimentos estejam implantados em todos os níveis de atenção”, afirma Ethel Maciel, pós-doutora em epidemiologia pela Universidade Johns Hopkins e professora da Universidade Federal do Espírito Santo. Atualmente, nenhum medicamento antiviral contra a Covid está disponível no sistema público. Mesmo no sistema privado eles são escassos, e a expectativa é para que medicamentos orais, como o paxlovid e o monulpiravir, sejam aprovados pela Anvisa em breve.

A situação na Europa

Na Europa, alguns países já rebaixaram o status da pandemia por conta própria, como o Reino Unido. Por lá, mesmo que o número de casos esteja muito acima que no Brasil, o número de mortes entre 4 e 10 de março é de 726 pessoas, bem abaixo da média diária brasileira, de 505 óbitos. “Esses países já tem medicamentos efetivos aprovados, tem protocolos de atendimento e programas de testagem com distribuição de autotestes. Nós precisamos ter estratégias muito bem estabelecidas para passar para uma nova fase”, afirma a professora da UFES.

Ethel também aponta que é preciso avançar na aplicação da dose de reforço. Atualmente, somente 31,3% dos brasileiros receberam a terceira dose da vacina. No Reino Unido, 67% da população acima dos 12 anos já receberam a dose de reforço “O Brasil não está fazendo uma campanha para a população entender a necessidade da dose de reforço. Ainda não sabemos se serão semestrais ou anuais, mas tudo isso precisa estar estabelecido para a gente passar uma nova fase”, afirma.

Mesmo que o Brasil adote formas eficazes de controle da doença e defina parâmetros nacionais, é a Organização Mundial da Saúde que dá a cartada final sobre o status da Covid no mundo. “Ainda não temos um consenso mundial. A OMS está observando como vai ser o verão europeu e americano para poder ver se o decreto de pandemia pode ser finalizado. A gente ainda precisa avaliar o que está acontecendo”, aponta a epidemiologista.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui