Pacientes com diabetes tipo 1 precisam ganhar protagonismo em serviços da rede pública e privada

Pacientes com diabetes tipo 1 precisam ganhar protagonismo em serviços da rede pública e privada

Pacientes com diabetes tipo 1 muitas vezes ficam desatendidos, sem direito a tratamentos mais adequados de controle dessa enfermidade ou acesso a novas tecnologias

By Published On: 09/01/2024

Muito se fala sobre o diabetes do tipo 2, doença adquirida em razão de hábitos de vida, como obesidade e hipertensão, e fatores genéticos, mas o diabetes tipo 1, menos incidente, mas que também necessita de tratamento imediato e contínuo, ocupa um papel de coadjuvante na política pública de saúde e na cobertura das operadoras.

Com esse cenário preocupante os cerca de 580 mil DM1, jargão usado para identificar esses pacientes, muitas vezes ficam desatendidos, sem direito a tratamentos mais adequados de controle dessa enfermidade ou acesso a novas tecnologias.

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune e ocorre quando há uma destruição progressiva das células responsáveis pela produção de insulina no pâncreas. Essa enfermidade acomete principalmente crianças e adolescentes. Sem o hormônio insulina no organismo, não é possível metabolizar a glicose para a produção de energia.

A questão é que sem a insulina, o organismo entra em colapso, por isso a importância do uso de insulina análoga por todo a vida desses pacientes. Entre as complicações do DM1 estão o comprometimento renal, doenças cardíacas, cegueira e chance de amputações, levando o paciente ao coma ou a óbito. Para ter uma ideia, no Brasil, a expectativa de vida de uma criança com DM1 sem tratamento adequado é de 40-54 anos.

Hoje o teste de glicemia não é padrão no pronto-atendimento de crianças ou adolescentes. Por isso, é frequente ouvirmos das mães que elas procuraram ajuda emergencial e ficaram sem o diagnóstico correto. O perigo é que a ausência de insulina no corpo leva à cetoacidose diabética, complicação que pode resultar em coma ou morte, se não identificada em tempo. Boca seca, urina em excesso, fraqueza e emagrecimento são sinais de DM1, e não podem ser negligenciados independentemente da faixa etária das pessoas.

Hoje o SUS oferece o tratamento à base de insulina mais simples, nem sempre adequado para todos os casos de DM1, e os estoques desse hormônio estão sempre no limite. As bombas de insulina, chamadas de pâncreas artificial, dispositivos que fazem a liberação contínua de insulina ao longo do dia, também não. Esses sistemas inteligentes fazem a liberação deste hormônio, atuando no controle da hipoglicemia ou da hiperglicemia, condições desafiadoras e graves que afetam a saúde dos pacientes.

Os planos de saúde, por outro lado, fazem o diagnóstico do diabetes tipo 1, mas não oferecem tratamentos. Os pacientes têm que comprar os medicamentos, sensores e as bombas de insulina. Ou seja, recorrem à rede pública de saúde, sobrecarregando um sistema que já trabalha no limite.

Diante do cenário atual, no entanto, a boa notícia é que a comunidade médica, associações de pacientes e parlamentares da causa estão empenhados na aprovação de projetos de lei que visam garantir os direitos dos pacientes com DM1 bem como o seu bem-estar e qualidade de vida.

Um deles é o 4809/2023, em tramitação no Senado, que visa a modificação da Lei 9.656/1998. A alteração tem como objetivo incluir no rol de coberturas obrigatórias insumos e tecnologias aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de pessoas com diabetes tipo 1 no ambiente domiciliar, o que obrigaria os planos de saúde a oferecerem tratamentos.  Outro é o PL 2687/2022, que classifica o diabetes do tipo 1 como deficiência para todos os efeitos legais, ampliando assim a disponibilidade de serviços para os pacientes com a doença.

É fato que precisamos dar maior protagonismo ao diabetes tipo 1. Ainda mais porque estudos internacionais indicam crescimento dessa doença em crianças e idosos. Não podemos brincar mais com essas vidas.

 

Monica Gabbay

Pós Doutora em Endocrinologia pela Universidade Federal de São Paulo, coordenadora do ambulatório de Bomba de Infusão de Insulina do Centro de Diabetes UNIFESP e professora afiliada da UNIFESP desde 2018

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Pós Doutora em Endocrinologia pela Universidade Federal de São Paulo, coordenadora do ambulatório de Bomba de Infusão de Insulina do Centro de Diabetes UNIFESP e professora afiliada da UNIFESP desde 2018

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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Monica Gabbay

Pós Doutora em Endocrinologia pela Universidade Federal de São Paulo, coordenadora do ambulatório de Bomba de Infusão de Insulina do Centro de Diabetes UNIFESP e professora afiliada da UNIFESP desde 2018