Novos produtos out of pocket surgem para suprir demanda de população sem plano de saúde que não quer depender só do SUS

Novos produtos out of pocket surgem para suprir demanda de população sem plano de saúde que não quer depender só do SUS

Gastos da população com saúde aumentam e empresas lanças serviços out of pocket para atender demanda crescente.

By Published On: 10/07/2024
Gastos da população com saúde aumentam, e empresas lançam serviços out of pocket para atender demanda.

O gasto da população brasileira e instituições filantrópicas com saúde tem aumentado ano a ano, atingindo o patamar de 5,7% do PIB em 2021, último ano da série histórica feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além de desembolsos diretos com planos de saúde e medicamentos, outros serviços de saúde têm ocupado uma parcela do orçamento das famílias. O surgimento de clínicas populares que oferecem consultas e exames fez com que uma nova demanda fosse criada: a de pacientes que recebem um diagnóstico, não contam com um plano de saúde e não querem depender só do Sistema Único de Saúde (SUS) para realizar um procedimento ou tratamento. Os cartões de descontos também maximizam esse movimento.

Frente à demanda, empresas lançam produtos para atender ao público proveniente desses serviços. Buscando levar acesso e facilitar o caminho ao tratamento, a Oncoclínicas e a Boston Scientific, por exemplo, construíram alternativas que buscam ofertas de medicamentos e terapias para pacientes com facilidades de pagamentos.

Para sanitaristas, o surgimento desses serviços mostra que existe uma deficiência no sistema de saúde brasileiro. Isso porque, de um lado, grande parte da população não possui plano de saúde, que em sua maioria é oferecido via empregos formais, e de outro, há uma ineficiência do SUS em atender a demanda da população na média e alta complexidade. Os pacientes, inclusive, transacionam entre os serviços pagos, a saúde suplementar e o sistema público.

Apesar de serem importantes para levar acesso, o ideal seria, segundo os especialistas, melhorar o sistema nas duas frentes: aumentando o número de pessoas com planos de saúde e, principalmente, a capacidade do SUS em atender a população. Eles alertam sobre o risco do país seguir um caminho de saúde como os Estados Unidos, onde grande parte do financiamento da saúde é out of pocket – conceito em que há desembolso direto na saúde -, com casos de endividamento de indivíduos.

“O principal problema é a internação hospitalar, porque as famílias dentro do seu orçamento não tem capacidade para arcar com esse tipo de despesa. Consultas e exames simples eventuais são possíveis de custear, mas isso não resolve os problemas principais. É uma solução para pequenos problemas da vida cotidiana, mas não é uma solução ao sistema de saúde”, afirma José Sestelo, doutor em Saúde Coletiva e pesquisador do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre o Empresariamento da Saúde (GPDES), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Custo do brasileiro com saúde

As despesas públicas e privadas com saúde no Brasil custaram em 2021 9,7% do PIB, equivalente a R$ 872,7 bilhões. Os dados são da Conta-Satélite de Saúde, realizada pelo IBGE em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e Ministério da Saúde. Do total, R$ 509,3 bilhões (5,7% do PIB) vieram das famílias e instituições filantrópicas e R$ 363,4 bilhões (4,0% do PIB) do governo.

“Em 2010, a proporção das famílias e instituições era de 4,4% do PIB, e foi aumentando ano a ano, chegando a 5,7% em 2021. Em 2020, ano da pandemia, temos um efeito de preço, por isso a participação aumentou e caiu no ano seguinte. Quando olhamos para o Governo, o gasto era de 3,6% do PIB em 2010 e passou, em 2021, para 4%, o que mostra que a saúde privada tem uma participação enorme para a saúde, o que pesa no bolso do brasileiro”, explica a economista Tassia Holguin, analista da Conta-Satélite de Saúde do IBGE.

Os gastos envolvem diferentes serviços, como medicamentos, preparação farmacêutica, aparelhos médicos e odontológicos, planos de saúde e outros produtos out of pocket. No meio disso estão as clínicas populares, que oferecem consultas e exames de baixo custo para a população. Enquanto 51 milhões de pessoas contam com plano de saúde, os outros 75% da população brasileira contam apenas com o SUS e esses serviços privados. A busca geralmente está em assistências que a saúde pública não oferece na quantidade e velocidade necessária para atender a demanda da população, como consultas com especialistas e exames que demandam grandes equipamentos, como PET Scan.

“Inclusive pessoas com planos de saúde eventualmente recorrem a essas opções de gasto direto. A população transita entre os sistemas e diversas soluções que existem disponíveis conforme a sua conveniência de momento. Há uma superposição e intersecção aos 3 níveis de ofertas”, explica José Sestelo, pesquisador do GPDES.

Essa transição ocorre principalmente por uma limitação entre a disponibilidade de serviços oferecidos no sistema público e na saúde suplementar. Por isso, a discussão da interoperabilidade de dados é importante para a economia e a saúde da população, já que é possível prestar um melhor atendimento.

Tassia Holguin, do IBGE, aponta que, em geral, o gasto da população com saúde está diretamente ligado às classes sociais, sendo que as mais baixas desembolsam mais recursos do orçamento familiar com medicamentos, enquanto as mais altas gastam com a contratação de planos de saúde.

“Se por um lado, com a implementação do SUS tivemos uma mudança de paradigma no sentido ter uma medicina mais preventiva e focada na promoção, por outro lado temos uma população vivendo mais, o que implica no aumento do gasto com medicamentos, exames e outros serviços de saúde”, afirma Tassia.

Pacientes oncológicos no out of pocket

A oncologia é uma área em que o tempo é crucial. A estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) é que entre 2023 e 2025, 704 mil novos casos de câncer anuais são esperados no Brasil. No SUS, a demora entre a suspeita e o diagnóstico faz com que parte da população busque alternativas para consultas e exames. No entanto, o tratamento precoce é, em muitos casos, essencial para a efetividade e controle.

“Nossos médicos se deparam com pacientes procurando algum tipo de solução para uma suspeita de câncer. Há dificuldade deles de saberem o caminho a seguir sem um plano de saúde. Com esse mercado de clínicas populares, cartão de benefícios e telemedicina, houve uma procura maior de serviços, de pessoas que anteriormente só tinham o SUS ou planos de saúde”, explica Marcos Cunha, diretor executivo comercial e líder da iniciativa na Oncoclínicas&Co.

O grupo lançou em abril o OC Acesso, serviço com foco nas classes C, D e E, com renda de até 10 salários mínimos. A ideia é oferecer consultas, exames e tratamentos com até 70% de desconto. Biópsias, exames de imagem, testes genéticos e radioterapia são alguns dos serviços incluídos.

Utilizando a estrutura de equipamentos e equipes já com custos fixos ou variáveis, o grupo consegue ocupar períodos ociosos e que não teriam utilização de pacientes com planos de saúde, por exemplo. Por isso, é possível oferecer descontos que variam conforme o gasto base, com uma margem mínima para a sustentabilidade do serviço.

“Recebemos muitas ligações de parceiros com clínicas populares perguntando se podiam encaminhar pacientes para nós, porque até o momento, quando havia uma suspeita de câncer, diziam para a pessoa procurar o SUS. Não tinham como atendê-los. São milhões de pessoas que têm cartão de benefício ou que vão a clínicas populares com algum sintoma”, observa Cunha.

Até o momento, 5 mil pacientes foram atendidos pelo OC Acesso, mas a meta da empresa é chegar em 15 mil vidas até 2025. Para isso, trabalha na expansão do serviços para além das atuais praças implementadas ou em implementação, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Aracaju.

“Idealmente deveríamos ser complementares ao SUS. A população já tem a saúde pública e uma possibilidade de tratamento, sem a necessidade de out of pocket para financiar isso. No processo de implementação do OC Acesso buscamos observar os maiores gaps daquela região. Em alguns casos não tem um medicamento disponível que possa auxiliar o paciente com câncer ou que não conta com radioterapia, por exemplo. Um grande gap do SUS é a agilidade e a qualidade em algumas áreas, como a anatomia patológica”, observa Cunha.

Financiamento da saúde

A Boston Scientific, fabricante de dispositivos médicos americana, lançou no Brasil uma plataforma para o financiamento de serviços de saúde. O marketplace é construído em parceria com instituições financeiras, que fazem toda a parte que avalia o crédito dos pacientes e disponibiliza os recursos.

“Hoje existem milhões de pessoas no Brasil e no mundo que precisam pagar por tratamentos e muitas vezes não têm como fazer porque não cabe no bolso. Temos o SUS que tem gargalos grandes, longas filas de espera, e também planos de saúde, onde pacientes não tem cobertura em vários procedimentos ou tecnologias”, explica Priscilla Martins, diretora de Contas Estratégicas e líder da iniciativa LEAP+, como é nomeada a plataforma.

Médicos, clínicas e serviços de saúde podem criar um item customizado para cada paciente na plataforma, detalhando todos os custos envolvidos no processo, onde o paciente poderá realizar a aquisição e ser encaminhado para a análise de crédito, que ocorre em até 72 horas. De acordo com a Bostons Scientific, além da agilidade, o diferencial está nas baixas taxas de juros. Os procedimentos não precisam utilizar os dispositivos médicos da fabricante. 

Martins explica que apesar do mercado de cirurgia estética ser um dos que mais utilizam de financiamentos, é possível observar uma oportunidade de levar acesso a pacientes que devem realizar cirurgias bariátricas. No entanto, a diretora observa que há uma infinidade de possibilidades, já que 75% da população é atendida pelo SUS.

Também é possível ver um mercado em beneficiários de planos de saúde, na cobertura de procedimentos e tecnologias que não estão inclusas no rol da ANS. “Existem operadoras que olham com bons olhos porque ajuda o sinistro dele. O beneficiário que judicializa pode deixar de entrar na Justiça para pagar. Se tem uma opção que consegue resolver, provavelmente não vai para o extremo. Hoje uma operadora tem cobertura de dispositivos A, B ou C, mas o médico pode prescrever outra”, afirma a diretora.

Priscilla Martins estima que se o LEAP+ chegar a 1% da população exclusivamente atendida pelo SUS, já haveria um grande impacto para a saúde. Por conta das garantias necessárias para a aprovação de crédito, como automóveis e imóveis, há uma limitação no número de pessoas que podem fazer uso da plataforma, mas existem modalidades diferentes que buscam ampliar o acesso, com prazos que podem chegar até 20 anos.

“Nos Estados Unidos, apesar de ter uma população que depende do sistema privado, existe uma economia completamente diferente do Brasil, com taxas de juros muito baixas. Isso estimula um comportamento do americano comum de realizar um financiamento. No Brasil, mesmo que a pessoa tenha conhecimento das taxas de juros, não é viável. Não vai caber no orçamento dela”, observa Martins.

Americanização?

“Quando há um crescimento do emprego formal a tendência é o número de beneficiários de planos de saúde aumentar. Mas vemos que há um crescimento da informalidade. Às vezes as pessoas têm trabalho, mas sem direitos e benefícios. O plano de saúde virou uma questão de luxo para muitos”, afirma a economista Tassia Holguin, do IBGE.

Nesse cenário, muita gente passou a adotar o desembolso próprio como saída para a ineficiência do SUS em algumas áreas e a falta de um plano de saúde. No entanto, existe uma preocupação sobre como as deficiências do sistema podem acabar por transformar o modelo assistencial brasileiro.

“O Brasil comparado aos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem um gasto das famílias com saúde muito grande. Os Estados Unidos tem uma despesa per capita alta, mas não possui sistema público de saúde, com um sistema bastante ineficiente”, observa a analista da Conta-Satélite de Saúde.

Por não ter um sistema público de saúde, os americanos precisam desembolsar valores com serviços que vão de ambulância até internação. Mesmo quem tem plano de saúde precisa arcar com custos extras que podem surgir. Em 2021, os EUA gastaram quase 18% do PIB em saúde.

Por isso, os especialistas reforçam que os serviços out of pocket podem ser uma solução potencial para problemas individuais, mas que é preciso pensar estruturalmente no fortalecimento do sistema de saúde brasileiro, seja público ou privado. O aumento da demanda e das empresas nesse sentido deve acender um alerta para gestores.

“O país como um todo está gastando mais com a saúde. Isso significa que nosso sistema está ficando mais caro, mas não necessariamente melhor. Sabemos que há outros países que têm bons sistemas de saúde e um gasto proporcional a 9% do PIB, e temos os Estados Unidos que é uma exceção, um país rico que gasta mais de 17% do PIB com saúde e não tem bons indicadores. Nosso receio é o Brasil ir em uma direção semelhante ao americano”, afirma o pesquisador José Sestelo, do GPDES.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

About the Author: Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

Leave A Comment

Recebar nossa Newsletter

NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

Artigos Relacionados

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br