Os médicos e as redes sociais: um espaço a ser ocupado

Ficamos tão preocupados com o que os colegas podem pensar e, com isso, esquecemos de que nossas ideias, paixões e conhecimentos podem ser um instrumento para o mundo

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Eu sou filha de professora de português. Escrever direito e se expressar bem por meio da linguagem sempre foram obrigações lá em casa. E, por sorte ou alinhamento do cosmos, eu adoro fazer isso. Especialmente quando o assunto é saúde. Já escrevo sobre o tema na internet há cerca de 10 anos, quando tudo ainda era mato. Já tive minhas palavras reproduzidas em blogs, redes sociais, colunas e revistas de grande circulação.

Sempre julguei este um esforço relevante porque saúde é um dos temas mais buscados na internet. Já citei essas estatísticas em um dos meus textos anteriores aqui no Futuro, mas vou repeti-las: 83% das pessoas no mundo usam a internet para buscar informação em saúde. Cerca de um bilhão de buscas relacionadas ao tema acontecem diariamente no Google. São mais de 70.000 por minuto.

No Brasil, isso é ainda mais intenso: 71% de nossa população tem acesso a internet, mas só 25% têm plano de saúde. Aqui, cerca de um terço das pessoas lançam mão da pesquisa na internet antes mesmo de conseguir agendar uma consulta médica. Afinal, como elas não podem (e, muitas vezes, nem deveriam) aparecer em um consultório toda vez que têm uma dúvida, é natural que façam uso das ferramentas que, literalmente, estão em suas mãos: os smartphones e as redes sociais.

E é justamente nesse contexto que surge um problema: a maioria dos médicos não estão nelas e não estão prontos para usá-las. Pelo menos, não como médicos. Frequentam esses ambientes apenas com perfis pessoais.

Eu acredito que esse fenômeno ocorre porque nós, médicos, aprendemos desde o início da faculdade que precisamos de permissão para falar. Somos ensinados a acreditar que o único lugar em que podemos compartilhar ideias é nas páginas de revistas científicas indexadas ou no púlpito de um congresso.  Afinal, esses são lugares que obrigam que nossa mensagem passe pelo filtro de alguém, seja o dos responsáveis pela programação do evento ou pelos editores dos periódicos.

Fomos criados para buscar aprovação antes mesmo de pegar o microfone ou digitar as primeiras palavras no editor de texto do computador. Ficamos tão preocupados com o que os colegas podem pensar e, com isso, esquecemos de que nossas ideias, paixões e conhecimentos podem ser um instrumento para o mundo.

O resultado? Esse vácuo entre não estarmos nas redes como médicos por medo de parecermos pouco profissionais e uma população sedenta por conhecimento em saúde nesses mesmos locais. Um efeito colateral gravíssimo acaba se tornando inevitável: a proliferação de fakenews e informações de baixa qualidade quando o tema é saúde.

Frente a isso, não é de se espantar a proliferação grupos e conteúdos dos mais variados tipos: começou há alguns anos com o movimento anti-vacinas (associando-as incorretamente à ocorrência de autismo em crianças) e, mais recentemente, ganhou escala gerando uma pandemia não só de coronavirus, mas também de desinformação: com mensagens sobre curas milagrosas, remédios caseiros e tratamentos precoces para a infecção por COVID-19. Tudo isso a apenas um botão “compartilhar” de distância no Whatsapp ou no Facebook.

Porque aqui vem o problema: por mais que os pacientes tenham acesso à informação, eles não têm o conhecimento para fazer a curadoria dela. Não foram educados para ler e interpretar estudos científicos, nem conhecem os critérios da Medicina Baseada em Evidências.

O espaço público, mesmo que virtual, é onde as conversas, informação e conhecimento colidem. Foi-se o tempo em que nossa obrigação de cuidar limitava-se ao momento em que o paciente adentrava o consultório ou se internava no hospital.

Mais do que nunca, nós médicos temos um dever ético e moral de fincar nossa bandeira nas redes sociais e ocupar esse espaço. Assim, quem sabe, conseguiremos ajudar a criar um mundo pós-pandemia onde informação de qualidade em saúde seja a única coisa a ser transmitida de forma viral.

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