Home Colunista Os erros do Brasil quanto ao diagnóstico precoce do câncer

Os erros do Brasil quanto ao diagnóstico precoce do câncer

Na oncologia, em 2020, o Brasil investiu R$ 545 milhões em tratamentos. Segundo o Globocan (OMS), nesse mesmo ano foram diagnosticados 522.212 novos casos e cerca de 260.000 pessoas morreram de câncer no país

               
417

Diariamente, ouvimos notícias de mais e mais pessoas, homens, mulheres de todas as idades, celebridades ou anônimas, que receberam o diagnóstico de um câncer. Invariavelmente, esses diagnósticos ocorrem quando o indivíduo já tem algum sintoma e o tratamento para a doença muitas vezes será mais invasivo, mais tóxico, poderá gerar sequelas e tirar o paciente mais tempo de suas atividades cotidianas, impactando significativamente a sua vida.  

Muitas são as discussões sobre o câncer e o acesso dos pacientes a diagnóstico e tratamentos. Temos informação e dados robustos sobre a doença, inclusive de vida real, disponibilizados por estudos e pesquisas cientificas. Porém, seguimos patinando sem avançar e propor mudanças efetivas que nos ajudem a chegar antes da doença ser diagnosticada em estágio III ou IV.

Desde que iniciei minha trajetória como empreendedora social na saúde, há quase 15 anos, ouço e falo sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer, mas que na prática não ocorre. Estou me referindo ao real diagnóstico precoce, que identifica o tumor em um exame de rotina, antes do paciente sentir os primeiros sintomas da doença, o que reduz a necessidade de tratamentos agressivos e aumenta as chances de cura. Refiro-me ao diagnóstico precoce do câncer no acompanhamento regular que o indivíduo faz, pois passou a entender o valor de monitorar a sua saúde.

Debatendo sobre o diagnóstico precoce

Neste ano, durante as atividades do Dia Mundial do Câncer (4/2), o Instituto LAL reuniu especialistas e uma paciente para debater o tema “no câncer temos de chegar antes, temos de vencer essa maratona”, caso contrário, conviveremos eternamente com o aumento de casos e a necessidade de mais recursos financeiros para tratá-lo. Não podemos esquecer que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já divulgou que, em 2030, o câncer será a principal causa de morte no mundo, superando as doenças cardiovasculares, atualmente líderes do ranking da mortalidade global.

Nesse debate, foi destacada a ineficácia do rastreamento oportunístico e desorganizado, que deixa “nas mãos” do indivíduo a decisão de ir ou não realizar os exames, como a mamografia, por exemplo, que é considerado padrão ouro para o diagnóstico do câncer de mama, ou o PSA e o toque retal, para identificar o câncer de próstata nos homens.

No caso do câncer de próstata, o LAL tem orgulho de ter criado a campanha Novembro Azul, alertando os brasileiros para a importância de realizar os exames anuais para o diagnóstico do câncer de próstata em homens a partir de 45/50 anos. Antes da campanha, o assunto era tabu e, se discutido, na maioria das vezes incorporava preconceito e desinformação. Após 10 anos da iniciativa, o cenário evoluiu, pois milhares de homens e suas famílias já compreendem que saber se há um tumor e a forma de tratá-lo será a diferença entre viver e morrer e entre viver com qualidade ou sofrer sequelas que impactam sua saúde física e emocional.

O que há de errado?

Voltando na tecla “onde o Brasil tem errado” em chegar antes e identificar o câncer no estágio inicial, há inúmeras questões a encarar: como redimensionar o acesso para os pacientes, que no nosso país prioriza certas regiões e grupos populacionais em detrimento a outros; a dicotomia entre saúde pública e privada; o fortalecimento e a possibilidade de inovação na atenção primária e o entendimento de que incorporar novas tecnologias não significa somente medicamentos. Incorporar tecnologia é também oferecer opções para diagnóstico precoce, testes genéticos, que identificam mutações nas gerações futuras e, ainda, novos processos de gestão e financiamento.

Especificamente na oncologia, em 2020, o Brasil investiu R$ 545 milhões em tratamentos. Segundo o Globocan (OMS), nesse mesmo ano foram diagnosticados 522.212 novos casos e cerca de 260.000 pessoas morreram de câncer no país.  A previsão é que esses números cresçam impactados pela transição demográfica e epidemiológica. Entretanto, temos visto pouco investimento em ações de prevenção, que evitariam desperdícios, por exemplo, com tratamentos de tumores como o de colo de útero nas mulheres e o de pênis nos homens, que podem ser evitados com a vacina do HPV, disponibilizada gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para adolescentes (meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos) e, no caso específico do tumor de pênis, intensificar a informação junto às populações mais vulneráveis sobre hábitos de higiene íntima.

Elencar dificuldades no combate ao câncer no Brasil é chover no molhado. Elas sempre existirão, considerando o aumento da expectativa de vida e a pouca consciência e engajamento da população para a prevenção e promoção da saúde. Segundo a Organização Panamericana da Saúde (OPAS), “entre 30% e 50% dos casos de câncer são preveníveis pela vacinação (contra hepatite B e HPV) e com a redução da prevalência de fatores de risco conhecidos, como tabagismo (que causa 25% das mortes por câncer), dietas deficientes em frutas e vegetais e ricas em carne vermelha e processada; consumo de álcool; inatividade física; sobrepeso e obesidade. A exposição a agentes cancerígenos no local de trabalho também é um fator de risco”.

“Acelerar a prevenção é fundamental para evitar novos casos”, enfatizou o diretor de Doenças Não Transmissíveis e Saúde Mental da OPAS, Anselm Hennis, que em julho de 2021 participou do Fórum Brasil: Câncer e doenças cardiovasculares, o desafio é de todos, realizado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida. O doutor Hennis vai além e diz que “para que a prevenção seja efetiva, ela deve ser baseada em abordagens governamentais, com legislação, regulamentação e políticas fiscais combinadas com atividades para mudar o comportamento individual e comunitário”.

Parece que o discurso de que todos nós atores que compõem o ecossistema da saúde (gestores públicos e privados; parlamentares; organizações sociais; sociedades de especialidades; academia; indústria, pacientes e a sociedade civil em geral) temos de partir para a ação não tem sido suficiente para mudar o cenário do câncer no Brasil.  Seguimos convivendo com a disparidade entre os sistemas público e privado e inflando as responsabilidades do SUS (Sistema Único de Saúde), reiterando que ele deve oferecer tudo para todos, já que a Constituição diz que “saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado”.

Não há no mundo um país que tenha recursos para incorporar tudo o que a indústria disponibiliza e que é fundamental priorizar o que fará a diferença. Além de colocar na balança das decisões o fato de que as tecnologias devem estar disponíveis para quem precisa, na hora certa, para tratar melhor e impactar menos a qualidade de vida do paciente. Sobre isso, destaco, por exemplo, a incorporação de tecnologia para o tratamento do câncer melanoma, incorporada há cerca de três anos no SUS, mas que até a data de hoje não chegou aos pacientes.

Precisamos refletir pra valer, entender onde temos errado, ajustar as peças, calibrar os recursos e valorizar o que já existe e funciona, pois no meio de muitos descompassos há iniciativas bem sucedidas nesse país continental que podem ser replicadas. É mandatório, também, dedicar atenção às leis. Torná-las amplamente conhecidas pela população e cumpridas com rigor. Penso que devemos refletir acerca de justiça. O que são cuidados mais justos para o paciente com câncer? Estamos de fato sendo justos com todos eles?

Talvez, se os atores que mencionei neste artigo estabelecessem uma agenda única em prol da Nação sobre todas essas questões, conseguiríamos achar as respostas que os pacientes com câncer tanto precisam para ter o acesso e o tratamento que merecem como cidadãos, estando de fato no centro do cuidado.

O resultado certamente será a redução no número de casos avançados e sem alternativas de tratamento e, consequentemente, a redução de mortes por câncer no nosso país, possibilitando o reencontro de milhões de brasileiros que hoje lutam contra um câncer, com a sua própria vida e seus planos de futuro.     

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente texto! A saúde caminho a passos largos para o conhecimento da biologia das doenças, mas infelizmente isso não se reflete na ponta com melhora de resultados. Como buscar a equidade do sistema incorporando as novas tecnologias? Na minha opinião, esse espaço só se criará se tivermos menos pacientes de alta complexidade e isso só se alcança com uma boa política de atenção primária à saúde.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui