Os dias de glória do estetoscópio parecem estar chegando ao fim

Já foi comprovado que, apesar de barato e disponível, o tradicional estetoscópio é um método diagnóstico com baixa sensibilidade e ligado à transmissão de superbactérias. Mas será que ele vai sumir da prática médica?

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Poucas coisas são tão icônicas no arquétipo do médico quanto o contraste do jaleco branquinho e o estetoscópio (geralmente preto) ao redor do pescoço. Tanto que um dos momentos mais especiais da vida de quem está se tornando médico(a) é comprar o primeiro estetoscópio.

Lembro (e tenho) até hoje o meu. Foi suado. Juntei o dinheiro de muitos meses de um estágio remunerado para colocar minhas mãos naquele precioso Littman preto. Quando abri a caixa, ele chegava a brilhar. E, praticamente, pude sentir Hipócrates, Galeno e Flemming darem um tapinha no meu ombro, como se dissessem: “Seja bem-vinda ao clube, jovem”.

Depois do kit de dissecção (com pinças e bisturi) usado nas aulas de Anatomia, ele é uma das primeiras e mais preciosas ferramentas que adquirimos na carreira. E, não se enganem: demora para aprender a usá-la. As primeiras vezes em que o professor te coloca na frente de um paciente, pede para você auscultá-lo e descrever o que ouviu são frustrantes. Mas, uma vez que se aprende, chega a ser mágico conseguir “ouvir” as pistas que as doenças literalmente sussurram em nossos ouvidos para nos ajudar a fazer diagnósticos.

O que pouca gente sabe é que o estetoscópio foi muito combatido pela comunidade médica e levou quase três décadas para ser aceito e incorporado no dia-a-dia da profissão.

Antes disso, o normal era encostar o ouvido no peito do paciente, de forma a fazer a ausculta (o que causa arrepios quando se pensa em doenças infecto-contagiosas e na Covid-19).

Isso incomodava demais o médico francês Laennec, que ficava desconfortável toda vez que precisava encostar seu rosto no peito de uma paciente mulher para examiná-la. E, em 1816, ele quebrou a cabeça e inventou a primeira versão do estetoscópio moderno, um cilindro que permitia fazer esse exame à distância (mesmo que de centímetros) e com mais acurácia.

Os colegas médicos da época reagiram com palmas? Agradecimentos? Não. Com muita revolta e consternação. Consideraram a invenção um absurdo: algo que poderia desumanizar a Medicina e enfraquecer a relação médico-paciente. Tem até uma frase famosa de um médico proeminente na época (John Forbes) sobre esse assunto:

“É extremamente duvidoso que (o estetoscópio) venha a ter seu uso disseminado; sua aplicação benéfica requer muito tempo e dá muito trabalho tanto para o paciente quanto para o médico; ele é estranho e oposto a todos os nossos hábitos e associações.”

Difícil de acreditar, não? O fato é que essa resistência se repete diversas vezes na história da Medicina:  Semmelweiss sofreu ao defender a lavagem das mãos como medida para prevenir infecções (“Absurdo.”), Gruentzig teve que lutar muito para convencer os colegas de profissão sobre o potencial da angioplastia das coronárias (“Nunca vai funcionar.”) e, mais recentemente, assistimos ao combate à telemedicina, que foi tema do meu artigo anterior. Ela vinha sendo rechaçada ao longo de vários anos, com argumentos bem semelhantes, até que a pandemia nos mostrasse sua importância e fizesse com que ela precisasse sofrer uma cesárea de urgência ao invés do parto normal que tentávamos há anos para regulamentar a prática.

Agora um SPOILER: até mesmo os dias de glória do estetoscópio parecem estar chegando ao fim. Já foi comprovado que, apesar de barato e disponível, ele é um método diagnóstico com baixa sensibilidade.  Dentre diversos outros exemplos, uma metanálise da Nature (desse ano) demonstrou que só é possível ouvir os típicos estertores (os ruídos pulmonares anormais) em 4 de cada 10 casos de edema agudo de pulmão em pacientes com insuficiência cardíaca.

Estetoscópios também estão ligados à transmissão de superbactérias resistentes à antibióticos. Até um surto de Covid-19 em um hospital na África foi ligado ao uso de estetoscópios não higienizados com a frequência adequada, trazendo uma discussão que ficou impossível de ser ignorada à luz da pandemia.

O próprio estudo da Nature conclui dizendo que “quando melhores modalidades diagnósticas estiverem disponíveis, elas devem substituir a ausculta pulmonar. Apenas em locais com limitação de recursos, alta prevalência de doenças e em mãos experientes, a ausculta com estetoscópio ainda tem lugar”.

Nesse sentido, já tem anos que se demonstrou o quanto a ultrassonografia é melhor. Seu custo também caiu vertiginosamente com o advento de probes que se adaptam a smartphones e já foi comprovado que, com o ultrassom e apenas 18 horas de treinamentos, estudantes de medicina conseguem diagnosticar problemas cardíacos com mais precisão do que cardiologistas experientes usando um estetoscópio. Então por que ele não se torna lugar-comum?

Seria apego à tradição? Viés de valorizar a própria experiência e a “arte”? Não sei. O (inconveniente) fato é que médicos, em sua maioria, têm dificuldade de aceitar o novo. Estudos já chegaram a mostrar, inclusive, que o tempo necessário para uma evidência científica se traduzir em prática usual no dia-a-dia dos médicos é de cerca de 17 anos. Sim, é isso mesmo. São dezessete anos entre os estudos na literatura científica comprovarem que já existe, por exemplo, um tratamento/técnica/método diagnóstico melhor que o usual para uma determinada doença e os médicos começarem a realmente aplicá-los rotineiramente em seus pacientes.

Defendo a moratória do estetoscópio e da tradição da Medicina? De forma alguma. Mas, definitivamente, combato a postura de resistir à evolução. Especialmente quando a ciência já nos apresenta alternativas melhores. Até porque, lá atrás, o próprio Hipócrates (a personificação da tradição) já tinha dito “A vida é curta; a arte é longa, a oportunidade é fugaz e o julgamento é difícil”. Se isso não deixa clara a necessidade da plasticidade e do aprendizado constante na carreira dos médicos desde a Grécia Antiga, sinceramente não sei o que pode deixar.

As tecnologias e a velocidade da produção de novos conhecimentos científicos estão acelerando esse processo e fazendo com que seja necessário mergulharmos para dentro de nós mesmos para redefinir o papel do médico e dos símbolos que nos definem. Ao invés de temê-lo, é hora de pegar essas novas ferramentas e começar a criar o futuro que é melhor para nós e para nossos pacientes. Hoje.

Nesse futuro, será preciso que entender que a arte e a tradição da medicina devem continuar sendo aprendidas e respeitadas, mas nunca em detrimento da precisão e da certeza, especialmente quando o que está em jogo são vidas. E que talvez o estetoscópio não esteja mais ao redor do nosso pescoço nessa jornada.

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