Home Colunista Os dias de glória do estetoscópio parecem estar chegando ao fim

Os dias de glória do estetoscópio parecem estar chegando ao fim

Já foi comprovado que, apesar de barato e disponível, o tradicional estetoscópio é um método diagnóstico com baixa sensibilidade e ligado à transmissão de superbactérias. Mas será que ele vai sumir da prática médica?

               
989

Poucas coisas são tão icônicas no arquétipo do médico quanto o contraste do jaleco branquinho e o estetoscópio (geralmente preto) ao redor do pescoço. Tanto que um dos momentos mais especiais da vida de quem está se tornando médico(a) é comprar o primeiro estetoscópio.

Lembro (e tenho) até hoje o meu. Foi suado. Juntei o dinheiro de muitos meses de um estágio remunerado para colocar minhas mãos naquele precioso Littman preto. Quando abri a caixa, ele chegava a brilhar. E, praticamente, pude sentir Hipócrates, Galeno e Flemming darem um tapinha no meu ombro, como se dissessem: “Seja bem-vinda ao clube, jovem”.

Depois do kit de dissecção (com pinças e bisturi) usado nas aulas de Anatomia, ele é uma das primeiras e mais preciosas ferramentas que adquirimos na carreira. E, não se enganem: demora para aprender a usá-la. As primeiras vezes em que o professor te coloca na frente de um paciente, pede para você auscultá-lo e descrever o que ouviu são frustrantes. Mas, uma vez que se aprende, chega a ser mágico conseguir “ouvir” as pistas que as doenças literalmente sussurram em nossos ouvidos para nos ajudar a fazer diagnósticos.

O que pouca gente sabe é que o estetoscópio foi muito combatido pela comunidade médica e levou quase três décadas para ser aceito e incorporado no dia-a-dia da profissão.

Antes disso, o normal era encostar o ouvido no peito do paciente, de forma a fazer a ausculta (o que causa arrepios quando se pensa em doenças infecto-contagiosas e na Covid-19).

Isso incomodava demais o médico francês Laennec, que ficava desconfortável toda vez que precisava encostar seu rosto no peito de uma paciente mulher para examiná-la. E, em 1816, ele quebrou a cabeça e inventou a primeira versão do estetoscópio moderno, um cilindro que permitia fazer esse exame à distância (mesmo que de centímetros) e com mais acurácia.

Os colegas médicos da época reagiram com palmas? Agradecimentos? Não. Com muita revolta e consternação. Consideraram a invenção um absurdo: algo que poderia desumanizar a Medicina e enfraquecer a relação médico-paciente. Tem até uma frase famosa de um médico proeminente na época (John Forbes) sobre esse assunto:

“É extremamente duvidoso que (o estetoscópio) venha a ter seu uso disseminado; sua aplicação benéfica requer muito tempo e dá muito trabalho tanto para o paciente quanto para o médico; ele é estranho e oposto a todos os nossos hábitos e associações.”

Difícil de acreditar, não? O fato é que essa resistência se repete diversas vezes na história da Medicina:  Semmelweiss sofreu ao defender a lavagem das mãos como medida para prevenir infecções (“Absurdo.”), Gruentzig teve que lutar muito para convencer os colegas de profissão sobre o potencial da angioplastia das coronárias (“Nunca vai funcionar.”) e, mais recentemente, assistimos ao combate à telemedicina, que foi tema do meu artigo anterior. Ela vinha sendo rechaçada ao longo de vários anos, com argumentos bem semelhantes, até que a pandemia nos mostrasse sua importância e fizesse com que ela precisasse sofrer uma cesárea de urgência ao invés do parto normal que tentávamos há anos para regulamentar a prática.

Agora um SPOILER: até mesmo os dias de glória do estetoscópio parecem estar chegando ao fim. Já foi comprovado que, apesar de barato e disponível, ele é um método diagnóstico com baixa sensibilidade.  Dentre diversos outros exemplos, uma metanálise da Nature (desse ano) demonstrou que só é possível ouvir os típicos estertores (os ruídos pulmonares anormais) em 4 de cada 10 casos de edema agudo de pulmão em pacientes com insuficiência cardíaca.

Estetoscópios também estão ligados à transmissão de superbactérias resistentes à antibióticos. Até um surto de Covid-19 em um hospital na África foi ligado ao uso de estetoscópios não higienizados com a frequência adequada, trazendo uma discussão que ficou impossível de ser ignorada à luz da pandemia.

O próprio estudo da Nature conclui dizendo que “quando melhores modalidades diagnósticas estiverem disponíveis, elas devem substituir a ausculta pulmonar. Apenas em locais com limitação de recursos, alta prevalência de doenças e em mãos experientes, a ausculta com estetoscópio ainda tem lugar”.

Nesse sentido, já tem anos que se demonstrou o quanto a ultrassonografia é melhor. Seu custo também caiu vertiginosamente com o advento de probes que se adaptam a smartphones e já foi comprovado que, com o ultrassom e apenas 18 horas de treinamentos, estudantes de medicina conseguem diagnosticar problemas cardíacos com mais precisão do que cardiologistas experientes usando um estetoscópio. Então por que ele não se torna lugar-comum?

Seria apego à tradição? Viés de valorizar a própria experiência e a “arte”? Não sei. O (inconveniente) fato é que médicos, em sua maioria, têm dificuldade de aceitar o novo. Estudos já chegaram a mostrar, inclusive, que o tempo necessário para uma evidência científica se traduzir em prática usual no dia-a-dia dos médicos é de cerca de 17 anos. Sim, é isso mesmo. São dezessete anos entre os estudos na literatura científica comprovarem que já existe, por exemplo, um tratamento/técnica/método diagnóstico melhor que o usual para uma determinada doença e os médicos começarem a realmente aplicá-los rotineiramente em seus pacientes.

Defendo a moratória do estetoscópio e da tradição da Medicina? De forma alguma. Mas, definitivamente, combato a postura de resistir à evolução. Especialmente quando a ciência já nos apresenta alternativas melhores. Até porque, lá atrás, o próprio Hipócrates (a personificação da tradição) já tinha dito “A vida é curta; a arte é longa, a oportunidade é fugaz e o julgamento é difícil”. Se isso não deixa clara a necessidade da plasticidade e do aprendizado constante na carreira dos médicos desde a Grécia Antiga, sinceramente não sei o que pode deixar.

As tecnologias e a velocidade da produção de novos conhecimentos científicos estão acelerando esse processo e fazendo com que seja necessário mergulharmos para dentro de nós mesmos para redefinir o papel do médico e dos símbolos que nos definem. Ao invés de temê-lo, é hora de pegar essas novas ferramentas e começar a criar o futuro que é melhor para nós e para nossos pacientes. Hoje.

Nesse futuro, será preciso que entender que a arte e a tradição da medicina devem continuar sendo aprendidas e respeitadas, mas nunca em detrimento da precisão e da certeza, especialmente quando o que está em jogo são vidas. E que talvez o estetoscópio não esteja mais ao redor do nosso pescoço nessa jornada.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui