Os desafios que a Covid-19 traz para a sociedade e para os gestores em saúde

O fechamento do comércio nos finais de semana e as restrições no período da noite certamente vão reduzir a transmissão e o número de casos novos, mas é pouco provável que consigam conter a evolução da doença.

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Vacinação drive thru na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), zona norte do Rio. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Vivemos hoje o pior momento da Covid-19 no Brasil, uma doença que afeta de forma intensa a saúde, a economia e o comportamento. Na última semana foram quase 10.800 mortos. Apesar da gravidade, muitas pessoas mostram um comportamento que sugere menos medo, preocupação e cuidado, algo que pode levar a consequências graves para elas e para os que com elas convivem. A dificuldade em implementar medidas mais severas de distanciamento social acontece não só no Brasil, mas em muitas outras partes do mundo como Áustria, Bélgica, Alemanha, Holanda, Espanha e Reino Unido, onde protestos acontecem como reação às propostas de lockdown.

É interessante trazer algumas comparações com outros fatos do dia a dia para que consigamos dimensionar a gravidade do momento e tentar trabalhar percepções, escolhas e comportamentos. Vamos usar a aviação como referência para comparação. Uma queda de avião sempre traz uma reação forte das pessoas e gera movimentos e investigações para avaliar os motivos da queda e a segurança dos voos. Um voo da ponte aérea entre Rio de Janeiro e São Paulo leva pouco menos de 200 pessoas em cada viagem. O número de mortes que aconteceu na última semana representa cerca de 56 aviões caindo em uma semana. O número de pessoas voando cairia drasticamente se uma realidade dessa acontecesse e medidas extremas de proteção seriam adotadas.

O fato é que estamos em uma situação de guerra de escala mundial que começou em janeiro de 2020. Como acontece com sociedades que vivem em locais de conflito e guerra por um tempo longo, problemas graves e inaceitáveis acabam sendo tratados com uma normalidade indevida porque as pessoas vão se acostumando e se adaptando, criando um novo normal. Nesse cenário, o impacto das doenças mentais como ansiedade e depressão leva a uma revisão contínua das percepções e das escolhas previamente feitas.

Existe também o problema daqueles que vão vivendo uma realidade financeira cada vez mais difícil em função das mudanças e restrições causadas pela pandemia e esse é um motivo forte para que ações que reduzem a transmissão e o contágio não aconteçam. É real que algumas pessoas têm um comportamento egoísta e irresponsável, mas não podemos tratar o problema da falta de adoção do distanciamento social imaginando que ele é uma consequência única das festas e das aglomerações em bares. Existe um mundo de pessoas, que sem auxílio financeiro, precisam escolher entre priorizar o presente, no caso a sobrevivência delas e das famílias, ou o futuro, no caso o risco de ser acometido pela Covid-19. É possível que a chegada das vacinas tenha trazido uma percepção de solução no curto prazo, mas isso é uma incógnita, já que o novo coronavírus tem mostrado uma capacidade grande de se transformar em formas mais resistentes, transmissíveis e agressivas.

Um problema que temos na condução da Covid-19 e na gestão do sistema de saúde como um todo é a falta de informação complexa, detalhada e em tempo real. Sem informação não conseguimos aprender com as ações que vão sendo feitas. Em relação às medidas de distanciamento, é uma sequência de aberturas e fechamentos que acontecem como uma reação aos números e não com base em estratégias e políticas bem desenhadas, baseadas em informação. Falta informação sobre a transmissão, como ela ocorre no dia a dia. O fechamento do comércio nos finais de semana e as restrições no período da noite certamente vão reduzir a transmissão e o número de casos novos, mas é pouco provável que consigam conter a evolução da doença. Se grande parte do volume de transmissão acontece durante os dias da semana, no período noturno, tais medidas não trarão o controle da doença.

Gerar informação detalhada sobre como a transmissão ocorre é fundamental para que políticas e ações de sucesso aconteçam. Existe hoje recurso para que esse tipo de rastreamento de contatos seja feito, com auxílio por exemplo das companhias telefônicas e softwares que mostram a mobilidade urbana e a interação entre pessoas. Os países que tiveram o maior sucesso no controle da Covid-19 foram aqueles que controlaram a transmissão.

As variantes do novo coronavírus são um problema crítico que mostram o quão difícil é lidar com a doença. Entender a capacidade de transmissão, o potencial de causar doença grave, a resistência às diferentes vacinas, o potencial de reinfecção são algumas das perguntas que precisam ser respondidas rapidamente. Procedimentos como mapeamento genético passam a ser um recurso necessário no entendimento e enfrentamento da pandemia. O cenário atual era imaginado por poucos no primeiro semestre do ano passado.

Medidas de distanciamento tomadas hoje só vão ter algum efeito na redução da sobrecarga do sistema de saúde em 2 a 4 semanas. Nesse período próximo de 2 a 4 semanas o que vai fazer diferença é a capacidade de atender de forma adequada as pessoas infectadas pela Covid-19. A vacinação lenta também atrapalha no combate a pandemia. O sistema de saúde tem dificuldade em se estruturar de forma adequada e rápida para lidar com a sobrecarga esperada, sendo o principal problema a falta de recursos humanos, embora outros itens como falta de oxigênio e de medicamentos para sedação e intubação também são um gargalo importante.

Infelizmente ainda vivemos hoje uma situação que marcou o começo da Covid-19, com muitas incertezas sobre a doença e sua evolução, falta de informação, incapacidade de estruturar o sistema de saúde de forma adequada na velocidade necessária, falta de estratégia, planejamento, liderança, coordenação e comunicação.

Projeções e promessas que não se cumprem, como as do programa de vacinação, que mudam a toda hora, geram a percepção de incapacidade e ineficiência. A análise da reação e comportamento das pessoas e da evolução da economia ao longo da pandemia vai permitir um grande aprendizado para o enfrentamento de pandemias futuras.

A Covid-19 mostrou as fraquezas mais importantes do sistema de saúde, no Brasil e no mundo, e eles precisam de uma reestruturação completa, não apenas de pequenos ajustes ou melhoras incrementais.

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