ONG se adapta ao distanciamento e leva música e arte aos hospitais de forma virtual

Durante a pandemia de coronavírus, as voluntárias tiveram que se adaptar para encontrar as pacientes através das chamadas de vídeo em grupo. Em 2020, foram atendidas 70 mil pessoas -- um crescimento de 55% em relação ao ano anterior.

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A enfermeira do InCor entra na ala de internação às 13h30, onde encontra com Lindamar, que veio de Recife e acompanha o filho com síndrome de Down no hospital. Enquanto a criança descansa, a mãe pode conversar com Carol e Elaine, voluntárias e contadoras de histórias da Arte Despertar, um projeto que usa arte e cultura para se conectar aos pacientes e que trabalha para transformar a “percepção de dor, fragilidade e tensão”. Carol carrega uma sanfona e tem um fundo cor de rosa com uma planta pendurada como cenário de sua apresentação. Do outro lado, Elaine garante as cores usando uma blusa tão azul quanto uma caneta, brincos longos de formato de pena, além de ter consigo instrumentos em forma de passarinhos, ornamentados com cores para parecerem reais e que têm a capacidade de produzir o mesmo canto.  O cenário delas contrasta com o ambiente hospitalar, um grande fundo branco com pequenos pontos de um cinza azulado, cores que preenchem tudo, dos jalecos e vestes dos pacientes às paredes e lençóis.

O paciente tem a liberdade de direcionar a conversa para o que ele quiser. Depois da introdução, o show. Elas tocam forrós animados, como “Riacho do Navio” de Luiz Gonzaga, e outros clássicos brasileiros como músicas de Gilberto Gil. Logo após a cantoria, que diverte mãe e filho, vem a história. Uma narrativa indígena que traz elementos de força e esperança. “Eu desejo que você cresça para passarinho. Sabe o que isso significa? Um sonho tão grande quanto o céu”, interage a voluntária. 

Tudo isso acontece online, por meio de uma tela. Durante a pandemia de coronavírus, as voluntárias tiveram que se adaptar para encontrar as pacientes através das chamadas de vídeo em grupo com o auxílio de celulares e tablets. Em 2020, foram atendidas 70 mil pessoas — um crescimento de 55% em relação ao ano anterior. Rosana Junqueira, diretora executiva da associação, contou que não demorou muito até que eles se adaptassem à nova realidade para não deixar os pacientes desamparados. “O paciente estava ali sozinho, sem acompanhante, sem visita, sem família… foi um período difícil para todos. Com Covid-19 ou não, o paciente precisa de apoio além do médico, precisávamos levar outro conforto”, disse Rosana. 

Novos nichos de humanização à distância

A pandemia trouxe ainda novos segmentos: o trabalho com idosos e nas instituições de ensino. Nestes locais, a Arte Despertar ingressou o trabalho virtualmente e observou como é a atuação além dos hospitais. Nesses espaços, encontraram pessoas mais velhas ansiosas para compartilhar suas histórias e ter com quem conversar, e um público jovem que precisava mais do que aprendizado, mas sim ter a arte como um escape da realidade pandêmica.

“Como organização, vimos a dificuldade de conseguir se reinventar, pois todas nossas atividades eram presenciais. Tínhamos um preconceito de que nosso trabalho só atingiria as pessoas se fosse presencial, por causa do contato. Mas precisávamos quebrar esse paradigma”, conta Rosana. “Mas todos os paradigmas foram se quebrando com o tempo. O bate-papo com as pessoas, a música, a história que se conecta com a vida do paciente… percebemos que mesmo virtualmente é possível encontrar os mesmos recursos”, continuou.

Entre os parceiros da Associação Arte Despertar — além do Hospital InCor, onde tudo começou —, estão as instituições como GRAAC, Santa Casa, Instituto do Câncer, Hospital Infantil Darcy Vargas, Hospital AC Camargo, Hospital Beneficência Portuguesa, Hospital das Clínicas e outros.

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