Omar Abujamra Junior, da Unimed do Brasil: “Interação entre as unidades e prontuário compartilhado são prioridades”

Médico atua há 40 anos no Sistema Unimed e assume a presidência da Unimed do Brasil até 2025 com o objetivo de aumentar a interação entre as unidades

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Entrevista com Omar Abujamra Junior, da Unimed do Brasil

Desde abril de 2021 a Unimed do Brasil, que representa institucionalmente o Sistema Unimed, tem novo presidente: Omar Abujamra Junior, entrevistado do mês de julho em Futuro da Saúde. A nova diretoria executiva, sob a liderança de Omar, assumiu a gestão até 2025 em meio a um dos momentos mais desafiadores da saúde no Brasil e no mundo. E não apenas por causa da pandemia, mas pela evolução tecnológica, inovação por meio das healthtechs e demanda por mais agilidade, qualidade de atendimento e, ao mesmo tempo, pressão de custos.

Essa missão nada fácil se torna ainda mais difícil em um sistema tão extenso como o da Unimed, que conta com 342 cooperativas, 117 mil médicos cooperados, quase 18 milhões de beneficiários, mais de 2,4 mil hospitais credenciados e 131 hospitais próprios. O médico especialista em ginecologia e obstetrícia, que acumula mais de 40 anos de atuação na Unimed, com passagens pela presidência da Unimed Botucatu e da Federação das Unimeds do Estado de São Paulo, tem como um de seus objetivos promover maior integração entre as diversas unidades do Sistema: “Com 18 milhões de usuários, somos a maior operadora do país, mas desde que a gente pense e aja coletivamente”. Confira os principais trechos da entrevista:

Como a pandemia afetou a Unimed e como essa onda atual impacta o sistema?

Omar Abujamra Junior – O Sistema Unimed já vinha há algum tempo buscando novas tecnologias de comunicação e de gestão. Tanto que nos últimos dois ou três anos, fizemos três ou quatro missões para o Vale do Silício. Quando veio a pandemia, ainda não tínhamos começado o nosso projeto, mas estava praticamente pronto. Na parte assistencial o sistema Unimed pôde responder de imediato através dos mais de 130 hospitais próprios, quase 2.500 hospitais credenciados e 342 cooperativas Unimed espalhadas pelo Brasil, que alcançam 84% dos municípios. Cada uma tem a sua especificidade local, sua forma de se adaptar.

Entrevista com Omar Abujamra Junior, da Unimed do Brasil

E cada região possui uma característica…

Omar Abujamra Junior – É um sistema bastante plural, a gente procura buscar algumas padronizações, mas na verdade cada uma está inserida naquela sociedade e trabalha muito ligado a ela, porque os médicos são daquelas cidades, se fixaram lá, estão envolvidos. Isso foi um grande diferencial para o Sistema Unimed, essa interação com serviços públicos locais. E não houve uma decisão de definir que todo mundo deveria fazer as coisas um jeito único, uma padronização. Com isso, a pandemia nos levou para outro patamar na comunicação, na telemedicina, no contato e no uso da tecnologia, mais rápido do que a gente imaginava.

Sobre esse investimento em tecnologia, em inovação, essa preocupação de ir para o Vale do Silício e entender o que é novidade, quais ações estão se desdobrando agora?

Omar Abujamra Junior – Desde a primeira ida [ao Vale do Silício] temos desenvolvido dados de inovação na Federação Estadual, na Central Nacional, na própria Unimed do Brasil, nos seguros. Cada uma no seu ramo, em conjunto com aceleradoras e startups, foi fazendo os próprios projetos e se envolvendo em vários outros. Tivemos neste ano também as eleições do Sistema Nacional das Unimeds e esse grupo do qual eu faço parte tem como foco a interação dessas instituições, buscando as melhores práticas para trazer para dentro do sistema maior, o nacional, e levar aos sistemas menores. Quase 80% das nossas cooperativas estão localizadas em cidades do interior e são de pequeno ou médio porte, então é muito importante que o sistema nacional possa dar esse apoio. Uma das nossas pretensões é juntar todos esses dados e desenvolver os projetos de forma comum.

Entendo que são várias Unimeds, que atuam como organismos independentes, sem necessariamente seguir o mesmo padrão ou modelo de atendimento. Quais os desafios de buscar esse objetivo de integrar mais?

Omar Abujamra Junior – Esse é exatamente o problema, as pequenas Unimeds. Com esse novo panorama da saúde no país, elas têm muita dificuldade de sobreviver, porque a assistência médica é cara e se você tiver um evento caro, uma Unimed ou qualquer operadora que tenha um número reduzido de usuários vai ter dificuldade em fazer frente a essas despesas. Já estamos trabalhando há algum tempo na tentativa de uma união dessas menores, em torno de uma maior ou de várias menores se associando.

O nosso sistema tem dezoito milhões de usuários, mas não somos uma empresa única. Com 18 milhões de usuários, somos a maior operadora do país, mas desde que a gente pense e aja coletivamente. A ideia é trazer todos para uma ação única.

Cada um mantém a sua independência, mas trabalhar como uma ação única, inclusive em um mutualismo entre essas empresas. Vamos trabalhar juntos, como se fosse uma rede, com compras, com apoio na gestão. É esse o trabalho que pretendemos fazer com as nossas associadas.

Qual tipo de resistência é mais difícil de vencer nesse sentido? É talvez a cultura de colocar todo mundo dentro do mesmo guarda-chuva?

Omar Abujamra Junior – É um trabalho difícil, porque existe aquela sensação de pertencimento ou de posse de cada unidade. Uma coisa minha que vai ficar para outros, essa é uma diferença. A outra é a econômico-financeira, de como fazer essa junção. Estamos discutindo há muito tempo e acho que está chegando o momento desse amadurecimento.

O cliente de uma Unimed pequena, quando está perto de uma grande, prefere ir ao médico dessa grande. A resistência está aí. Do mesmo jeito que a pandemia acelerou processos, como a telemedicina, acho que a própria pandemia e essas discussões da saúde estão levando a esse entendimento de que precisa estar junto, pelo menos a nível estadual.

Existe na saúde um movimento muito forte de fusão, aquisição, abertura de capital, com as empresas buscando se fortalecer. E no caso da Unimed? Vocês pensam em abrir capital para talvez financiar essas mudanças?

Omar Abujamra Junior – Nós temos a Unimed Participações, que é uma holding do sistema. Através dela pretendemos investir, porque a cooperativa tem dificuldade de captar recursos. Dentro do próprio sistema a gente pode criar recursos para tal.

É como o Sistema consegue bater de frente com tudo o que está acontecendo no mercado de saúde?

Omar Abujamra Junior – O grande diferencial do sistema, como já mencionei, é o médico que está inserido na sociedade local. Ele não está vindo de uma outra localidade trabalhar ali, ele faz parte daquela sociedade. Então ele tem um apego bastante grande à cooperativa, porque faz parte dela. Além da concepção societária dela, ele faz parte daquele meio. Isso acontece, principalmente, nas cidades menores. Nas grandes capitais esse vínculo é um pouco menor, mas como eu disse, 80% das nossas cooperativas estão nos interiores, são pequenas. Então eu acho que essa é a grande força do sistema.

E com relação ao ecossistema de saúde? O que tem sido feito nesse sentido?

Omar Abujamra Junior – Existem várias iniciativas isoladas das nossas unidades. Recentemente, a gente vinha defendendo junto ao Governo do Estado de São Paulo a possibilidade de cruzar as informações do serviço público e privado, porque hoje não se falam. Inclusive algumas unidades dentro do serviço público também não se conversam e, com isso, você tem uma quantidade de exames repetidos de forma desnecessária. Então, um grande avanço seria ter essas informações em um banco de dados, seguindo a Lei Geral de Proteção de Dados. Isso agilizaria muito o atendimento, traria qualidade e acima de tudo economia, porque você evitaria repetir exames.

No Sistema Unimed já estamos começando a fazer isso entre nós, mas ainda encontramos resistência, tanto da parte do médico, que ainda há muitos que tem aquela formação do “o prontuário é meu”, como do paciente, que imagina que o dado dele é público, quando a guarda dessas informações é extremamente segura.

É possível esse cruzamento de dados entre o público e privado? Eu já conversei com algumas pessoas do setor que dizem que essa integração é praticamente uma utopia.

Omar Abujamra Junior – Olha, tenho certeza de que no meio médico é possível sim, mas precisamos vencer algumas barreiras que não são técnicas, não são tecnológicas, mas sim de aceitar que esse cruzamento tem que acontecer. Os órgãos superiores deveriam dar um estímulo a isso, pois melhoraria muito o acesso ao serviço, diminuiria essa pressão de você repetir atendimentos.

Tem sido uma tendência discutir como acontece a jornada do paciente e buscar qual é o momento certo do paciente procurar ajuda, fazer uma intervenção precoce. Isso também está no norte do Sistema Unimed, essa inteligência em volta do paciente?

Omar Abujamra Junior – Há mais de dez anos discutimos a questão da saúde primária. Tivemos a oportunidade de ver que isso funciona em vários países. A ideia básica seria essa, fazer o gerenciamento da saúde do paciente. Cada unidade primária teria médicos nas cadeiras básicas, com o clínico, ginecologista, obstetra, pediatra, em algumas ortopedistas fazendo o gerenciamento da saúde do paciente.

Onde esbarramos? Primeiro na cultura, porque o paciente quer ter o direito de ir ao especialista que ele entende que deve ir. Segundo, precisamos preparar os médicos para atender de forma adequada.

Já estamos fazendo isso por meio de vários cursos da Faculdade Unimed. Depois, hoje a legislação coloca que para eu fazer esse caminho [de oferecer atenção primária], tenho que vender um plano específico. Só em São Paulo temos 35 unidades de atenção primária e por mais que estejamos trabalhando há dez anos nisso, a gente não consegue evoluir no número de usuários porque seria a venda de um contrato novo.

O que falta para mudar essa cultura da população?

Omar Abujamra Junior – Temos trabalhado bastante nisso. Como eu vou vender um contrato? Como eu converso com quem vai comprar? Dizer “olha, é melhor esse caminho aqui para fazer a gestão saúde do que você ter acesso onde você quiser” é uma dificuldade. No momento que eu mostrar que um grupo foi bem atendido, que está funcionando bem, o outro grupo vem atrás. Está crescendo, mas em um movimento que poderia ter uma velocidade maior.

Entrevista com Omar Abujamra Junior, da Unimed do Brasil

E como é o desafio do envelhecimento da população nesse contexto? Porque talvez seja mais fácil você chegar nos jovens com esse tipo de cultura, entendendo essa administração da saúde dele, desse cuidado, do que uma pessoa mais velha que demanda mais cuidados.

Omar Abujamra Junior – Ao contrário. A tecnologia, a telemedicina e o acesso convencem o mais jovem a aceitar uma consulta remota, mas esse tipo de unidade de atenção primária de assistência convenceria o pessoal mais antigo. Estamos passando por um momento bastante interessante, então precisamos ter várias opções para oferecer. Doentes crônicos e pessoas de mais idade se beneficiariam muito da atenção primária, porque teriam um cuidador que faria a gestão da saúde. O jovem conseguiria utilizar melhor o que a gente pode oferecer de tecnologia. Em função da pluralidade do sistema a gente consegue oferecer, conforme a localidade, uma coisa ou outra, ou as duas que seria o ideal.

Como foi a implementação da telemedicina no Sistema Unimed desde que ela foi autorizada provisoriamente por causa da pandemia pelo CFM?

Omar Abujamra Junior – A telemedicina veio para ficar. A gente espera que o CFM regulamente algumas coisas, mas não tem volta. Aqui em São Paulo, junto com a Associação Paulista de Medicina, nós treinamos os médicos para fazer teleconsulta. A teleconsulta significa o médico se identificar, o paciente se identificar, ter um prontuário eletrônico e ele estar preparado para tal. O teleatendimento de pronto-socorro e de orientação foi muito utilizado na pandemia, evitando a ida aos serviços de urgências daqueles casos que você podia resolver. Temos isso no Sistema Unimed e estamos nos adaptando, porque com a telemedicina o usuário lá do interior pode acessar o médico especialista aqui de São Paulo, especialista da área que não tem na cidade dele. Ou como suporte ao médico generalista que está no interior e precisa de um especialista. Isso é uma melhoria.

No momento atual da medicina os dados são extremamente importantes e valem ouro tanto para o paciente quanto para o sistema de saúde. Com 80% das Unimeds no interior e bem diversas, como você mesmo disse, o Sistema conhece quem é o paciente? Os dados estão bem integrados? Como isso pode ser revertido em forma de benefícios para a população?

Omar Abujamra Junior – Esse é o gargalo que nós temos, conhecer esses dados. Boa parte do prontuário fica no consultório do médico. Mas a gente vem trabalhando, culturalmente, de forma que o nosso médico está começando a entender que isso é importante.

Do ponto de vista tecnológico, nós temos esse recurso, podemos fazer. O que nós precisamos? Primeiro, uma orientação do Conselho Federal de Medicina em relação a como se trafega com esses dados, pois existe toda uma orientação médica, técnica e tudo mais. Segundo, como seguir a LGPD, manusear esses dados considerando, por exemplo, ameaças de hackers. Então, estamos estruturando tudo com muito cuidado.

O cruzamento com o serviço público seria ótimo, mas entre nós mesmos precisamos desses dados, pelo prontuário eletrônico e isso é o básico. Em resumo, o fundamental seria o conhecimento dos dados através dos prontuários para que a gente pudesse trabalhar melhor, fazer a gestão de saúde.

A impressão que tenho é que o setor como um todo acelerou de forma muita intensa diversas atividades que antes estavam só no papel. Com sua experiência de vários anos na área da saúde, você acredita isso está realmente acontecendo? Por que não era feito antes? Por falta de tecnologia, por falta de vontade?

Omar Abujamra Junior – Acredito que a pandemia veio dizer “olha, vocês têm que fazer. Se não fizerem, não vão conseguir avançar, não vão conseguir fazer a gestão que estão precisando”. Isso aconteceu no mundo todo. O mundo não estava preparado para dar uma assistência dessa. O Brasil faz muito bem vacinação, coisa que países muito mais desenvolvidos que a gente não tinha essa cultura toda. Então temos muitas coisas boas que precisamos estimular. Acredito que nesses próximos dois anos a gente consiga implantar boas coisas que estavam sendo preparadas.

Entrevista com Omar Abujamra Junior, da Unimed do Brasil

Se tivesse que elencar prioridades, qual seria a primeira?

Omar Abujamra Junior – No Sistema Unimed seria a interação entre as nossas várias unidades e discutir o prontuário eletrônico. Da forma como ele tem que ser, cumprindo a legislação de proteção de dados. Mas temos que ter esse prontuário compartilhado para uma melhor assistência ao paciente. Esse é o passo mais difícil de dar, mas a partir daí tudo vai evoluir mais rapidamente.

Antes de terminar, no ano passado a Unimed Norte/ Nordeste enfrentou alguns problemas e a ANS chegou a emitir uma decisão de alienação da carteira de clientes para outra operadora. Qual é o papel do Sistema diante de uma situação dessa?

Omar Abujamra Junior – Cada unidade é independente. Seus sócios e recursos são geridos por eles. Quando há resultado positivo é distribuído entre eles e quando há resultado negativo também tem que ser distribuído. A Federação Norte-Nordeste vem há muito tempo com essa dificuldade de gestão. E ela congrega não uma cidade, mas várias cidades de vários estados ali na região. Isso ao longo do tempo foi sendo alterado. Várias unidades saíram da Federação Norte-Nordeste, que é uma Associação, e foram para outras, mantendo administração local, muito bem financeiramente e munidos de assistência.

A Federação Norte-Nordeste tem somente 15 mil usuários próprios e, em função dos problemas de gestão, acumulou dívidas, inclusive dentro do próprio Sistema. Está se discutindo a viabilidade de a Federação continuar existindo. Mas isso não implica na atenção porque as Unimeds que eram associadas continuaram trabalhando. Então a Federação teve as suas dificuldades, mas não na assistência. Existe a resolução da ANS, ela que vai ver a viabilidade ou não de manter o registro. Mas, dentro do Sistema, o nosso compromisso é atender o nosso usuário, seja ele de uma cidade ou de outra. Agora, a responsabilidade pelas dívidas ou pelo resultado econômico-financeiro é de cada unidade e dos seus sócios, não do conjunto. A responsabilidade do conjunto é assistencial e isso tem sido feito.

Para finalizar, queria ouvir um pouco sobre os desafios. Como o Sistema Unimed vai se portar frente a todas essas transformações de saúde, ao crescimento, ao mercado cada vez mais competitivo, qual vai ser o diferencial?

Omar Abujamra Junior – O que nós temos que fazer é estimular a união dessas pequenas unidades – e por que não das grandes? –, tentando diminuir o número de operadoras e diminuir esse risco em função do tamanho e capacidade de cada uma. Incorporar todas as novas tecnologias e buscar a visão de que a prevenção e o conhecimento do estado de saúde, ou seja, fazer a gestão individual de cada paciente, é fundamental.

Um serviço de saúde que faça uma boa gestão tem que privilegiar a prevenção. O nosso caminho vai ser esse.

A qualidade de vida, atividade física, prevenção, é nisso que a gente vai focar para melhorar a saúde dos nossos clientes e, de certa forma, contaminando no bom sentido a população em geral.

Futuro da Saúde

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