Hospitais privados retornam aos indicadores pré-pandemia, mas participação de planos de saúde diminui

Hospitais privados retornam aos indicadores pré-pandemia, mas participação de planos de saúde diminui

A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) lançou em 30 […]

By Published On: 12/04/2023
Indicadores de hospitais privados retornam ao índices pré-pandemia, de acordo com dados da Anahp.

A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) lançou em 30 de março o Observatório 2023, levantamento anual com os indicadores sobre os hospitais associados, que juntos representavam 30 mil leitos no país e uma receita de mais de 53 bilhões de reais em ao final de 2022, além de representarem 24,69% do total de despesas assistenciais na saúde suplementar. Atualmente a entidade conta com 127 membros espalhados por todo o Brasil.

Os dados do Observatório mostram o retorno de alguns índices aos patamares pré-pandemia, como faturamento e indicadores assistenciais — redução da mortalidade, queda no número de pacientes residentes, média de permanência de pacientes, internação via pronto-socorro e taxa de ocupação em torno de 76,64%.

Por outro lado, o relatório destaca que as operadoras reduziram a participação na fonte de receitas dos hospitais da Anahp: em 2018, os planos de saúde representavam 91% da receita bruta e, em 2022, compõem 83,4% do total. O cenário pode ser explicado por um aumento na prestação de serviços ao SUS e pacientes particulares, mas a dificuldade de reajustes das operadoras aos serviços prestados, frente aos altos custos, à sinistralidade alta e aos gastos da pandemia, também teve papel importante nessa redução.

“As negociações têm sido mais duras, do ponto de vista dos seguros com os empregadores, o que faz com que não consigam repor todos os custos. E isso acaba caindo na relação dos seguros com os hospitais, que acabam não tendo a recomposição total dos seus custos muitas vezes nesse processo”, afirma André Medici, economista e coeditor do Observatório 2023 da Anahp.

A situação se agrava com o aumento de glosas e prazo médio para o recebimento, sendo o maior dos últimos 4 anos, por volta de 73,51 dias. Medici e Ary Ribeiro, coeditor e ex-CEO do Hospital Infantil Sabará, analisam que, em 2023, é preciso que todos os players da cadeia da saúde dialoguem para encontrar diferentes soluções.

“É o ano para ter muito desprendimento e diálogo. Estamos em uma crise estrutural e todos os atores, independente da regulação, têm que se entender melhor. Na relação com o governo tem que debater os medicamentos de alto custo e o financiamento deles”, defende Ary.

Retorno ao pré-pandemia

A pandemia de Covid-19 modificou a realidade dos hospitais públicos e privados. Com uma nova doença rondando o país, quadros graves e altos índices de internações, os anos de 2020 e 2021 foram atípicos, e os indicadores do período mostram essa diferença em números.

A taxa de mortalidade nesses dois anos variou entre 3,29 % e 3,46%. Agora, os números mostram uma aproximação do que era antes da pandemia. Em 2019, a taxa era de 2,16%. Agora, em 2022, está em 2,30%. Os autores do Observatório apontam que a imunização da população contra a Covid-19 foi essencial para reduzir essa mortalidade.

Sendo os hospitais da Anahp de alta complexidade, com 60,45% deles de grande porte, a ocupação de leitos e a eficiência das unidades são pontos-chave para o trabalho. O índice de intervalo de substituição, que mede o tempo entre a saída e entrada de pacientes em um leito, voltou aos patamares aproximados de 2019, com 1,38 dia.

“2022 é o ano que os indicadores mais se aproximam de 2019 com algumas pequenas diferenças. Não diria que volta para uma normalidade, mas é o que mais se aproxima dos padrões do período, sobre vários indicadores assistenciais e operacionais”, afirma Ary Ribeiro.

A taxa de pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos também teve impacto. Durante a pandemia, cirurgias e exames eletivos acabaram sendo adiados para evitar a circulação da população e favorecendo aqueles que precisavam de atendimento urgente. Em 2022, com a melhora do cenário da doença no país, houve uma retomada. A taxa de pacientes ficou em 55,26%, ante 50,73% e 53,30%, respectivamente, em 2021 e 2022. Da mesma forma, a mortalidade operatória voltou ao índice de 2019, com 0,32%.

“Sobre a ótica assistencial, vimos que os indicadores ligados a infecções e mortalidade voltaram ao patamares de 2019. Por uma combinação de fatores, como eficiência, atenção à qualidade e segurança, tivemos indicadores bem melhores. É importante a gente discutir não só aspecto econômico e financeiro, mas sim o que foi feito de melhoria no cuidado”, defende Ary.

Mudança no perfil da receita dos hospitais privados

A participação das operadoras de planos de saúde na receita dos hospitais da Anahp tem mudado ano a ano. Mesmo com a alta dependência dos fundos ligados à saúde suplementar, nos últimos 5 anos, caiu de 91% em 2018 para 83,42% em 2022. As explicações são as mais diversas e é preciso entender o cenário que os planos de saúde se encontram.

Com a sinistralidade em 90%, as operadoras têm enfrentado dificuldades e registraram um prejuízo recorde em 2022, de R$ 5,5 bilhões no 3º trimestre. Com o alto custo de medicamentos e procedimentos, uma mudança no comportamento da população utilizando mais os planos, a falta de possibilidades em criar novos produtos, como planos ambulatoriais, e repassar as despesas aos beneficiários através do reajuste, há uma limitação na arrecadação dessas empresas.

“Para as operadoras manterem várias empresas em seu portfólio, elas precisaram segurar o reajuste durante os anos de pandemia, o que fez com que a capacidade diminuísse. Se o que era para pagar a utilização não teve uma correção inflacionária, por conta da dificuldade de repassar para as empresas com dificuldade pela pandemia, a sinistralidade também aumenta”, explica Ary Ribeiro.

Como consequência disso, os autores do Observatório afirmam que as negociações entre operadoras e hospitais se tornaram mais duras e houve pouco reajuste nos valores pagos aos prestadores. Um efeito cascata que aos poucos vai afetando todas as cadeias do setor. Por isso, a expectativa é que em 2023 ocorram mudanças para conseguir melhorar esse cenário.

Essa relação tem se complicado ainda mais com as dificuldades com as glosas, que seguem aumentando desde 2019, chegando ao marco de 4,55% da receita líquida dos hospitais. Normalmente, isso ocorre porque há inconsistência nas informações nas contas enviadas, mas o aumento tem preocupado a Anahp e pode impactar as receitas.

“Além das glosas você tem a questão da dilatação dos prazos de pagamento, que em anos de inflação alta, como 2022, é bastante complicado. Se você aumenta em 15 dias o prazo de pagamento está ganhando com a inflação, uma forma de valorizar o dinheiro que tem na mão e não pagar a quem se deve”, explica André Medici. O prazo aumentou de 66,95 dias em 2019 para 73, 51 dias em 2022.

Aumento do SUS e particulares

Com essas dificuldades das operadoras em recompor as despesas, houve um aumento na parcela atribuída ao SUS, chegando a 8,58%, um acréscimo de 3,9 pontos porcentuais em relação a 2019. De acordo com André Medici, a explicação para essa mudança pode estar ligada aos contratos com os estados para atender a demanda da saúde pública.

“A maioria dos hospitais da Anahp está no Sul e Sudeste, e os estados dessas regiões complementam a Tabela SUS melhor, de maneira geral, do que em outras regiões. Boa parte do aumento da receita vinda do SUS está também na recuperação do valor de pagamento via Tabela SUS, que sempre são muito baixos”, explica o economista. Ary Ribeiro complementa que essa receita é proveniente do atendimento de serviços de alta complexidade e que também pode estar ligada às internações em UTI decorrentes da Covid-19.

Os pagamentos particulares pelos pacientes também tiveram um aumento de 1,2 pontos porcentuais que, apesar de discreto, começa a se tornar mais expressivo, representando 4,7% do total da receita. Ribeiro também acredita que a Covid-19 possa ter impactado. As chamadas “outras receitas”, que não são identificadas com descrição, subiram de 1,23% em 2019 para 3,32%, e podem estar ligadas a serviços que os hospitais prestam, por exemplo, de saúde corporativa direto às empresas, como é o caso do Hospital Sírio-Libanês, que já atende 190 mil vidas com esse serviço.

Existe a possibilidade de os hospitais privados aumentarem ainda mais a parcela do SUS, mas para isso, André Medici defende que é preciso um reconhecimento e uma atualização dos valores propostos. Ele explica que “existe uma forte dependência do SUS com os hospitais privados e é uma questão que não tem sido reconhecida ao longo do tempo. Se houver uma perspectiva de uma reconstituição dos recursos do SUS, devem recuperar as perdas históricas que houveram”.

Perspectivas para 2023

No total, os hospitais da Anahp empregam 216 mil colaboradores, representando 15,25% de todo o setor. É exatamente com pessoal que está a maior despesa dos hospitais, cerca de 42%. Contudo, a possibilidade de efetivação do piso salarial de enfermagem pode impactar esse número, apesar dos coeditores do Observatório 2023 afirmarem que os hospitais da Anahp, em geral, já pagam acima do piso.

Esse deve ser apenas um dos diversos desafios que os hospitais podem enfrentar ao longo de 2023. André Medici aponta que a crise estrutural que o setor suplementar atravessa deve perdurar esse ano, ainda mais com a perspectiva de uma inflação alta e baixo crescimento do PIB. Por isso, há muito trabalho a se fazer, principalmente em relação à revisão da regulação e a discussão sobre a chamada lei do rol exemplificativo, que permite cobertura além dos tratamentos e procedimentos incluídos pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

“Tanto a ANS quanto outras agências reguladoras estão percebendo isso, mas devem se mover mais rápido. Os planos deveriam ser mais flexíveis em seu desenho, atendendo às necessidades de saúde de cada família. Se você negocia planos mais flexíveis é possível reduzir o preço, com opções mais baratas. Ao mesmo tempo, tem que reduzir aquilo que a gente chama de ativismo judicial na área de saúde”, afirma o economista.

Para Ary Ribeiro, esse será o ano em que o diálogo deve ser prioridade entre empresas, indústrias, hospitais, corretoras e operadoras, sendo possível encontrar caminhos para diversas questões sem precisar passar pelos órgãos públicos. No entanto, ele defende que outras pautas, como os medicamentos de altos custos, precisam de um apoio do Ministério da Saúde:

“Na relação com o governo tem que debater os medicamentos de alto custo e o financiamento deles, que são coisas novas, que tem que chegar e podem trabalhar em uma visão de parceria entre os sistemas públicos e privados. Por outro lado, os hospitais privados podem prestar melhores serviços com eficiência e resultados assistenciais adequados ao financiamento do sistema público”.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

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One Comment

  1. Jefferson Barragam 16/04/2023 at 12:59 - Reply

    Matéria muito inteligente. Parabéns Marcelo Machado. Trabalho no mercado da saúde suplementar e esses esclarecimentos são de grande valia para entendermos o complexo mercado da saúde suplementar no Brasil. Forte abraço.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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