Obesidade, insegurança alimentar e os gastos com o tratamento de câncer no Brasil

Um novo artigo traz um dado preocupante que relaciona o impacto financeiro da obesidade no câncer: dos R$ 1,7 bilhão gastos pelo SUS em 2018 com o tratamento oncológico, R$ 700 milhões (o correspondente a cerca de 41%) foram aplicados em terapias contra cânceres associados ao excesso de peso

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Pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA) publicaram recentemente, na revista científica Plos One, um artigo que chama atenção para a obesidade e os gastos com o tratamento no câncer no país. “Dos R$ 1,7 bilhão gastos pelo SUS em 2018 com o tratamento oncológico, R$ 700 milhões (o correspondente a cerca de 41%) foram aplicados em terapias contra cânceres associados ao excesso de peso, principalmente em tumores malignos de mama, intestino grosso (colorretal) e endométrio”, segundo diz o texto. O levantamento, intitulado Costs of cancer attributable to excess body weight in the Brazilian public health system in 2018, calculou os valores utilizados no Sistema Único de Saúde para tratar pacientes de 11 tipos de câncer entre aqueles com maior associação ao excesso de peso, no ano de 2018. Além dos já citados acima, foram considerados tumores de fígado, pâncreas, ovário, esôfago, estômago, rim, próstata e vesícula biliar.

Os cientistas do INCA ressalvam que a maioria dos casos pode ter origem multifatorial. Porém, enfatizam que mais de uma dúzia de doenças já teve comprovação, por evidências científicas, de associação à obesidade. O mais diretamente ligado a esse fator de risco é o tumor de endométrio. O de mama e o colorretal aparecem em evidência devido à alta incidência no país. Ocupam, respectivamente, a primeira colocação para mulheres e a segunda para ambos os sexos no país. Para 2021, são esperados no Brasil quase 110 mil casos destes cânceres.

Destaco, aqui, o câncer colorretal, que abrange os tumores que têm início na parte do intestino grosso chamada cólon, no reto (final do intestino, imediatamente antes do ânus) e ânus. Esse é um dos tumores que mais cresce em incidência com 41 mil novos casos por ano no Brasil e, no mundo, 2 milhões a cada ano. A chance de homens e mulheres de apresentarem o câncer colorretal ao longo da vida é de 4%. De todos os tumores do corpo, 11% são intestinais, tornando-se uma doença comum e em elevação na população mais jovem.

Uma dieta muito rica em carnes vermelhas, carnes processadas e embutidos tem uma relação linear com o câncer colorretal. Portanto, a doença tem uma ligação muito grande com a qualidade e estilo de vida do paciente.

A prevalência do excesso de peso corporal tem aumentado nas últimas décadas no Brasil. A Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, divulgada em outubro do ano passado, mostrou que, em 2019, 61,7%da população adulta brasileira estava acima do peso adequado. São números que crescem a cada ano no Brasil e no mundo. No entanto, mais peso não significa, de modo algum, comer direito.

O impacto da pandemia

Essa questão ficou mais evidente com a crise econômica e social agravada pela pandemia no último ano. Segundo um levantamento da Universidade Livre de Berlim, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB), a insegurança alimentar grave ou moderada atingia 27,7% da população no final de 2020, o que correspondia a 58 milhões de brasileiros.

Com isso, houve uma diminuição do consumo de alimentos saudáveis, principalmente nas famílias de menor renda. Entre os entrevistados pelos pesquisadores, 41% disseram ter reduzido o consumo de frutas, e 44% o de carnes. No grupo em maior insegurança alimentar, a queda no consumo destes produtos chegou a 85%. A suspensão das aulas presenciais também tirou das crianças da rede pública o acesso a merendas mais equilibradas. Quando sobra algum dinheiro, a opção é por produtos industrializados, mais “práticos” e, muitas vezes, mais baratos.

O prato vazio na mesa de milhões de brasileiros nos causa uma sensação de derrota. As redes de solidariedade formadas nos últimos meses, garantindo doações, mostram como a população entende a gravidade imediata da situação. Porém, olhando mais para frente, precisamos analisar o impacto deste cenário para a Saúde global no Brasil. Esta crise, infelizmente, poderá ter muitas sequelas, ainda pouco avaliadas, para as futuras gerações.

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