A telemedicina e o resgate das visitas médicas domiciliares

A tecnologia, que sepultou as visitas domiciliares e transformou a saúde, tem o potencial de alterar novamente esse cenário

               
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Se pedissem para alguém fechar os olhos imaginar um médico, ela provavelmente veria uma combinação das duas imagens que abrem este texto.

Não hoje, claro. Mas até cerca da metade do século XX, era assim mesmo: de maleta na mão e de casa em casa, os médicos passavam seus dias. As visitas domiciliares eram o método principal e mais eficiente para receber atendimento em saúde. E todas as ferramentas que um médico dispunha para diagnosticar e tratar seus pacientes cabiam naquela preciosa maleta de couro.

Só que o mundo seguiu girando e as coisas mudaram. As cidades cresceram exponencialmente, assim como o conhecimento em Medicina e a tecnologia envolvida nos diagnósticos. Não era mais viável logisticamente para que os médicos se deslocassem de casa em casa. E a maleta ficou pequena para tanto conhecimento e tantas possibilidades.

Não foi de se espantar que as visitas domiciliares feitas pelos médicos caíssem para 40% em 1930, 10% em 1950… até chegarem a menos de 1% a partir de 1980. Pacientes começaram a associar “boa medicina” à tecnologia: máquinas de raio-x, tomografia, equipamentos para exames laboratoriais… itens que, por sua vez, precisavam de espaço e manutenção frequente e disponível apenas em hospitais e clínicas. Sedimentava-se, então, o fenômeno de institucionalização da Medicina. E o declínio da popularidade das visitas domiciliares.

Por mais que os ganhos tenham sido indiscutíveis, algo importante se perdeu no meio disso tudo. Estudos comprovaram que a abordagem de diagnosticar e tratar doenças com base em exame físico e exames laboratoriais e de imagem, dentro de consultórios ou hospitais, corresponde a apenas 10% de todos os fatores que influenciam a saúde e o bem-estar de uma pessoa. Ela deixa de lado os 90% restantes: a genômica dela e algo que chamados de determinantes sociais da saúde: a realidade socioeconômica, comportamentos, escolhas no dia-a-dia e o ambiente em que essa pessoa vive. Basicamente tudo que a torna humana.

Definitivamente, não é uma percepção agradável. Mas e se eu dissesse que, décadas depois, a tecnologia, que transformou o que definimos como saúde e sepultou as visitas domiciliares, também traria o potencial de mudar esse cenário? Parece paradoxal, mas é justamente isso que começou a acontecer durante a pandemia, por meio da telemedicina.

Em um momento em que não era possível expor pacientes ao risco de contaminação em hospitais, clínicas ou salas de espera de consultórios, ela ganhou força ao redor do mundo. Se, há anos, tentava-se um “parto normal” para obter a regulamentação da prática no nosso país, com a chegada pandemia, esse processo acabou precisando ser convertido em uma “cesárea de urgência”: a telemedicina precisou ser aprovada e colocada em prática em tempo recorde. E a demanda por consultas por essa modalidade aumentou em 4000% e o número de médicos utilizando essa tecnologia pela primeira vez aumentou 3000%, segundo levantamento de uma grande consultoria global.

Se uma das principais preocupações que impediam sua regulamentação eram o temor de um eventual prejuízo à relação médico-paciente e desumanização da Medicina, o que se tem visto na prática é justamente o oposto.

Convenhamos: uma visita para uma consulta médica está longe de ser considerada uma experiência agradável para a imensa maioria das pessoas. O consultório médico é um lugar estressante, que causa ansiedade e até mesmo medo na maioria das pessoas. Tanto que já foi descrita, há muito tempo, a hipertensão do jaleco branco: fenômeno no qual pessoas com níveis normais de pressão ficam transitoriamente “hipertensas” no consultório justamente pelo stress e ansiedade trazidos pela situação, o que, infelizmente, pode levar a diagnósticos errôneos de hipertensão.

Em suas casas, os pacientes ficam mais relaxados, idosos têm resultados melhores em testes cognitivos e médicos conseguem coletar informações e interagir de maneiras que seriam impossíveis apenas no frio e artificial ambiente do consultório. De repente, abre-se literalmente uma janela para os esquecidos determinantes sociais da saúde, ficando mais fácil caminhar dos 10% em direção aos 100% do que a influencia a saúde e o bem-estar das pessoas. E surgem novas maneiras de agregar valor à consulta e ao acompanhamento.

Médicos ao redor do mundo têm relatado, por exemplo, que começaram a avaliar as prescrições e caixas de medicamentos, uma a uma, com seus pacientes idosos, para ensinar ou certificarem-se de que os mesmos entenderam como fazer uso correto delas. Outros, afirmam que começaram a avaliar a nutrição por meio de uma rápida olhada na geladeira e na despensa. E até mesmo detectar fatores que tragam riscos para queda ao se avaliar o ambiente de pacientes com limitações de mobilidade.

Não. As consultas presenciais nunca serão substituídas ou abandonadas. Não é possível palpar um abdome ou realmente confortar um ser humano em necessidade por meio de uma tela. Ainda assim, talvez, a verdadeira magia da telemedicina seja a oportunidade de ressuscitar e atualizar as visitas domiciliares para o século XXI. E a possibilidade de trazer novos óculos para uma Medicina que não tinha noção de que ainda era míope. De qualquer forma, todos ganhamos com esse complemento.

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