O que ainda falta para o Brasil ganhar a luta contra o câncer de pulmão?

Quando diagnosticado precocemente, taxa de sobrevida do câncer de pulmão aumenta significativamente e por isso essa neoplasia deve ser olhada com atenção

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Pulmão

Já são mais de seis anos que o Instituto lado a Lado pela Vida (LAL) destaca em sua agenda de ações de conscientização e atividades com foco em políticas públicas, a importância do diagnóstico precoce do câncer de pulmão, que em 2019 foi responsável pela morte de cerca de 30 mil pessoas no País, sendo 57% homens.

Esses números são os “oficialmente” divulgados pelo Ministério da Saúde/INCA (Instituto Nacional de Câncer), mas as 30 mil mortes no Brasil saltam aos meus olhos quando as comparo com as 135,7 mil mortes por câncer de pulmão nos Estados Unidos, divulgadas pela American Cancer Society. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a população do Brasil é de 213 milhões de pessoas e o Censo norte americano divulgou que sua população alcançou 331 milhões. Não é preciso ser matemático ou estatístico para perceber que há algo questionável com os números reportados no Brasil.

Segundo o INCA, fonte oficial de dados sobre câncer no Brasil, “a taxa de sobrevida relativa em cinco anos dos pacientes de câncer de pulmão é de 18% (15% para homens e 21% para mulheres) e somente 16% dos cânceres são diagnosticados em estágio inicial (câncer localizado), para o qual a taxa de sobrevida de cinco anos é de 56%”. É assustador ao indivíduo que recebe o diagnóstico de câncer de pulmão ter ciência desse cenário.

Sabemos que cerca de 80% a 85% dos pacientes desse tipo de neoplasia são ou foram fumantes, no entanto, cada vez mais os consultórios médicos reportam que o número de pacientes diagnosticados com câncer de pulmão tem crescido. Se na década de 90, cerca de 5% a 8% dos casos ocorriam em não-tabagistas, atualmente, são 15% a 20%. Poluição do ar e exposição ao gás radônio, por exemplo, são fatores de risco importantes.

Esse alerta tem sido um dos mais enfáticos de nossas comunicações, reiterando àqueles que sentem os primeiros sintomas de que é preciso argumentar com médicos ou profissionais de saúde que não descartem investigar a doença, simplesmente pelo fato de não ser ou nunca ter sido fumante. O grande trunfo para que o tratamento desse tipo de câncer seja bem sucedido é o diagnóstico precoce, o que infelizmente não ocorre no Brasil.

Tenho sido uma leitora voraz de pesquisas e informações disponíveis no mundo sobre essa neoplasia, pois acredito fortemente que temos um enorme campo para atuar para aumentar a sobrevida de pacientes de câncer de pulmão no Brasil. A minha inquietação é ainda maior pois tenho plena convicção de que os números de pacientes e de mortes divulgados no nosso País estão absolutamente fora da realidade. Ou seja, temos um contingente gigante de pessoas que morrem por causa desse tumor, mas devido à subnotificação, elas não aparecem nas estatísticas.

Seguindo minha constante declaração de que não basta apontar erros, tenho reiterado aos parlamentares que atuam na oncologia e, também, aos representantes do Ministério da Saúde que devemos atuar em cinco frentes para mudar o cenário do câncer de pulmão no Brasil:

  1. Obter dados confiáveis e regionalizados sobre número de diagnósticos; estágio da doença quando identificada e número de óbitos;
  2. Reduzir o diagnóstico tardio e aprofundar as discussões com analise de estudos e pesquisas que confirmam as evidências para o rastreamento;
  3. Melhorar não só o acesso, como a confiabilidade dos diagnósticos realizados;
  4. Reduzir as disparidades de tratamentos entre pacientes de distintas regiões e ampliar a incorporação de novas tecnologias, principalmente aquelas reconhecidas como medicina personalizada;
  5. Incentivo às pesquisas clínicas.

E qual é impacto econômico do câncer de pulmão para o Brasil?

Se olharmos somente para o setor da saúde suplementar, um estudo realizado em 2020 pela IQVIA comparou os custos do tratamento em pacientes que receberam diagnóstico precoce com aqueles realizados em estágios avançados. A pesquisa mostrou que, antes da pandemia da Covid-19, “as operadoras de saúde gastavam R$ 3,41 bilhões por ano com tratamento dessa neoplasia. Estima-se que com a interrupção de tratamentos e o diagnóstico tardio durante o ano de 2020 os custos tenham subido para R$ 3,49 bilhões, o que representa acréscimo anual de R$ 80,4 milhões. Em um cenário hipotético de diagnóstico precoce, o custo do sistema suplementar de saúde com tratamento de câncer de pulmão seria de R$ 2,8 bilhões por ano, gerando economia de R$ 589 milhões”.

Um outro estudo realizado pela Agência Internacional para Pesquisa do Câncer, órgão ligado à ONU (Organização das Nações Unidas), no início de 2018, avaliou o impacto financeiro que as mortes por câncer representaram em países emergentes, entre eles Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. 

A estimativa para o Brasil foi a de um prejuízo de US$ 4,6 bilhões anuais, considerando a renda média dos profissionais, quantos anos deixaram de trabalhar e com quanto eles poderiam ter contribuído economicamente com salários até o final de suas carreiras. Nesse estudo, o câncer de pulmão apareceu como o que mais prejuízos financeiros gerou ao País, com um total estimado de US$ 402 milhões ao ano, valor que se refere às mortes por tabagismo, principal causa da doença no Brasil.

Levando em consideração esse panorama, percebe-se que não há tempo a perder e não é preciso rechear estudos e pesquisas com novos dados impactantes. Já sabemos o suficiente para agir. E quando falo em agir, não estou me referindo unicamente aos gestores públicos, mas a toda a sociedade. Nesta semana, durante uma reunião de trabalho no Instituto Lado a Lado pela Vida, enquanto discutíamos possibilidades concretas de atuação para alcançarmos nossa missão de mudar pra valer a saúde no Brasil, ouvimos uma frase que fortalece a nossa crença de que o caminho está na participação social: não é preciso ser gestor ou representante do Governo para fazer política pública para a saúde. É a sociedade quem faz.

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