O olhar para a saúde dos homens deve ser de Novembro a Novembro

É somente com educação e mudando a cultura dos homens de que não podem mais terceirizar os cuidados com sua saúde para as companheiras que diminuiremos a estatística de que os homens vivem, em média, 7 anos a menos que as mulheres

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Desde 2008, tenho dedicado horas dos meus dias para trabalhar pela causa da saúde do homem brasileiro. Essa rotina se intensificou em 2011, quando a organização que fundei e presido, o Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL), idealizou e lançou a campanha Novembro Azul, que se tornou um marco no País na divulgação de ações de conscientização para a importância do diagnóstico precoce do câncer de próstata, que anualmente ceifa a vida de mais de 15 mil brasileiros.

Esse movimento cresceu de maneira exponencial, tornou-se a maior campanha em prol da saúde do homem e, hoje, faz parte do calendário nacional, com a adesão do Ministério da Saúde, de hospitais, empresas de diversos segmentos, artistas, formadores de opinião, atletas, a mídia, diversas organizações da sociedade civil e a população em geral.   

No entanto, é fundamental destacar que o esforço de falar sobre o câncer de próstata, que nos próximos anos deverá atingir um em cada seis brasileiros acima de 60 anos, não se restringe ao mês em que estamos, assim como o guarda-chuva da campanha Novembro Azul não está circunscrito ao tema do câncer de próstata. Trabalhar em prol da saúde integral do homem brasileiro, em todas as fases de sua vida, faz parte do calendário que vai de “Novembro a Novembro Azul”.

Em 2020, as nossas andanças pelo país, sejam nas cidades ou no campo, foram substituídas por ações virtuais, o que abriu uma nova possibilidade de envolver de uma maneira diferente a população e convidá-la a assumir o seu papel como importante agente da participação social na saúde. Os diálogos com parlamentares e gestores públicos para propor ações ou discutir as prioridades que atendam às necessidades dos homens em suas jornadas pelos sistemas de saúde, seja no público (SUS) ou no privado (prioritariamente planos de saúde) também foram fortalecidas.

Neste ano em que o mundo praticamente dedicou seu olhar a uma única doença, a Covid-19, o Instituto LAL não desviou a atenção da causa da saúde do homem em nenhum momento. Muito pelo contrário. Realizou webinários dedicados a temas como, por exemplo, o câncer de pênis (doença negligenciada que o LAL dá voz já há vários anos e não deixará de discutir enquanto cerca de 1.600 homens/ano tiverem seus órgãos sexuais amputados), o câncer de próstata e o comportamento do homem em relação aos cuidados e responsabilidade com a sua saúde. Além de diversas outras ações voltadas às doenças cardiovasculares e câncer de pulmão, muito prevalentes entre os homens brasileiros.

Certamente, o assunto da pandemia do novo coronavírus também ganhou destaque na agenda do Novembro Azul, pois são inúmeras as notícias, incluindo a recente divulgação do Global Health 50/50 de que há mais mortes no mundo causadas pela Covid-19 em indivíduos do sexo masculino. Entre 15 de julho e 21 de setembro, o Instituto Lado a Lado realizou uma pesquisa inédita sobre a saúde dos homens durante a pandemia, com 1.080 respondentes, com idades entre 14 e 91 anos. Os resultados dessa pesquisa trouxeram um alerta importante não só sobre o enfrentamento da pandemia no que se refere ao número de homens com comorbidades, que podem piorar o quadro daquele que vier a ser infectado pelo novo coronavírus, como demonstrou que a saúde emocional dos homens, principalmente dos jovens entre 14 e 25 anos está bastante abalada. Não vou detalhar a pesquisa aqui, pois esse seria tema de mais um artigo.

Mas esses exemplos referem-se exclusivamente às ações dedicadas à saúde do homem entre janeiro e novembro de 2020. No entanto, ao longo dos anos, as ações do Novembro Azul Oficial são distribuídas por todos os meses do ano e não ficam restritas ao mês dedicado à conscientização para o diagnóstico precoce do câncer de próstata. Já foram realizados seis fóruns de políticas públicas em Brasília; quatro reuniões estratégicas de Saúde do Homem em São Paulo; atuação conjunta com demais instituições pela Criação da Política Nacional de Atenção Integral da Saúde do Homem em 2009 e, a partir daí, um tabalho constante e lado a lado com o Ministério da Saúde para melhorá-la e obter conquistas significativas para os homens.

O calendário é extenso, mas não posso deixar de citar algumas atividades que merecem atenção, como a incrível ação lançada em 1/1/2020, que é o perfil do Instagram @Lave o Dito Cujo, que aborda de forma lúdica, mas com posicionamento sério, a prevenção do câncer de pênis. Em 2019, outra pesquisa destacou “Um novo olhar para a saúde do homem e ao longo da história do Novembro Azul, iniciada em 2011, foram distribuídos milhões de folhetos informativos em todo o território nacional, no campo e nas cidades; mutirões da saúde realizados no Brasil todo; aulas e palestras em diversas instituições.

Esse conjunto de ações e, principalmente, o reconhecimento da população de que efetivamente somos uma organização comprometida com a saúde dos homens brasileiros e não trabalhamos por demandas ou interesses específicos é o que nos move. Esse é o compromisso público que o Instituto LAL assumiu há 12 anos quando lançou a semente de um movimento que se tornou domínio público já impactou mais de 100 milhões de cidadãos. Esse resultado reflete um enorme trabalho de equipe, que envolve profissionais dedicados, médicos e profissionais voluntários de distintas áreas que doam seus saberes à causa.

Informar e alertar os homens sobre a importância do cuidado integral não é uma tarefa fácil e para isso contamos com as mulheres, incansáveis apoiadoras da Campanha. Nos últimos anos, a atuação foi ampliada e chegou às escolas, atraindo a atenção das crianças, pois somente com educação e mudando a cultura dos homens de que não podem mais terceirizar os cuidados com sua saúde para as companheiras, esposas, mães e filhas diminuiremos a estatística de que os homens vivem, em média, 7 anos a menos que as mulheres.

Esse é um longo caminho a percorrer, mas a boa notícia é a de que os homens desse nosso País, do Oiapoque ao Chuí, começaram a acordar para o fato de que precisam assumir a responsabilidade e o protagonismo de cuidar da própria saúde.

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