O “novo normal” nos eventos científicos

A organização dos eventos deverá levar em conta não só o formato como também temas que sejam apresentados por especialistas que saibam comunicar o conteúdo de maneira eficiente

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Há uma década organizamos no Brasil este que se tornou o segundo maior congresso de câncer urológico do mundo. Agora, em 2020, estávamos finalizando os preparativos para a 11ª edição do Congresso Internacional de Uro-Oncologia, que seria realizada no início de abril, quando a pandemia do coronavírus impôs uma mudança radical de planos. Precisamos desenvolver um “novo normal” para os encontros científicos. Além de driblar o impacto da doença e dos prejuízos, como manter o foco na programação de qualidade e o interesse do público do outro lado da tela neste novo cenário?

Enquanto, por aqui, tentávanos resolver esta equação, tivemos uma experiência muito positiva durante o Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica – ASCO 2020, realizado no fim de maio, também virtualmente. O maior congresso sobre câncer do mundo, que todos os anos reúne mais de 45 mil médicos em Chicago (EUA), foi online. Profissionais de todo o planeta acompanharam e discutiram, pelo computador, as mais recentes pesquisas sobre diagnóstico e tratamento de tumores. Milhares de colegas acompanharam uma conquista inédita brasileira, a apresentação, numa sessão oral, de uma pesquisa realizada exclusivamente em centros nacionais, que buscou uma opção às terapias já consolidadas para o tratamento do câncer de próstata avançado. Um sucesso compartilhado apenas via internet desta vez. Os eventos virtuais nos permitem os ganhos em acesso, mas nos cobram o preço do contato, do olho no olho, do aperto de mão.

Por aqui, o Congresso Internacional de Uro-Oncologia, que recebe a cada ano cerca de três mil participantes, precisou ser totalmente remodulado para a nova data: 14 e 15 de agosto. Mantivemos a participação dos convidados internacionais de alto nível, fundamental para o compartilhamento das experiências e novidades. Conservamos a programação na “plenária” virtual e as atividades em simpósios satélites, com programação exclusiva para médicos. Criamos uma área de exposição com a presença virtual de patrocinadores nos estandes, para preservar o ambiente de networking comum nos congressos tradicionais..

Desenvolvemos uma plataforma para que os profissionais de saúde – não apenas médicos – pudessem ter acesso às palestras e aulas direto de suas casas ou clínicas. Aliás, acredito que esta seja uma tendência deste “novo normal” dos eventos científicos: quem gosta de aprender tem procurado aproveitar a rotina imposta pelo isolamento para obter conhecimento. Há sempre oportunidade em cursos online, simpósios, transmissões ao vivo, muitas vezes promovidas por instituições de ensino e entidades científicas. Para quem está do lado de cá da tela, além do saber, mais do que nunca, será necessário o dom do comunicar.

A organização dos eventos deverá levar em conta o formato, com assuntos interessantes, apresentados por especialistas que saibam comunicar o conteúdo de maneira eficiente, sujeito a concorrências externas dos mais variados tipos.

Em nosso evento, falamos para uma plateia que precisa estar alinhada às novidades sobre tumores bastante incidentes em nossa população, com estimativa de cerca de 80 mil novos casos neste ano. Debatemos o papel do exercício físico na prevenção dos tumores de bexiga, rim e próstata e os seus benefícios durante o tratamento. Da mesma forma, temos avanços significativos na cirurgia robótica para estes três tumores.

Para câncer de próstata, listo o tratamento com aquecimento letal do tumor sem cirurgia (HIFU); o debate sobre o papel dos exames moleculares e clínicos para evitar tratamento desnecessário no câncer localizado; as novas drogas radioativas com ótimas respostas no câncer muito avançado após falha das várias medicações e os tratamento que não fazem a supressão da testosterona (castração) na doença avançada, preservando a qualidade de vida do paciente.

Para os tumores de rim, vale ressaltar novidades como tratamento com aquecimento ou congelamento letal do tumor sem cirurgia e as imunoterapias como primeiro novo tratamento no tumor avançado. Imunoterapia, que ao lado das drogas inteligentes, que atacam pontos especificos pelo qual o tumor cresce, aparecem como destaque nos debates atuais para o tratamento no câncer de bexiga, trazendo mais esperança para os pacientes com tumores urológicos.

Não é possível, ainda, dizer até quando este modelo de evento será o “novo normal”. A tecnologia nos provê a eficiência e, com certeza, teremos capacidade de estabelecer conexões mais humanizadas e promover debates enriquecedores. A ciência não conhece os limites do isolamento social. Pelo contrário, é o que traz esperança de dias melhores. Esperamos que em 2021 o Congresso Internacional de Uro-Oncologia volte a acontecer presencialmente, como outros diversos eventos do calendário científico brasileiro.

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