O novo ministro da saúde Nelson Teich

Troca de ministro em um momento extremamente delicado para a contenção da covid-19

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Imagem: Palácio do Planalto (Flickr)

O novo ministro da Saúde Nelson Teich chega em um momento em que a crise está quase no auge, com os hospitais das principais capitais do país beirando a lotação. É importante lembrar que o vírus não vai deixar de avançar porque o Brasil trocou de ministro. Ele vai precisar contar com a equipe técnica do Ministério da Saúde. Gabbardo, por exemplo, disse que fica o tempo que for necessário para transição. Não há tempo para adaptação.

Antes de mais nada, demitir um ministro da saúde no meio da maior crise de saúde que a humanidade já enfrentou no último século não é o ideal. A decisão escancara uma série de incoerências, é verdade. Mas é verdade também que a situação estava insustentável. Mandetta e equipe começaram bem. Com uma política de transparência, o que é extremamente importante em um momento cercado por incertezas, falta de dados e de direção. Só que, à medida que a crise cresceu, o brilho da equipe também aumentou. E sabemos que política não é algo para amadores. A crise deixou de ser só de saúde e virou política também. E Mandetta, como também vimos bem, não é um amador nesse quesito.

Não vou me prolongar aqui sobre ele ter dado motivos ou não, nem relembrar que o presidente chamou o coronavírus de gripezinha, fez ameaças e desrespeitou as recomendações. Mas, a demissão era cenário inevitável. Ninguém mais discutia as ações. Todos os dias, as primeiras perguntas dos jornalistas nas coletivas de imprensa para o ministro eram se ele iria sair ou não. O combate ao vírus é muito mais importante que isso.

Chegamos finalmente ao novo ministro, o oncologista Nelson Teich. Já tive uma aula com ele sobre gestão em saúde na FGV e confesso que ele me surpreendeu. Teich tratava da questão de saúde pública de uma forma que o Brasil nunca quis abordar. Discutir o sistema, financiamento, escolhas…nada disso é muito popular. Aliás, essa foi a primeira coisa que pegaram contra ele em um vídeo tirado fora do contexto em que ele discute as escolhas diante de um recurso limitado. No discurso ao lado do Bolsonaro, Teich, embora articulado, não tem todo o estofo político de Mandetta. Deixou claro alguns pontos: não vai alterar a quarentena de forma brusca, vai valorizar a informação técnica e científica e não quer que esse seja um debate polarizado de pessoas versus dinheiro.

Conversei com alguns dos especialistas mais relevantes do setor da saúde para sentir a avaliação entre os pares: Teich está aprovado. Ele é visto como um grande nome da área de gestão em saúde e apegado à evidência científica. No fundo, é o que precisamos agora. Resta saber, no entanto, se ele se curvará aos desejos infundados de uma política sem evidência. Não é isso que dizem o histórico e a reputação dele. Agora precisamos acompanhar atentamente os próximos passos e torcer para que saúde seja tratada como saúde – e não mais como política.

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