O fenômeno das startups de saúde – Parte I: a tempestade perfeita

Surgimento de healthtechs já ocorria nos últimos anos, mas pandemia acelerou o ritmo de crescimento e necessidade de inovações

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Mesmo após um ano em que a economia brasileira fechou em queda em decorrência dos impactos da Covid-19, as healthtechs puderam respirar mais aliviadas. No cenário chamado pelo mercado de “tempestade perfeita”, de um lado estavam consumidores insatisfeitos e um grande número de pessoas excluídas do sistema de saúde, muitas por causa do desemprego. Do outro, novas tecnologias em ebulição e um mercado de venture capital nascente. Um parêntese para localizar o leitor: venture capital é a modalidade de investimento na qual os recursos são aplicados em startups com expectativas de crescimento rápido.

Crescimento que, aliás, ficou evidente nesse setor. Nos últimos dois anos, o número de startups de saúde mais do que dobrou: 284 empresas em 2018 para 542 healthtechs em 2020 no Brasil, de acordo com dados do Distrito, um hub de inovações que mapeia o setor. Algumas delas atuam no setor de planos de saúde, como Futuro da Saúde mostrou em reportagem especial publicada em março – você pode ver aqui a Parte I – o papel da tecnologia para explorar o mercado de saúde suplementar), e a Parte II – olhar a saúde e não a doença.

“Em saúde, a gente tem um mercado insatisfeito com a maior parte dos provedores atuais. Dois terços da população sem acesso à saúde suplementar e um mercado de venture capital nascente e crescente. Se a tecnologia e os anúncios regulatórios continuarem andando, vamos viver em saúde, nos próximos 10 anos, o que as fintechs viveram na última década”, explica Gustavo Araújo, CEO do Distrito.

No relatório do Distrito, foram consideradas as empresas que, essencialmente, tinham inovação no centro do negócio e que atuavam na saúde, dentre outros critérios. As companhias inovadoras surgiram a partir de propostas diversas, mas atuam estrategicamente nas áreas de inteligência artificial (AI) & big data, acesso à informação, farmacêutica e diagnóstico, gestão e prontuário eletrônico do paciente (PEP), dispositivos médicos, relacionamento com pacientes, marketplace, telemedicina e wearables & internet das coisas (IoT).

Gestão e prontuário eletrônico do paciente foi a área com maior número de healthtechs, segundo o mapeamento. São 136 startups, representando 25,1% do total. Na sequência, também há destaque para a categoria marketplace, com 13,7% do total das empresas. Já na categoria farmacêutica e diagnóstico, responsável por 10,5% do nicho, 33,3% das startups investem em pesquisa e 29,8% em e-commerce. 

O papel da pandemia no boom da saúde 

É inegável que a pandemia de coronavírus trouxe desafios para vários setores do País – e não foi diferente na saúde. Os hospitais tiveram que lidar com o novo perfil de paciente, aprender e criar protocolos para a nova doença, gerir leitos Covid e não-Covid. Os planos de saúde tiveram que dar assistência, ainda que à distância, às pessoas que precisavam continuar seus cuidados. E os médicos aprenderam a atender via telemedicina, uma prática que foi autorizada em caráter emergencial por causa da pandemia.

No caso específico das healthtechs, segundo explica o gerente de inovações abertas da Dasa, Thiago Julio, o setor cresceu e amadureceu muito nos últimos três anos – e isso foi acelerado no ano passado por causa da pandemia, como aconteceu em todos os mercados digitais e de inovação:

“O Brasil está bem posicionado, tem um mercado interno grande e mão de obra empreendedora e técnica, com oportunidades, e tem um ecossistema de inovação estruturado: unindo apoiadores, clientes, desenvolvedores, entre outros. É claro que a cena de healthtech na Europa, EUA e Ásia é mais avançada. No Brasil, as startups têm a característica de atender o mercado interno, com iniciativas muito avançadas em seus mercados de atuação”.

Os números mostram o caminho nessa direção: de acordo com dados do Distrito, de 2014 a 2020, foram investidos US$ 430 milhões em healthtechs brasileiras – o ápice foi 2017, puxado por aportes multimilionários no Dr. Consulta. Só naquele ano, foram US$ 152,2 milhões investidos no setor. Entre as categorias que mais receberam aportes neste mesmo período, estão marketplace (47%) e gestão e PEP (21,9%). Em 2021, os investimentos caminham no mesmo sentido.

“Tivemos, agora em 2021, um recorde absoluto de US$ 90 milhões de funding, o que é equivalente ao lucro do ano passado inteiro só no primeiro trimestre deste ano”, explica Gustavo Araújo, que prevê um movimento ainda maior até o fim do ano, com investimentos três a quatro vezes maiores do que no ano passado apenas em healthtechs. “Se houver a manutenção da telemedicina, que foi aprovada em caráter provisório, e a abertura do mercado em relação a outros modelos, como seguro saúde digital, seria um open health. Quase como um open banking para as fintechs”, ressalta.

Mercado financeiro, uma inspiração para a saúde?

O conceito do open banking trouxe novidades ao setor financeiro, dando total autonomia aos clientes sobre seus próprios dados. É o cliente que tem a posse sobre eles e decide com quem e quando compartilhá-los. Já o conceito do open health teria como base o empoderamento do usuário, a propriedade dos dados e a liberdade de portabilidade entre os diferentes players. “O poder dos dados, a propriedade dos dados, é do usuário. Não é de nenhum player terceiro. Por mais que você, por exemplo, faça um exame médico em um hospital, esse dado não é do hospital, é do usuário. E ele tem o poder de pegar esse histórico médico dele e transferir para um provedor de saúde que tenha um serviço melhor no futuro. Isso faz com que a competitividade também aumente no setor, assim como o open banking faz no mercado financeiro. Hoje essa não é a realidade. Você faz exame em um hospital, em um laboratório, e o exame fica preso lá”, afirmou Gustavo Araújo.

De acordo com Araújo, o desafio é os principais players do sistema acordarem em um padrão de interoperabilidade de dados. Para isso, os reguladores, como a Anvisa e o Ministério da Saúde, deveriam propor o padrão — assim como o Banco Central, que regula o mercado financeiro e determina o padrão para esse mercado.

‘Ecossistema’, a palavra básica no vocabulário do setor

“Nenhuma empresa de saúde, seja ela hospital, operadora ou indústria, vai conseguir realmente ser competitiva e extremamente relevante para os pacientes nos próximos anos se não estiver totalmente integrada no ecossistema e acelerando a sua inovação através das healthtechs”, avalia Fabrício Campolina, diretor sênior de healthcare transformation da Johnson & Johnson Medical Devices e coordenador do Grupo de Transformação Digital da ABIMED, Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para a Saúde.

A Johnson & Johnson Medical Devices, começou essa transformação em 2019. Na época, por meio de hubs de inovação, a empresa buscou criar um ecossistema e se relacionar com as healthtechs de duas formas: apresentando um problema e achando a solução através das startups e sendo apresentada a soluções inovadoras capazes de atender demandas ainda não identificadas na empresa. “Cada vez mais as grandes corporações têm derrubado preocupações que existiam anteriormente e abraçando esse mundo das healthtechs e inovações. Seja por necessidade ou por realmente ter uma visão de como elas podem se tornar mais competitivas”, avalia Campolina.

A empresa fechou 2020 promovendo iniciativas inovadoras durante a pandemia, como é o caso da Cuidando de Quem Cuida de Nós. Focada no suporte emocional dos profissionais da saúde que atuam na linha de frente do combate ao Covid-19, em parceria com a Moodar e Vitalk, foram oferecidas mais de sete mil sessões de terapia online.

Esse diálogo entre as grandes corporações e startups com visões inovadoras é permeado por premissas como privacidade, segurança de dados e compliance de processos críticos. “Precisamos ter agilidade, mas sem comprometer nossos valores”, explica o diretor sênior da J&J MD. Ainda é um caminho que pode precisar de ajustes, principalmente no quesito velocidade. De um lado, as startups pensam que o processo pode ser muito demorado. Do outro, a empresa teme as barreiras e questionamentos. Por isso, muitas vezes nenhum projeto avança.

Para Thiago Julio, da Dasa, esse ainda é um calo da saúde quando combinado à tecnologia e à inovação: “A saúde é um setor que ainda precisa maturar questões de segurança do paciente, privacidade de informação, além dos desafios da correta gestão de riscos, alinhado com todas as regulações da área”. Ele avalia que a Dasa contribuiu muito com essa iniciativa nos últimos anos e, hoje, demais empresas do setor têm desenvolvido diversas iniciativas nesse ecossistema de inovação.

Qual o futuro? Unicórnios ou camelos?

Cerca de metade das healthtechs brasileiras têm menos de cinco anos de operação. A curva de amadurecimento é mais longa que em outros setores, mas é preciso cautela. Com a máxima do empreendedorismo de que a cada 100 startups apenas uma sobrevive, Thiago Julio diz que tudo que é incerto tem uma grande chance de não prosperar. 

“Mas essa máxima não é um problema exclusivo do Brasil ou da área da saúde, é inerente à natureza de empreender. Essas empresas vivem em um ambiente de incerteza e precisam constantemente provar se sua proposta está alinhada com as demandas do mercado”. Para ele, isso significa ter um fluxo de caixa adequado para poder testar. “O que poderia e ajuda, sim, é o financiamento, o investimento em si. Quando apoiamos e investimos em uma startup estamos dando esse tempo de vida para ela e apostando no seu crescimento”. 

Já Gustavo Araújo, do Distrito, acredita que a perspectiva está mudando: “Nem toda startup vai fazer IPO, ser unicórnio e ter esse tamanho. E nem toda startup almeja isso. Temos visto muitas startups que chamamos de camelo: crescem de maneira mais lenta, mas são sustentáveis e dão lucro desde o começo. Em vez de queimar caixa em investimento para crescer, elas buscam uma equação mais sustentável do ponto de vista de crescimento e lucratividade”.

“Tem muito espaço no mercado brasileiro para esse tipo de startup. Nem todo setor está acostumado a falar de winner takes all, que é o mercado com espaço para um ou dois grandes players. O Brasil tem dimensões continentais, então a regionalização e o atendimento especializado vão continuar sendo uma vantagem dos players regionais. Nem todos vão ter capacidade de atuar no País, no mundo todo. Há espaço para startups que não têm ambição de ser unicórnio, mas que vão sobreviver e ser bem sucedidas por muito tempo”, complementa Araújo.

Na próxima parte deste especial, Futuro da Saúde trará cinco healthtechs para ficar de olho em 2021.

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