O curioso caso dos pacientes do presente e dos médicos do passado

É de se estranhar o fato de ainda haver médicos que se surpreendem ou se incomodam com pacientes que chegam ao consultório munidos de informação de saúde que coletaram no Google

419

Por muito tempo, o papel do paciente foi marcado pela passividade na interação com médicos e o sistema de saúde. Provavelmente, porque, historicamente, o conhecimento médico era restrito aos pequenos círculos de quem estudava a Medicina. Médicos eram a fonte única, irrestrita e inquestionável de informação. Aos pacientes, sobrava aceitar, assumir a postura passiva e vir a nós, conforme nossa disponibilidade, para ter suas dúvidas e angústias resolvidas.

Já faz um tempo que isso tem mudado. E não é surpresa: três revoluções industriais ocorreram no mundo. Estamos na quarta delas, que faz com que tecnologias que eram disponíveis apenas para grandes corporações fiquem cada vez mais acessíveis, catalisando o processo de transformação digital em todos os setores e esferas.

Só nos smartphones nos nossos bolsos, temos mais poder computacional do que os computadores da NASA que levaram o homem à Lua na década de 1960.  As notícias e informações chegam às nossas mãos em questão de segundos. 24 horas por dia e sete dias por semana. 

Se essas ferramentas transformam a vida de todos nós, é natural que também transformem nossa relação com a saúde. Porque a tecnologia e a conectividade fazem com que os pacientes comecem a ter acesso a informação que antes só estava disponível na torre de marfim da medicina.

O cardiologista (e referência em inovação em saúde) Eric Topol define, brilhantemente, esse fenômeno como o Momento Gutenberg da Saúde: “do mesmo jeito que invenção da prensa por Gutenberg tirou o monopólio do conhecimento da Igreja e dos mais ricos, as tecnologias digitais estão fazendo o mesmo com a Medicina. Com smartphones em mão e a internet móvel, os pacientes deixam de ser reféns de um sistema impessoal e paternalista onde se ouve ‘não atrapalhe porque o médico sou eu’.”

Reflexo interessante disso é o fato de que, hoje, 83% das pessoas no mundo usam a internet para buscar informação em saúde. Um bilhão de buscas relacionadas ao tema acontecem diariamente. São mais de 70.000 por minuto. E, no Brasil, isso é ainda mais intenso. Porque 71% de nossa população tem acesso a internet, mas só 25% têm plano de saúde. Aqui, cerca de um terço das pessoas lançam mão da pesquisa na internet antes mesmo de tentar agendar uma consulta médica. E a maior parte dessas buscas é feita por meio de smartphones.

Não é de se estranhar que a postura passiva dos pacientes comece a se transformar em um desejo por maior conhecimento e protagonismo em relação à própria saúde. Nasce, então, o e-patient: engajado, empoderado e equipado. O que é de se estranhar é o fato de ainda haver médicos que se surpreendem ou se incomodam com pacientes que chegam ao consultório munidos de informação de saúde que coletaram no Google e dotados de posturas mais questionadoras e ativas em relação ao próprio cuidado.

Que fique claro, meu objetivo aqui também não é discutir a qualidade da informação encontrada na online. Isso merece, inclusive, um outro texto para provar que os médicos precisam ocupar melhor os espaços digitais e se firmarem como fonte de informação de qualidade sobre saúde, já que os pacientes têm acesso, mas não o conhecimento para fazer a curadoria adequada dela. Minha intenção é evidenciar o descompasso entre as mentalidades e expectativas de médicos e pacientes no mundo atual. Os médicos, em sua maioria, ainda não estão preparados para lidar com os pacientes do mundo digital.

E dá para entender. A principal “receita” para formar médicos foi estabelecida em 1910, pelo Relatório Flexner.  Foi ele que definiu o que as faculdades de Medicina deviam ensinar. Desde então, muita coisa mudou no mundo (e no papel do paciente), mas pouca no ensino médico. A postura natural acaba sendo a de se defender por meio da negação, críticas e combate às transformações: seja aquelas relativas à mudança de perfil do paciente ou ao uso de novas tecnologias como a Inteligência Artificial ou mesmo a telemedicina no dia-a-dia.

Eric Schmidt, ex CEO do Google, disse que “com maior conectividade, virão maiores expectativas”. Isso, definitivamente, já passou a acontecer na Medicina. Ao invés de negá-las e combatê-las, é preciso entender que, se quisermos ser capazes de atendê-las e proporcionar uma experiência de saúde mais rica e alinhada às necessidades dos pacientes do século XXI, será necessário nos adaptarmos, também, para o mundo digital. E, para isso, vai ser preciso bem mais do que carimbo, estetoscópio e receituário.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui