O cuidado com a saúde precisa ultrapassar as paredes dos hospitais

Para dar o próximo passo não precisamos de uma nova invenção científica extraordinária. A tecnologia disponível atualmente já é capaz de transformar a realidade da saúde de um país.

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Definitivamente, vivemos um momento bem peculiar na Medicina. Por um lado, nunca tivemos tanto conhecimento. Até 1950, o conhecimento médico levava 50 anos para dobrar. Em 2010, isso passou a acontecer a cada três anos. E, esse ano, a quantidade de conhecimento médico começou a dobrar a cada dois meses e meio. O Pubmed, a principal plataforma que médicos utilizam para se atualizar, já conta com mais de 30 milhões de estudos científicos. Só sobre Covid-19 já existem mais de 30 000 artigos científicos no portfólio do NIH.

Também nunca tivemos tantas ferramentas para ajudar as pessoas: temos antibióticos, marcapassos, cateterismo cardíaco, moderníssimos exames de imagem e até robôs cirúrgicos. Já começamos até discutir sobre impressão 3D de órgãos.

Avanço incontestável. Tudo incrível e motivo para fogos de artifício, certo? Então, como explicamos o fato de que a geração dos millenials (a de quem nasceu entre os anos de 1981 e 1996) tem maior prevalência de 8 doenças crônicas? Eles têm mais diabetes, hipertensão e doenças relacionadas ao colesterol do que a geração X (a geração anterior, dos nascidos entre 1965 e 1980)? Tanto que, pela primeira vez na história, desde 2014, a expectativa de vida começou a cair em países como os Estados Unidos e o Reino Unido. Talvez estejamos diante da primeira geração que pode viver menos que seus pais

Não parece paradoxal? Como explicar?

Eu tenho uma teoria. E ela envolve fazer uma pergunta simples: o que é cuidar da saúde? Faça essa pergunta para os pacientes e você perceberá que a maioria das respostas vai apontar ações como “ir ao médico regularmente”, “fazer checkup anual” ou “tomar remédios corretamente”. Faça a mesma pergunta para os gestores e tomadores de decisão e você vai ouvir “contratar médicos” ou “construir/ampliar hospitais e postos de saúde”.

Sim, essas ações certamente dizem respeito a cuidar da saúde. E é indiscutível a relevância e a importância delas. Mas meu ponto aqui é outro. É mostrar o denominador comum entre essas respostas: a percepção de que medidas de saúde só acontecem dentro do hospital e consultório. É preciso mudar o conceito de que a saúde só deve ser tratada em ambientes específicos. O cuidado deve ultrapassar as paredes dos hospitais. 

Para dar o próximo passo não precisamos de uma nova invenção científica extraordinária. A tecnologia disponível atualmente já é capaz de transformar a realidade da saúde de um país. O aumento do poder computacional e a conectividade na palma da mão, por meio dos smartphones, trazem novas possibilidades e a chance de pensar e agir diferente. Inclusive na Saúde. Para ilustrar, é inevitável lembrar do exemplo de um país. Estônia? Dinamarca? Não. Ruanda.

Há pouco mais de 25 anos, Ruanda sofreu um genocídio devastador. O país ficou destruído e precisou ser reconstruído praticamente do zero. Com uma população de 12 milhões de pessoas e escassez de recursos naturais, não seria nada fácil. O sistema de Saúde não foi exceção. E o cenário era desolador: Em 2010, havia a proporção de um médico para cada 10.000 habitantes e uma enfermeira para cada 5 mil pessoas.

Se tudo parecia conspirar contra eles, não foi o que ocorreu. Conseguiram virar o jogo e tiveram resultados incríveis: reduziram em 70% a mortalidade infantil na última década, dobraram a expectativa de vida, conseguem prover tratamento antiretroviral para 94% da população com HIV e reduziram as mortes por malária em 87% em seis anos.

Como fizeram isso? Contratando médicos, enfermeiras e construindo hospitais? Não. Nem teria como. Curiosamente, uma das primeiras medidas de saúde do governo foi fazer os investimentos necessários para cabear o país inteiro e, assim, garantir que internet em banda larga e móvel (por 4G) chegasse a todo o país. Sim, vocês leram corretamente: acesso à internet como medida de saúde.  Para quê? Para permitir que a telemedicina chegasse a todo o país (já que não haveria mão-de-obra suficiente), que houvesse sistemas para gestão adequada e inteligente de estoques (essencial em contexto de escassez), parceria com startups para entrega de medicamentos e hemoderivados para regiões remotas por meio de drones e até para criar um canal de comunicação para ouvir as demandas dos habitantes, como fez por muito tempo a primeira ministra Agnes Binagwaho, em uma iniciativa chamada Minister Mondays, em que ela interagia com a população pelo Twitter.

Outro exemplo? Tem um mais recente: Em outubro desse mês, a Alemanha, que não era um país conhecido por ser digital-friendly, se tornou o primeiro país do mundo onde médicos podem prescrever aplicativos que comprovadamente promovam uma melhor coordenação do cuidado no manejo de doenças crônicas (um grande desafio) para seus pacientes. Isso tudo com o custo coberto pelo sistema público de saúde.

Eu poderia dar outros exemplos de sucesso. Mas a mensagem que fica é que começa a ficar claro que, no século XXI, se quisermos atingir melhores resultados no que tange a cuidar melhor de nossas populações, a definição de saúde precisa ser atualizada. E que, em um mundo digital, medidas de saúde precisarão extrapolar os limites das paredes de um hospital ou o tamanho das folhas de um bloco de prescrição.

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