O cérebro corrupto

Um estudo publicado em uma das mais importantes e respeitadas revistas científicas do mundo tenta explicar como funciona a corrupção no cérebro das pessoas

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A corrupção não sai do noticiário. Quase que diariamente um novo escândalo é divulgado pela mídia e isso já não nos surpreende mais. Talvez nos impressionemos pela criatividade dos esquemas, que encontram novas formas mirabolantes de driblar a lei e apoderar-se de valores cada vez maiores de dinheiro público. Devo confessar que o único pequeno prazer que sinto no meio deste lamaçal de iniquidades é o da astúcia no batismo das operações e aos apelidos atribuídos aos corruptos de cada escândalo.

Apesar dos grandes desvios nos chamarem mais a atenção, os pequenos ilícitos também nos assombram no dia a dia. Seja em pessoas que sonegam impostos, aquelas que se livram de multas de trânsito por caminhos tortuosos ou pelo famoso ‘jeitinho brasileiro’. O pior: elas contam estas atitudes como proezas e alardeiam esperteza!

O interessante é notarmos que muitas destas pessoas que cometem desde pequenas fraudes até aquelas que participam de grandes esquemas, mantêm um discurso de defesa da ética. Algumas são até praticantes de alguma religião ou filosofia que prega a moral e os bons costumes e negam ou parecem não se incomodar em violar as leis.

Mas por que, então, continuam praticando tais atos com tanta facilidade e sem remorso? Seria só pela ganância, por algum desvio de caráter ou descaminho educacional e ético? Há algum traço de psicopatia?

Um interessante estudo publicado na revista Nature Neuroscience, uma das mais importantes e respeitadas revistas científicas do mundo, tenta explicar porque o cérebro de um corrupto não sofre de remorso ou culpa.

A pesquisa, liderada pelo cientista Neil Garret, avaliou um grupo de 60 indivíduos que foram sendo submetidos a situações seguidas em que deveriam tomar atitudes fraudulentas nas quais obteriam benefícios para si mesmos, em prejuízo de outras pessoas.

O autor analisava os cérebros destas pessoas através de uma ressonância nuclear magnética funcional, um exame de imagem que vê as estruturas cerebrais. Ela avalia também onde está ocorrendo a maior atividade cerebral no momento do teste realizado na pesquisa.

Quando as pessoas foram submetidas à primeira situação em que deveriam ser corruptas, a região da amígdala, que é uma porção do cérebro que faz parte das áreas ligadas à emoção e atua quando sentimos raiva ou indignação perante uma situação, ficou muito ativada.

Isso quer dizer que a região da amígdala muito ativada significa alto grau de indignação ou desconforto pelo fato de ter que praticar um ato ilícito. Conforme o estudo prosseguiu e outras situações em que os mesmos participantes eram expostos a novas e seguidas situações em que deveriam agir como corruptos, progressivamente a região da amígdala ficava cada vez menos ativada a cada nova pratica eticamente inapropriada.

Ou seja, conforme o indivíduo ia praticando novos atos de corrupção, o cérebro ia se acostumando com isto e entendendo que aquilo seria normal, diminuindo a cada vez a culpa que o indivíduo sentia até extinguir qualquer sentimento de culpa.

Ou seja, o cérebro se acostuma com a prática da corrupção e passa a não ter mais crítica sobre ela.

Talvez por isto nós passemos a achar que comprar mercadorias provenientes de contrabando seja normal. Ou ainda pensar que é aceitável votar em um político sabidamente desonesto, mas que pode fazer algo para o nosso próprio benefício ou para pessoas próximas a nós.

Não podemos deixar que o cérebro se acostume com pequenas fraudes ou irregularidades. Senão, no futuro, corre-se o risco de achar que práticas condenáveis são normais e que isso faz parte de nossas vidas e da política do país.

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