Ambição da Nvidia é construir IA do Brasil para o brasileiro

Ambição da Nvidia é construir IA do Brasil para o brasileiro

Em entrevista exclusiva, Marcel Saraiva, da Nvidia, falou sobre os recentes anúncios da empresa e os planos de atuação na área da saúde

By Published On: 01/05/2024
“Construir a IA do Brasil para o brasileiro”, diz Marcel Saraiva da Nvidia

Foto: Marco Pinto

As oportunidades de inovação e potencial de mercado na saúde são tão grandes que empresas de fora do setor estão cada vez mais de olho em como participar desse jogo – seja oferecendo serviços para o ecossistema ou até mesmo soluções diretas à população. Uma das empresas que tem ganhado destaque no noticiário é a Nvidia. Se no passado, a companhia era conhecida principalmente pelos jovens por sua atuação em computação, hoje é vista como um player que tem apostado e apresentado inovações na área da saúde, principalmente quando o assunto é inteligência artificial.

Um dos exemplos mais recentes foi o anúncio dos “agentes de saúde digitais“, uma plataforma desenvolvida em parceria com a startup Hippocratic AI para criar bots que utilizam IA generativa capazes de tirar dúvidas de pacientes – e a um custo muito menor, segundo a empresa. Além disso, para o Brasil está prevista a chegada de um supercomputador no segundo semestre. Em entrevista exclusiva ao Futuro da Saúde, Marcel Saraiva, gerente de vendas da divisão Enterprise da Nvidia no Brasil, falou sobre esses lançamentos, o crescimento do uso da inteligência artificial pela indústria, a importância de capacitar profissionais e os avanços com o governo para melhorar a implementação das tecnologias. Segundo ele, “existe esse diálogo, com algumas agendas sendo preparadas”.

Com sede na Califórnia, a Nvidia possui um escritório no Brasil e estabelece parcerias com centros e universidades locais para impulsionar a pesquisa. A Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA-UFG), é pioneira ao receber o programa Nvidia AI Nation no Brasil, uma proposta de colaboração para enfrentar o crescimento da computação acelerada no país. Além disso, a Nvidia tem parcerias com o Instituto Mauá de Tecnologia e o SiDi, um dos maiores institutos privados de ciência e tecnologia do Brasil. Em 2021, o SiDi recebeu o primeiro supercomputador do país voltado para acelerar projetos de pesquisa e desenvolvimento em IA. A novidade é que um segundo supercomputador está previsto para chegar ao país no segundo semestre.

Com um valor de mercado de US$ 2,1 trilhões, a empresa atualmente está atrás apenas da Microsoft e da Apple. Nos últimos 12 meses, gerou retornos de 251,98% e, apenas neste ano, de 95,46%. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

A Nvidia tem se aproximado e desenvolvido serviços para a área da saúde. Como ocorreu essa mudança?

Marcel Saraiva – A Nvidia, ao longo do tempo, percebeu a necessidade de verticalizar as ferramentas. Primeiro, construir uma base genérica e, em seguida, oferecer ferramentas específicas para setores como saúde, varejo, energia e educação, fazendo o ajuste final das aplicações. Na área de saúde, já estamos nesse caminho há bastante tempo, trabalhando com empresas que desenvolvem equipamentos médicos e pesquisa na área de medicamentos. Ou seja, nos especializamos na vertical de saúde. No entanto, com a inteligência artificial, perdemos o controle, no bom sentido da palavra. Começou a surgir uma grande quantidade de aplicações e soluções que realmente tangibilizaram o uso para o consumidor final.

Em alguns países, incluindo os Estados Unidos, já há escassez de profissionais de saúde. Vocês lançaram recentemente os “agentes da saúde”. Como funciona esse sistema e qual o impacto dele no setor da saúde?

Marcel Saraiva – Sobre esse anúncio dos ‘agentes de saúde’ e o case com Hippocratic AI, qual tecnologia está por trás disso? Eles utilizaram um modelo de linguagem, especializaram-se em tópicos na área médica, e colaboraram com diversas empresas, inclusive aquelas associadas a medicamentos. Adicionalmente, incorporaram um avatar animado em tempo real que sincroniza os movimentos da boca com o que está sendo dito, permitindo atendimento remoto a qualquer momento. Por exemplo, se eu sou um fabricante de um medicamento, quando surge uma dúvida sobre o remédio, há várias opções: ligar para o seu médico, consultar a bula ou pesquisar no Google. No entanto, imagine se eu tivesse uma aplicação treinada com todas as informações do remédio, certificada por um médico e pelo laboratório, garantindo que aquela informação é correta e compreensível para você, e que pode ser utilizada a qualquer momento. Foi exatamente isso que eles fizeram. Esse é um serviço adicional que hoje você não tem. Você ligaria para o seu médico às 4 da manhã ou enviaria uma mensagem no domingo à tarde e esperaria pela resposta? Com um aplicativo, você recebe uma resposta precisa, validada pelo sistema de saúde, pelo fornecedor, pelo médico ou até mesmo pela entidade que está prestando o serviço. Trata-se de uma combinação de tecnologias que, no final das contas, pode trazer benefícios muito interessantes para os pacientes e usuários.

Os “agentes de saúde” foram testados por mais de 1.000 enfermeiros e 100 médicos nos EUA, destacando-se na identificação de efeitos de medicamentos e na criação de conexões humanas em interações virtuais. Qual é o impacto disso?

Marcel Saraiva – Temos no Brasil uma demonstração com um parceiro, onde estamos desenvolvendo uma solução para auxiliar a enfermagem na triagem. E o que a inteligência artificial faz? Enquanto o enfermeiro está lá colocando o oxímetro, tirando a pressão e realizando a triagem no hospital ou clínica, na famosa anamnese, a máquina vai traduzindo o que a pessoa fala para a linguagem do médico. Ele traduz ‘dor de barriga’ para ‘dor abdominal’, compara isso com o banco de dados de saúde e fornece um percentual de probabilidade baseado na descrição do paciente e na interação com o enfermeiro. Por exemplo, pode indicar 80% de chance de ser uma crise renal e 20% de ser uma crise intestinal. Existe uma base em que, ao final da conversa do enfermeiro com o paciente, a máquina já sugere um caminho a seguir. O enfermeiro complementa com as informações coletadas naquele momento, como toque e febre, e já sai da triagem sabendo o que precisa ser feito. Quando surge uma solução testada por 1.000 enfermeiros e 100 médicos, estamos no caminho certo para garantir um uso seguro para os usuários. No entanto, é essencial que haja um propósito claro. Existem tecnologias que podem parecer interessantes, mas se aplicadas não contribuem em nada. Ao escolher tecnologias que resolvem problemas reais e têm impacto imediato e tangível, as chances de sucesso são muito maiores.

Melhora a qualidade da consulta?

Marcel Saraiva – Algumas pesquisas apontam que, em uma consulta em um hospital de pronto-atendimento, o médico passa 60% do tempo digitando no computador e apenas 40% olhando para o paciente. O objetivo é proporcionar um atendimento mais humano. E se automatizarmos esse processo? Enquanto o médico conversa com o paciente, a ferramenta consegue preencher todos os dados que o sistema solicita. É crucial ter esse controle e histórico de forma automática. A máquina reconhece quem é o paciente e quem é o médico falando, inserindo as informações de maneira precisa. Assim, o médico pode dedicar todo o tempo olhando para o paciente, sem precisar preencher nada no sistema. Isso é incrível e vai transformar a forma como o médico atua. Algumas etapas do processo serão automatizadas, e outras serão assistidas por IA, liberando mais tempo para o médico se concentrar no paciente e proporcionar um tratamento mais humano. Ao mesmo tempo, a IA pode orientar o médico em decisões que facilitam e agilizam a consulta.

Quais as perspectivas de chegar ao Brasil e como podemos conciliar isso com as necessidades de mão de obra?

Marcel Saraiva – Vimos um surgimento significativo de startups e healthtechs trazendo ideias interessantes. Essas soluções estão sendo incorporadas por sistemas de parceiros em clínicas e hospitais e estão ganhando espaço. No entanto, é preciso alcançar uma escala maior. Muitas pessoas envolvidas nessa jornada não foram formadas especificamente para isso. Podem ser engenheiros ou médicos. Há casos de startups de grande sucesso no Brasil fundadas por médicos que, embora não tenham formação em inteligência artificial, buscaram conhecimento, muitas vezes em parceria com engenheiros, para construir uma solução. Às vezes, é necessário contar com um pouco de sorte. Com o avanço da tecnologia, torna-se cada vez mais crucial incorporar temas de inteligência artificial nos cursos de graduação. É essencial formar profissionais preparados para essa realidade. A primeira turma de IA se formou no Brasil em 2024. É pouco, mas todos estão empregados. Sem dúvida, vemos isso com bons olhos e temos notado um crescimento e melhoria contínuos. No entanto, ainda precisamos trabalhar na formação desses profissionais que irão atuar com essas tecnologias. Caso contrário, a curva de aprendizagem pode acabar dificultando nosso alcance em escala.

E quais os próximos passos aqui para o Brasil?

Marcel Saraiva – Temos observado investimentos significativos de entidades da área de saúde, hospitais, clínicas e universidades em parceria com essas empresas. Há casos notáveis em áreas como genômica, pesquisa clínica e inteligência artificial. Esta tendência está ganhando ainda mais robustez. Acreditamos que, com a IA generativa, algumas etapas deste processo foram simplificadas. Isso nos levará à adoção dessas tecnologias, que, consequentemente, trarão novos serviços para o usuário. Esperamos em breve poder exportar esse tipo de tecnologia. O Brasil possui uma característica única no mundo: o SUS. Conseguimos concentrar dados e informações de uma variedade imensa de pessoas. A diversidade brasileira é de uma riqueza incomparável, algo que poucos países possuem de forma tão concentrada. O grande trunfo para essas pesquisas em IA e projetos de IA é o dado. Temos esse dado em nosso país e poder utilizá-lo para melhorar a saúde e o bem-estar da população nos permite dar um salto incrível. Estamos caminhando nessa direção e em breve teremos uma política de IA sendo implementada no âmbito federal, começando pela saúde. Estou muito animado com a perspectiva de avanços na área de IA através de uma estratégia federal e investimentos locais para beneficiar a população brasileira.

Existe esse diálogo com o governo federal?

Marcel Saraiva – Já existe esse diálogo, com algumas agendas sendo preparadas. As informações já estão chegando aos governos, justamente mostrando o que temos feito em países como a Índia. Lá, por exemplo, teve uma agenda completa desde a infraestrutura e capacitação. A equipe indiana capacitou mais de 50 mil pessoas em tecnologias de inteligência artificial para justamente suportar as demandas internas do país. Essa é a expectativa que imaginamos aqui. Tendo obviamente uma diretriz estratégica, uma política nacional  de inteligência artificial, para conseguirmos usar o que temos de melhor aqui que são os dados. Construir a IA do Brasil para o brasileiro. Esse é um caminho. As conversas estão sendo feitas e várias áreas da sociedade estão sendo envolvidas. Esta é uma conversa que deve ser liderada pelo governo federal. Se não, cada estado pode seguir um caminho diferente e muita coisa pode se perder. O brasileiro sabe que os recursos são finitos; otimizamos ao máximo qualquer investimento para que seja certeiro. Como a Nvidia é uma corporação com atuação global, conseguimos compartilhar práticas adotadas pelo mundo e identificar aquelas que mais se adequam à nossa realidade.

Qual será a importância da regulação da IA?

Marcel Saraiva – A regulação é importante, principalmente para identificar e coibir o uso inadequado da ferramenta. Esse é o grande desafio: no mundo digital, é difícil identificar quem está agindo de maneira incorreta, seja uma pessoa se escondendo, um hacker ou uma conta falsa. Às vezes, torna-se complicado discernir. No entanto, é possível bloquear, reagir e utilizar a IA para combater aqueles que estão usando a tecnologia de forma inadequada. Você precisa criar mecanismos para isso e legislar adequadamente. Os crimes digitais devem ser punidos da mesma forma que os crimes não digitais. Já vimos diversas leis sendo aplicadas e a criação de delegacias especializadas em cibercrime. Nunca se pode deixar de bloquear o uso inadequado da tecnologia. Se você fica de fora desse contexto, estará vulnerável a ataques e invasões de hackers que utilizam essa tecnologia. É preciso se preparar e estabelecer um processo de regulação e controle para identificar quem está agindo de forma errada.

Além dos “agentes de saúde”, o que mais deve vir como novidade?

Marcel Saraiva – Uma das tendências que têm ganhado grande tração é o uso da IA generativa para descobertas de medicamentos. Isso está acelerando de forma significativa o processo de pesquisa e desenvolvimento das empresas que criam medicamentos. Pesquisadores e desenvolvedores que buscam integrar uma nova molécula ao DNA ou sugerir um medicamento personalizado contam agora com técnicas de IA generativa. Esses modelos específicos são especializados no assunto e podem auxiliar profundamente os pesquisadores. Por exemplo, um modelo especializado em moléculas para Alzheimer poderia ser um grande recurso nesse campo. É o que está sendo construído neste momento: usando essas técnicas e especializando esses modelos. Quando falamos em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, a quantidade de dados trabalhados é gigantesca. Com as tecnologias da Nvidia e a plataforma BioNeMo, nossa capacidade computacional combinada ao histórico de dados, pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, além do conhecimento das universidades e laboratórios, estamos alcançando avanços incríveis em um curto espaço de tempo. Onde antes levávamos 4 ou 5 anos, agora estamos conseguindo em 6 meses. É possível conceber uma análise clínica e obter resultados imediatamente. Essa tendência de laboratórios adotando essas tecnologias só tende a crescer, tornando-as cada vez mais maduras e ampliando sua escala.

Por que há planos para trazer um segundo supercomputador para o país este ano?

Marcel Saraiva – Os países estão buscando o que chamamos de soberania de inteligência artificial. Isso significa que eles devem ser capazes de desenvolver soluções ou aplicações de IA dentro do próprio país, utilizando seus próprios dados. Dessa forma, não seria necessário enviar dados sensíveis e valiosos para fora do país apenas para tê-los devolvidos com custos adicionais. Podemos evitar etapas desnecessárias desse processo. Se o Brasil alcançar essa soberania e puder desenvolver essas soluções internamente, melhoramos significativamente nossa proteção e desenvolvimento. No entanto, para tornar isso realidade, precisamos de dados, supercomputadores e investimento do governo federal.

Qual o recado para a sociedade que questiona o uso e aplicações da IA em saúde?

Marcel Saraiva – Tranquilizar as pessoas é mais importante do que qualquer outra coisa. Não tenham medo; não estamos lidando com algo não estudado, validado ou controlado. Tudo isso exige muito cuidado. Ao tentarmos introduzir ferramentas no mercado, seja na área de saúde, educação ou qualquer outra, é essencial manter os pés no chão. As ferramentas de IA são úteis e podem ser benéficas. No entanto, é crucial implementá-las com cuidado e segurança, garantindo que cheguem aos usuários da forma mais simples possível e proporcionem o maior benefício ao mesmo tempo.

Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

About the Author: Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

One Comment

  1. Alexandre Reis 03/05/2024 at 18:23 - Reply

    Oi Angélica, muito boa sua matéria queria entrar em contato com a Nvidia para entender e usar esta tecnologia em nosso Hospital, tenho certeza que seria um case de sucesso. Você pode nos ajuda

Leave A Comment

Recebar nossa Newsletter

NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

Artigos Relacionados

Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.