Alta de casos de câncer e custos da saúde estimulam novos negócios em oncologia

Alta de casos de câncer e custos da saúde estimulam novos negócios em oncologia

A evolução no tratamento do câncer levou o setor de […]

By Published On: 22/03/2023
Parcerias entre empresas de saúde e aquisições lideram os novos negócios em oncologia.

A evolução no tratamento do câncer levou o setor de saúde a um cenário complexo. Com terapias cada vez mais individualizadas e tecnológicas, trazendo melhores resultados para os pacientes, os custos elevaram drasticamente, podendo chegar à casa dos 7 dígitos. Aliado a isso, a estimativa de 704 mil novos casos de câncer no Brasil em cada ano do triênio 2023-2025, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), levantou um alerta aos médicos e hospitais. Esse cenário tem colaborado com uma movimentação no mercado da saúde no país, com o surgimento de novos negócios em oncologia, além de fusões e aquisições.

Segundo Fátima Pinho, sócia de Life Sciences & Health Care da Deloitte, cerca de 3,5 bilhões de reais foram investidos nos últimos 3 anos nessa área no país – e deve continuar atraindo a atenção de hospitais, operadoras e laboratórios:

“Estamos vendo muitos players tentando buscar uma colaboração para conseguir olhar esse cuidado de uma forma mais ampliada e se antecipar a situações. A gente está passando por uma curva de transição de uma série de serviços que estão se estruturando e no futuro vão poder inclusive escalar e ajudar muitos desses pequenos que ainda não tenham essa condição de investimento”.

Alguns exemplos recentes foram a criação de uma joint venture pela BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Fleury e Atlântica Hospitais, do Grupo Bradesco Seguros; o investimento do Hospital Israelita Albert Einstein em um novo centro oncológico, avaliado em R$1,2 bilhões; a unidade dedicada ao câncer da Dasa, no Rio de Janeiro; a criação de uma empresa conjunta entre a Porto e a Oncoclínicas, além do investimento de 200 milhões da Rede D’Or em seu parque robótico.

Com a meta de reduzir a fragmentação do cuidado, melhorar a jornada do paciente, realizar diagnósticos precoces, reduzir custos e tornar o sistema mais eficiente, esses grupos devem seguir investimento na oncologia, seja com aquisições de hospitais e clínicas menores ou em regiões com pouca assistência, seja na criação de novos hospitais, mais completos e dedicados à especialidade, em sinergia de seus negócios de oncologia.

Investimentos começam em prevenção e parcerias

Frente às estimativas de novos casos, Fátima Pinho, da Deloitte, analisa que “todo mundo está olhando para isso quando falamos de operadoras e também hospitais, quando falamos das verticalizadas. O sinistro desse paciente com câncer é algo que quanto mais a gente espera para detectar e começar esse tratamento, pior essa equação fica”.

Por isso, novos negócios em oncologia têm surgido com a prevenção como uma bandeira, para reduzir os custos a longo prazo. É o caso, por exemplo, da joint venture anunciada em 2022 por Atlântica Hospitais, do Grupo Bradesco Seguros, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e Fleury. Esse novo hospital nasce com a missão de acompanhar o paciente desde o início da jornada.

“A gente sabe que esse é um dos dos principais pontos de dor das operadoras, seja em relação ao custo, seja em relação à complexidade da questão assistencial. Fizemos uma parceria que cada um traz o que pode melhor contribuir. Então, no Fleury temos toda uma expertise de olhar para a parte de diagnóstico, desde o rastreamento, passando pelo diagnóstico, estadiamento e até o acompanhamento do tratamento”, afirma Edgar Gil Rizzatti, diretor executivo médico, técnico, de negócios B2B e novos elos do Grupo Fleury.

A nova empresa recebeu um aporte de R$ 678 milhões e planeja abrir suas portas ainda no final de 2023. Para isso, está em fase de contratação dos seus executivos e deve ter sua primeira unidade em São Paulo, explorando outras capitais em seguida, e realizando parcerias com clínicas em regiões que ainda não tenham a demanda suficiente.

A construção de joint ventures tem se mostrado atraente ao mercado, com novas propostas surgindo em outras especialidades além da oncologia. Bradesco Seguros anunciou uma nova parceria com o Einstein, para a construção de um hospital geral em São Paulo, e o Grupo Fleury também possui uma JV com o Einstein, com foco em pesquisa e testes genéticos, chamada Gênesis.

“Temos que ver mais casos acontecendo para afirmar que é uma tendência, mas é um modelo que viabiliza quando se tem complementariedade, não tem muito overlapping de atuação, e pode funcionar muito bem. Uma das premissas é ter essa combinação cultural. Vimos fusões de grandes players que têm um crash cultural. Como é que vai trabalhar junto se eles estão vindo de posições ou modos de atuar conflitantes?”, avalia Patrícia Holland, diretora executiva de desenvolvimento de negócios e expansão da BP.

Planos de saúde de olho

Para as operadoras de saúde esse modelo de parcerias pode ser interessante para conseguir controlar os custos sem necessariamente se verticalizar por completo, desenvolvendo um serviço complexo e com altos custos sozinhas. Por isso, o caminho de criar uma joint venture pode ser uma saída vantajosa.

“Todas essas operadoras que têm sua carteira de beneficiários já entenderam que não pode estar de fora da estratégia tratar esses pacientes e acompanhar de perto. E ficou muito claro que ou você é bom em oncologia para tratar paciente com câncer ou então você não se aventura. A gente vê algumas parcerias também de operadoras, que talvez já enxergaram que não tenham essa expertise dentro de casa”, analisa Fátima Pinho, da Deloitte.

Os altos gastos ao longo de 2022 também podem ser um incentivador. Foram R$ 5,5 bilhões de prejuízo operacional no 3º trimestre, de acordo com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Por isso, há esforços para se reduzir os custos e ganhar eficiência, não só na oncologia mas em todas as áreas da saúde.

“Tem o lado da prevalência de casos, mas tem um lado muito importante de como estão os custos na oncologia. Você tem uma prevalência da população em geral de 0,5%, que representa 10% do custo das operadoras. Com tratamentos inovadores, imunoterapia, terapia celular, robôs e novas drogas, você não está tendo um ganho de escala, porque mais gente está usando. São terapias que estão chegando mais custosas”, alerta Patrícia Holland, da BP.

Seguindo essa linha, a Rede D’Or e a operadora SulAmérica anunciaram em 2022 uma fusão, avaliada em 15 bilhões de reais, em movimento que segue uma tendência do mercado. A operadora passa a ter mais controle sobre os gastos, utilizando uma rede semi-verticalizada do grupo de hospitais.

Apesar do negócio não ser focado em oncologia, a Rede D’Or possui forte atuação na área. Para Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or, “o ganho de escala e de sinergia é importante. Essa é uma questão que hoje está presente no mundo inteiro, não é só no Brasil, que é a discussão do custo do tratamento oncológico. Não é segredo para ninguém que a inflação médica é maior do que a inflação, explicado pela incorporação de novas tecnologias que vêm a um custo mais elevado”.

Aquisições

“A Rede D’Or iniciou há pouco mais de 10 anos a sua oncologia, fazendo aquisições no Rio de Janeiro e continua fazendo aquisições ao redor do Brasil. Mais recentemente nós também passamos a investir na criação de serviços próprios em regiões em que nós tivéssemos adquirido hospitais. Temos uma extensão geográfica bastante grande, estando presente em muitos estados brasileiros, e a ideia é que onde você tem a atuação da Rede D’Or, você tem atuação da oncologia D’Or também”, afirma Hoff.

Entre 2020 e 2021, o grupo adquiriu 17 hospitais pelo país, seguindo uma tendência das grandes empresas do setor. Fátima Pinho, sócia de Life Sciences & Health Care da Deloitte, analisa que na oncologia ainda há espaço para avançar em aquisições, mas é preciso um cenário econômico melhor no Brasil:

“Se a situação financeira melhorar, as taxas de juros voltarem a ser algo um pouco mais razoável, acreditamos que vai voltar a aquecer esse mercado de aquisições. Por hora, o que vimos do ano passado para cá é a questão das fusões mais fortemente, justamente para que se capture sinergias mais rápido e consiga converter em bons desfechos e uma conta mais enxuta”.

Outra rede que tem atuado fortemente em aquisições é a Oncoclínicas. Ela vem comprando empresas que atuam nos mais diversos segmentos na oncologia, da pesquisa ao atendimento ao paciente. Em 2022 foi concluída a compra da Unity, em uma negociação de 1,1 bilhões de reais, que somou 35 unidades pelo Brasil. A meta da empresa é ter 10 centros de câncer até 2024.

A construção de redes de atenção ao câncer no Norte do país, segundo Fátima Pinho, da Deloitte, ainda é um gargalo para a saúde suplementar. Ela acredita que há a probabilidade de vermos novos negócios em oncologia nascendo nessa região do país nos próximos anos, com a possibilidade de aquisições para fortalecer os grupos e entrar no mercado.

Tecnologia como carro-chefe dos novos negócios em oncologia

Os novos negócios em oncologia têm colocado a tecnologia no centro do debate. A ideia é que se tenha não só os tratamentos mais avançados, mas também um acompanhamento mais próximo do paciente para seguir o seu tratamento. Consequentemente, essas ações podem gerar uma economia para hospitais e operadoras.

No caso da joint venture da BP, Fleury e do Grupo Bradesco Seguros, Patrícia Holland explica que a interoperabilidade dos dados é mandatória nesse novo hospital oncológico: “Senão você não consegue ter essa eficiência da jornada. A jornada digital é muito simplificada, mas consome todos esses dados integrados. Essa joint venture seria uma oncotech. Você navega o paciente digitalmente por toda a cadeia para ser uma jornada sem fricção e justamente não ficar perdido no sistema”.

A utilização de tecnologia e melhor manuseio das informações do paciente tem sido vista como essencial para o setor. Com isso, surgiu uma demanda por profissionais qualificados para realizar a análise e acompanhamento dos pacientes, por trás das telas dos computadores e não apenas na linha de frente.

Como explica Edgar Gil Rizzatti, do Grupo Fleury, “temos olhado cada vez mais para o profissional de ciência de dados, que nos ajuda na captura e coordenação do cuidado, no que se refere ao uso de informações, como um membro da equipe multidisciplinar de saúde. Ele nos permite fazer um acompanhamento mais apropriado e mais próximo do paciente, no sentido de incentivar que faça uma utilização adequada dos recursos de saúde”.

Já no tratamento em si, a Rede D’Or tem atuado para construir o maior parque robótico da América Latina. Ao todo contam com 23 robôs que auxiliam em cirurgias, representando cerca de 20% de todos os parques robóticos do país, de acordo com a instituição. A oncologia representa grande parte das cirurgias realizadas com essas tecnologias.

“Nós criamos nesses cinco anos o maior e melhor parque de radioterapia da América Latina. Nós temos equipamentos que não encontramos em outros hospitais no Brasil. Além de ter os aceleradores lineares, que normalmente você encontra em parques de radioterapia, temos Gamma Knife – presente em poucos hospitais –, e temos a única CyberKnife do Brasil, que é uma radioterapia robotizada”, explica Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or.

Ainda, existe uma tendência na utilização da telessaúde não só para o acompanhamento dos pacientes. Hoff defende que através de interconsultas entre profissionais da saúde é possível reduzir a necessidade de especialistas em regiões com carência de profissionais de diversos segmentos. A troca de informações já tem circulado com mais agilidade, o que deve ser ainda melhor com a utilização do 5G.

“Isso naturalmente é parte importante da telemedicina, mas tem toda essa outra parte da transferência de dados e imagens por via digital que deve revolucionar também, com a telepatologia e a telerradiologia. Aposto que no futuro teremos até a possibilidade de realizar exames laboratoriais usando equipamentos relativamente simples em casa, em conjunto com laboratório. São áreas que formam um eixo de crescimento importante de tecnologia”, conclui.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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