Estudos promissores, mudanças de paradigma e até IA estiveram no centro dos debates da ASCO 2024

Estudos promissores, mudanças de paradigma e até IA estiveram no centro dos debates da ASCO 2024

Destaque do evento ficou para as soluções mais facilmente aplicáveis na prática clínica; por outro lado, ampliar o acesso aos tratamentos ainda é um desafio global

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By Published On: 03/07/2024
Novidades da Asco 2024 - Futuro Talks

Vanessa Montes, Roberto Pestana, Diogo Bugano, Pedro Usón e Natalia Cuminale em episódio especial de Futuro Talks.

Diante dos avanços que a medicina oncológica tem feito nos últimos anos, o Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) tem atraído cada vez mais a atenção da comunidade científica. Especialistas do mundo – só neste ano foram cerca de 50 mil – participam do evento para conhecer os resultados de novos estudos e entender os novos caminhos da prática clínica da doença – que, infelizmente, terá um aumento de casos no mundo todo nos próximos anos, de acordo com recentes pesquisas.

Nesse sentido, falar sobre o tema tem ganhado cada vez mais relevância no ambiente científico e médico, já que é preciso pensar em alternativas para tratar os pacientes e oferecer, além da esperança de cura, mais qualidade de vida para quem irá conviver com a doença. Pensando nisso, as principais novidades da ASCO 2024 para esse setor da saúde são o tema mais recente do episódio especial de Futuro Talks. O episódio contou com a participação de um time de oncologistas do Einstein que estiveram em Chicago para participar do congresso. São eles: Diogo Bugano, Roberto Pestana e Pedro Usón, que atuam no Centro de Oncologia e Hematologia da instituição; e Vanessa Montes, coordenadora médica da Oncologia do Hospital Municipal Vila Santa Catarina, que é gerido pelo Einstein.

Na visão deles, o encontro trouxe estudos promissores – incluindo um brasileiro – para tumores como melanoma, de pulmão, de esôfago e de pênis, além de novas abordagens terapêuticas que podem trazer mudanças imediatas na prática clínica e inteligência artificial. Até mesmo a telemedicina foi destaque: um dos trabalhos apresentados na plenária do congresso (um dos mais importantes do evento) foi o estudo que avaliou o nível de eficácia e satisfação dos cuidados paliativos para pacientes com câncer de pulmão via telemedicina, em comparação com o atendimento presencial tradicional. Ao analisar os resultados, os pesquisadores constataram que os pacientes atendidos remotamente reportaram um nível de satisfação semelhante aos que tiveram consultas presenciais, além de não apresentarem prejuízos nos cuidados recebidos.

“A análise mostra que, em termos de qualidade de vida, controle de sintomas e ação com o cuidado recebido, as duas modalidades foram equivalentes”, afirma Vanessa Montes. “É algo que tem uma relevância muito grande para o cuidado oncológico, porque a telemedicina é algo facilmente implantável, de baixo investimento, inclusive na rede pública. E a redução do número de visitas ao hospital tem um impacto direto na qualidade de vida desse paciente, que muitas vezes já está fragilizado por causa da doença, além de questões socioeconômicas de acesso, como aquele paciente que mora muito longe do centro oncológico.”

Mudanças na prática clínica

Outro estudo que chamou a atenção dos especialistas e também foi destaque na plenária avaliou a imunoterapia para o melanoma – um dos tumores que mais se beneficiou da chegada de novos recursos terapêuticos nos últimos anos. Segundo Roberto Pestana, o tratamento padrão consistia na cirurgia, mas uma minoria dos pacientes era curada dessa maneira.

Contudo, estudos pequenos começaram a testar uma teoria: a de que a imunoterapia antes da intervenção cirúrgica poderia ativar o sistema imunológico de maneira mais eficiente. Agora, durante a ASCO 2024, finalmente foi apresentado um grande estudo randomizado que trouxe evidências robustas dos benefícios da prática. “Além disso, tem algo muito interessante, que é o fato de que 60% dos pacientes tiveram desaparecimento completo do melanoma somente com duas doses de imunoterapia antes da cirurgia”, destaca o oncologista.

Nesta mesma linha de administração de medicamento antes de intervenção cirúrgica, Pedro Usón abordou o estudo ESOPEC, sobre câncer de esôfago. Ele explica que o ensaio avaliou qual é o melhor regime de tratamento para pacientes com tumor do tipo adenocarcinoma ressecável e localmente avançado. Hoje, o profissional pode optar entre administrar apenas a quimioterapia (FLOT) ou a combinação de quimioterapia e radioterapia (CROSS) antes da cirurgia, padrão atual de tratamento.

“Os 440 pacientes foram separados em dois grupos, aqueles que receberam o regime FLOT e os que receberam o regime CROSS. Os resultados mostraram que os que foram tratados com o FLOT apresentaram uma redução do risco de morte de 30% em cinco anos. Isso coloca a quimioterapia como prioritária a partir de agora”, aponta. Ele ressalta que, como se trata de um comparativo entre terapias que já estão disponíveis no SUS e na saúde suplementar brasileira, o impacto dessa descoberta deve ser de âmbito nacional.

Resultados para câncer de pulmão na ASCO

O time de especialistas do Einstein também destacou resultados referentes ao câncer de pulmão, o quinto mais comum no Brasil. É um tipo de tumor cujo tratamento evoluiu significativamente nas últimas décadas graças ao avanço da medicina genômica e dos estudos e das novas descobertas de mutações e, consequentemente, subtipos da doença. Esse entendimento mais aprofundado possibilita o desenvolvimento de terapias-alvo que apresentam maior eficácia, segurança e preservação da qualidade de vida do paciente. “Hoje em dia, o câncer de pulmão em subclassificações. Não existe mais você fazer a biópsia, ver que é câncer de pulmão e já começar a tratar. Você faz os testes e, com base nos resultados genéticos, você decide a melhor estratégia de tratamento”, explica Diogo Bugano.

Nesse sentido, há um subgrupo da doença que atinge até 20% dos diagnosticados e que apresenta uma mutação chamada de EGFR. Os pacientes em estágio inicial ou metastático que possuem essa mutação recebem, como parte do tratamento, uma terapia-alvo específica para atuar nesse gene – uma intervenção com eficácia comprovada e aprovada no Brasil. Mas ainda sobrava um pequeno grupo, o dos pacientes em estágio 3, que não podia se beneficiar desse tratamento em razão da ausência de dados sobre a eficácia da droga oral nesse estágio da doença. Por esse motivo, esses pacientes recebiam quimioterapia ou radioterapia seguida de cirurgia ou imunoterapia.

Um grupo de pesquisadores decidiu, então, avaliar a possibilidade de tratar esse grupo também com o medicamento. O estudo selecionou pacientes e dividiu o grupo em dois: aqueles que haviam recebido radioterapia e em seguida o comprimido; e aqueles que receberam radioterapia e ficaram em observação apenas. Após dois anos, 65% dos que receberam a medicação oral estavam com a doença controlada, contra apenas 13% daqueles em observação.

O resultado deve mudar paradigmas, aposta Bugano. “Isso mudou claramente o desfecho desses pacientes e faz sentido, porque já usávamos em todos os outros estágios. Isso não é aprovado no Brasil ainda, mas em cima de números desse tipo, muito provavelmente em breve poderemos ter uma troca na bula para poder usar esse comprimido também no estágio 3.”

Acesso ainda é desafio

Em meio a inúmeras novidades apresentadas em Chicago, um velho problema voltou ao centro do debate. Diante da descoberta de drogas cada vez mais disruptivas, com potencial de mudar o curso das doenças, que preservam a qualidade de vida e aumentam a sobrevida global dos pacientes, é preciso discutir e traçar estratégias para garantir que os avanços da medicina sejam acessíveis a todos os pacientes que precisam de tratamento.

“Para chegar na população que utiliza o sistema de saúde privado [no Brasil], já há um atraso por questões regulatórias. No Sistema Único de Saúde, esse atraso é ainda maior. Porque tem a questão de financiamento e custos, porque muitas vezes essas drogas chegam com valores quase impeditivos de se colocar para uma população maior”, explica Montes. A médica do Hospital Vila Santa Catarina afirma que ainda há muito a ser trabalhado em termos de redução de iniquidades e sugere o investimento na em pesquisas e na ciência nacional como aliado nesse desafio.

Outro caminho que pode ajudar nesse objetivo, segundo ela, é a Política Nacional de Prevenção e Combate ao Câncer, que tem o objetivo de ser um instrumento de promoção de acesso ao cuidado integral do paciente oncológico, principalmente dentro do SUS. “O olhar para a promoção de acesso não deve ser somente para as novas tecnologias, mas também para garantir que o que temos disponível atualmente esteja acessível para a população brasileira como um todo, o que ainda não acontece”, pondera Pestana.

Expectativas para o futuro

Para os próximos anos, Montes lembra que a inteligência artificial, vista por muitos como um novo marco da humanidade em termos de tecnologia, já vem sendo explorada na medicina. “Esse uso já é uma realidade, só precisamos escalar para que isso esteja no maior número de serviços possível”, defende. A oncologista destaca a aplicabilidade em programas de diagnóstico precoce, modelos preditores de resposta e tratamento quimioterápico guiado por análises moleculares.

O uso da IA generativa – semelhantes ao ChatGPT – para uma melhor comunicação entre médico e paciente também vem sendo explorado – e com resultados promissores. “Tivemos um estudo apresentado bastante interessante, de um centro oncológico localizado no Bronx, Nova Iorque, que é uma região que conta com uma população muito vulnerável, e muitos são hispânicos, o que coloca a língua como uma barreira e dificultava a adesão ao tratamento”, conta. “Ao desenvolver uma plataforma de ligação que possibilita ao paciente escolher em que língua ele desejava ser atendido, a aderência aumentou em 36% em relação aos métodos convencionais”, afirma a médica.

Já Pestana ressalta que, além de novas classes de medicamentos ou novos alvos moleculares, há uma tendência de colocar o foco também na escala dos tratamentos. “Em termos de futuro, há um olhar para descalonar tratamentos. Isso inclui usar menos remédio, menos ciclos de remédios como vimos no estudo para o melanoma. É importante olhar para isso.”

Sobre novas possibilidades terapêuticas, uma classe muito promissora é a dos anticorpos conjugados à droga que, ao entrarem no organismo, servem como uma espécie de guia que leva a substância ativa até as células tumorais. Segundo Bugano, a expectativa é de que esse tipo de medicamento seja desenvolvido para novos alvos nos próximos anos. “É uma administração de quimioterapia que, mesmo sendo intravenosa, ‘gruda’ apenas na célula que tem aquele alvo tumoral. Nós já temos alguns desses em uso no dia a dia, e estão sendo testadas uma série de novos anticorpos contra novos alvos, em diferentes tipos de tumores.”

Para Usón, os inibidores de KRAS – proteína relacionada a proliferação celular descontrolada, sobrevivência e invasão de outros tecidos – devem ser a grande aposta da próxima edição da ASCO. O médico explica que há inúmeros componentes envolvidos no crescimento de um tumor e, quanto mais efetiva for a combinação dessas vias, maior a chance de curar a doença. “Pode ser que, no futuro, tenhamos uma ‘pílula mágica’, que combina cinco, seis medicações em um único comprimido, como já acontece no tratamento do HIV e outras doenças, por exemplo”, finaliza.

Isabelle Manzini

Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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  • Isabelle Manzini

    Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

  • Fernando Maluf

    Diretor Associado do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein e fundador do Instituto Vencer o Câncer. É formado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde hoje é Livre Docente. Possui Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialização no Programa de Treinamento da Medical Oncology/Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em New York.

  • Natalia Cuminale

    Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, com as reportagens, na newsletter, com uma curadoria semanal, e nas nossas redes sociais, com conteúdos no YouTube.

Isabelle Manzini

Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.