Não estamos no mesmo barco

A pandemia deve alargar a desigualdade no Brasil. Dados preliminares do nosso estudo mostram que as taxas de depressão e ansiedade são duas vezes maiores nas crianças e adolescentes com menor renda em relação àquelas com maior renda

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Com o início da pandemia pelo novo coronavírus, nossa equipe de pesquisadores interrompeu todos os projetos em andamento e voltou sua atenção para entender as repercussões sobre a saúde mental de crianças e adolescentes através do estudo Jovens na Pandemia (www.jovensnapandemia.com.br). Hoje, mais de 5500 famílias de todos os estados e classes sociais do país participam do estudo, que continuará ao longo do próximo ano. Espero compartilhar nesse espaço os resultados finais em breve, mas alguns dados saltam aos olhos, já em análises preliminares, e apontam para uma triste realidade já esperada: a pandemia deve alargar a desigualdade em nosso país.

Já é bem documentado na literatura científica que as situações de estresse afetam diferentes pessoas de formas variadas. Fatores sociais e culturais, apoio social e familiar, características de temperamento, até mesmo fatores genéticos, influenciam como diferentes pessoas reagem a uma mesma situação traumática. Muitas vezes algumas características de comportamento aumentam a chance de que uma pessoa sofra situações traumáticas, perpetuando um ciclo de dificuldades emocionais, situações traumáticas, mais dificuldades emocionais e mais situações traumáticas. Outras vezes, a exposição ao trauma nada tem a ver com características prévias do indivíduo, como na exposição a eventos naturais, como terremotos e furacões e, nesse momento, à pandemia. Todos nós estamos sendo expostos à pandemia, à “tempestade” que ela representa, gerando o medo e a ameaça à própria vida e de pessoas queridas, o distanciamento social, perdas econômicas. Entretanto, não estamos todos no mesmo barco. Alguns de nós estão em iates confortáveis, seguros, que resistem a rajadas de vento e a ondas gigantes. Muitos de nós estão enfrentando a tempestade em barcos pequenos, frágeis, e o naufrágio – ou seja, a ansiedade e a depressão – se tornam quase inevitáveis.

Mas o que representa, para crianças e adolescentes, a segurança para enfrentar a pandemia? Os recursos econômicos fornecem parte da estrutura que permite navegar com segurança a tempestade da pandemia, protegendo crianças e adolescentes contra problemas emocionais. Décadas de estudo apontam para a pobreza como um dos fatores de risco mais fortes para os transtornos mentais. Ao contrário do que muitos pensam, ansiedade, depressão e outros transtornos mentais não são exclusividades de pessoas abastadas, que tem tempo de sobra para “superficialidades”. Muito pelo contrário: ocorrem com muito mais frequência naquelas pessoas com dificuldades econômicas. Como isso ocorre? Através da violência, da insegurança alimentar, da falta de acesso a serviços, educação e a atividades e experiências que desenvolvem a criatividade, a capacidade de reflexão das crianças. Durante a pandemia, os dados preliminares do nosso estudo mostram que as taxas de depressão e ansiedade são duas vezes maiores nas crianças e adolescentes com menor renda em relação àquelas com maior renda. Transtornos mentais atrapalham ou muitas vezes impedem que estudem, que se relacionem, aumenta a chance de uso de substâncias, entre outros eventos de vida negativos, o que diminui a chance de que saiam da pobreza.

Outro componente importante da estrutura que garante que crianças e adolescentes naveguem com segurança a tempestade da pandemia é a saúde emocional dos seus pais, que está intimamente relacionada com a segurança econômica. As crianças e adolescentes precisam de pais que transmitam segurança, mesmo quando eles próprios estão incertos sobre o futuro. Se as crianças são pequenas, a segurança é transmitida na forma de proteção total, até mesmo física, e também na certeza de que tudo ficará bem. Se as crianças são maiores, a segurança vem com a certeza de que, se houver uma queda, os pais estarão lá para ajudá-lo a levantar. Nessa idade, a criança sabe que seus pais também sofrem com as dificuldades, mas entende que unidos, mesmo em meio à dor haverá crescimento. As crianças também precisam que seus pais percebam as suas necessidades individuais a cada momento. Precisam que seu sofrimento seja validado. Os pais, nessas situações de sofrimento, devem tomar para si a responsabilidade de amparar o filho, e estar lá por eles, faça chuva ou faça sol, transmitindo a segurança de que juntos, são mais fortes. Entretanto, pais ansiosos, deprimidos, em uso de substâncias, terão muita dificuldade para perceber as complexas necessidades emocionais de seus filhos nesse momento e atende-las. De novo, o ciclo da pobreza se perpetua.

Famílias com segurança econômica, com pais emocionalmente saudáveis, estão vivenciando a pandemia de forma muito diferente daquelas vulneráveis. Os dados preliminares da nossa pesquisa mostram que a grande maioria dessas famílias está inclusive colhendo mudanças positivas na rotina trazidas pela pandemia. Entre os mais ricos, cerca de 70% indicam que a pandemia trouxe mudanças positivas. Esse número cai para 40% entre os mais pobres. O maior tempo de convivência com os filhos é a mudança mais frequentemente apontada. De fato, esse período de pandemia tem trazido a possibilidade de um convívio familiar muito próximo: famílias compartilhando todos os momentos do dia, todas as refeições, estudando, trabalhando, divertindo-se juntos. Para aqueles com segurança econômica e alimentar, com lares confortáveis, essa é uma possibilidade ímpar de aproximar o olhar sobre os filhos e estar com eles. O estresse compartilhado por todos, se bem gerido, pode estreitar o vínculo entre pais e filhos, fortalecer a comunicação, gerar mais intimidade. Nessas situações, a função parental se consolida e as influências positivas sobre o desenvolvimento da criança se solidificam. São as crianças inseridas em famílias com maior segurança econômica, com pais mais saudáveis do ponto de vista emocional, com maiores chance de continuarem se desenvolvendo de forma positiva ao longo da vida.

Nesse momento de estresse coletivo, crianças e adolescentes precisam de pais saudáveis, fortes, capazes de gerir o sofrimento e promover o crescimento. As famílias em barcos frágeis precisam de um Estado e de líderes fortes, que guiem a população, proporcionem segurança e união, e atenuem o impacto da pandemia sobre elas. Os transtornos mentais são uma das consequências da pandemia que funcionarão como perpetuadores das desigualdades sociais no nosso país. Quando acometem as crianças e adolescentes, os transtornos mentais perpetuam as desigualdades ao longo de gerações. Por isso, a saúde mental deve ser uma prioridade dos indivíduos e do Estado.

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