‘Não estamos a salvo até que todos estejam vacinados também’

Um artigo publicado na revista MIT Technology Review chama a atenção para um tema pouco debatido: porque a falência na vacinação no mundo, especialmente em países em desenvolvimento, coloca todos em risco.

               
262

Israel tem sido citado em todo o noticiário como o lugar em que a campanha de vacinação contra a Covid-19 tem sido mais bem-sucedida. Lá, 40%  da população de 9 milhões de pessoas já tiveram acesso à primeira dose. Entre os países que mais aplicaram doses, em números absolutos, os Estados Unidos lideram, com 52,4 milhões, o Brasil fica em sétimo lugar, com 5,2 milhões de doses. Nos EUA, americanos com menos de 65 anos e saudáveis podem ser vacinados a partir de abril. Enquanto isso, aqui no Brasil, o Rio de Janeiro vai ter que suspender a vacinação por falta de doses suficientes. Em São Paulo, o plano de vacinação contempla apenas aqueles com mais de 85 anos. É impossível, por enquanto, dizer quando os adultos jovens entrariam na fila.

Vimos desde o ano passado que nações mais organizadas e mais ricas saem na frente na vacinação. Nesse cenário, países como o Brasil sofrem devido à má administração da crise de saúde pública combinada a uma infraestrutura mais prejudicada. Há uma expectativa de que a vacina chegue em determinado momento às clínicas particulares. Mas isso vai resolver o problema? Se eu tiver vacinada, todos os problemas acabaram e a vida voltará ao normal? Não é bem assim. Um artigo publicado na revista MIT Technology Review chama a atenção para um tema pouco debatido: porque a falência na vacinação no mundo, especialmente em países em desenvolvimento, coloca todos em risco.

Vamos supor que os países mais ricos consigam vacinar seus cidadãos em um ano e os outros não. O que pode acontecer? As mutações de vírus e a instabilidade econômica afetarão os países não vacinados por anos – e acabarão custando a todos. As estimativas da Economist Intelligence Unit, citadas pela revista, sugerem que cerca de 85 países no mundo em desenvolvimento podem não estar totalmente vacinados até 2023, no mínimo.

A reportagem explica que o motivo para levar a vacina aos países mais pobres mais rapidamente não é apenas o altruísmo: a evolução do vírus punirá qualquer atraso. O SARS-CoV-2 já sofreu mutação e temos várias novas variantes preocupantes em circulação. Esse processo continuará. Se os países com grandes populações esperarem anos para serem vacinados, o vírus continuará sofrendo mutações – potencialmente a ponto de as primeiras vacinas disponíveis perderem a eficácia. Isso será ruim para todos, mas os países mais pobres, com menos acesso a vacinas atualizadas, novamente sentirão mais o impacto.

Outro ponto é a volta à normalidade e a reabertura da economia, uma instabilidade que tem afetado empregos. É fato que quando a maioria da população dos países ricos for vacinada, restaurantes e academias podem voltar à vida normal. Mas o artigo do MIT lembra que há muitos setores da economia que compram em mercados emergentes – por exemplo, varejo, automotivo, têxteis e construção. Todos serão prejudicados por uma desaceleração nesses mercados. Além disso, esses países costumam ser clientes. “Se os EUA melhorarem e a Europa melhorarem e eles quiserem vender produtos, se os países para os quais querem vender ainda estão doentes, eles não vão comprar esses produtos”, disse Kalemli-Özcan. “Nenhuma economia é uma ilha, e nenhuma economia se recupera até que todas as economias se recuperem”, afirmou à revista.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui