Medicina combinada a nanotecnologia: potencial e dificuldades do mercado brasileiro

Elementos como custo, burocracia, pouca compreensão científica e o receio de investir nestes produtos são entraves para a evolução da nanomedicina no país

184
Elementos como custo, burocracia, pouca compreensão científica e o receio de investir nestes produtos são entraves para a evolução da nanomedicina no país

Pouco a pouco, as inovações da saúde passam a ser mais compreendidas por quem atua nesse universo. Mas, entre as evoluções cada vez mais presentes no cotidiano do setor, uma área muito específica e também muito promissora ainda é pouco conhecida: a nanomedicina. Os avanços da saúde têm se apoiado no elemento nano para desenvolver soluções mais precisas. Segundo a Pitchbook, em 2022 os investimentos em tecnologia na saúde devem alcançar os 10 trilhões de dólares.

No que se refere à nanomedicina, estima-se que o setor cresceu cerca de 250% entre 2015 e 2020. De acordo com a World Nano Foundation sugere que até 2027, o mercado nano terá movimentando cerca de 8 bilhões de dólares.

No Brasil, no entanto, a nanotecnologia é vista com mais frequência nas universidades. No setor privado, a cidade de Campinas, em São Paulo, tem sido apontada como um hub de startups dessa tecnologia. Mesmo assim, a nanomedicina ainda é pouco compreendida no mercado brasileiro como um todo e, consequentemente, recebe poucos investimentos.

O que é nanomedicina?

De forma simplificada, “a nanotecnologia é tudo aquilo que você pode trabalhar em escala nanométrica”, explica Herculano da Silva Martinho, especialista em biomoléculas e diagnóstico óptico do Centro de Ciências Naturais e Humanas na Universidade Federal do ABC (CCNH-UFABC).

Na medicina, a escolha de trabalhar com uma escala de tamanho capaz de atingir células específicas — de 01 a 100 nanômetros —, de forma que não atinja tecidos saudáveis, destaca-se por sua tendência de ir direto ao alvo, aumentando a precisão do tratamento e diminuindo efeitos colaterais.

“Trata-se de uma forma de erradicar doenças. A medicina do futuro está apoiada na tecnologia”, diz Marco Vinícius Chaud, professor titular do Curso de Farmácia na Universidade de Sorocaba e integrante da Sociedade Brasileira de Nanomedicina.

Ou seja, dentro da nanotecnologia é possível construir dispositivos, produzir fármacos e atuar de maneira seletiva, indo direto onde o organismo precisa. Por isso, entre os especialistas, a nanomedicina é tratada como uma ferramenta, “que irá ‘apertar o parafuso’ exatamente onde é necessário”, diz Martinho.

Aplicação da nanotecnologia na saúde

Na saúde, o nano tem otimizado os diagnósticos, a produção de vacinas, a detecção de marcadores biológicos e formas de tratamento capazes de alterar o percurso de uma doença.

A nanomedicina pode ser uma alternativa principalmente para tratar doenças como diabetes, as cardiovasculares, neurológicas e até mesmo o câncer. Mas, para realizar essas tarefas, a nanotecnologia irá trabalhar com diferentes mecanismos, como a biofotônica, o transporte de fármacos através da pele e dos campos elétricos. Com as nanopartículas é possível construir diversos tipos de solução.

No tratamento contra tumores, por exemplo, a biofotônica permite que os feixes de luz a laser atuem diretamente na região onde estão as células cancerígenas. Assim, as células saudáveis ao redor não são atingidas, reduzindo efeitos colaterais como queda de cabelo e feridas na mucosa da boca, por exemplo.

Embora os tratamentos para tumores tenha evoluído muito nas últimas décadas, há ainda um enorme espaço para cobrir quando se trata da medicina personalizada. Nesse contexto, a nanomedicina poderá ser utilizada para desenvolver soluções para pessoas que não respondem aos tratamentos convencionais.

As barreiras da nanotecnologia brasileira

Com tantas possibilidades, por que a nanomedicina não é tão conhecida e estimulada no mercado brasileiro? A resposta para essa questão envolve elementos como: custo, burocracia, pouca compreensão científica e o receio de investir nestes produtos.

Custos

No que se refere ao custo, os valores envolta da nanotecnologia costumam ser 10 vezes maiores do que o esperado para a criação de um laboratório comum, segundo o professor da UFABC. Para manter o padrão de qualidade de escalas tão pequenas quanto as que exigidas na nanomedicina, é necessário uma grande verba. Entre os exemplos, Martinho cita os microscópios de alta precisão, que podem chegar aos 350 mil euros, enquanto tecnologias regulares normalmente exigiriam um investimento de 5 mil.

Ainda nessa questão, há o fator de higiene. Os laboratórios de nanotecnologia exigem um alto grau de limpeza, pois mesmo um grão de poeira poderia prejudicar a pesquisa, dado que esta teria uma molécula maior do que as de alvo do estudo. Com a necessidade de manutenção anual e a troca de equipamentos a cada cinco anos, o financeiro pode ser uma barreira até mesmo para a indústrias.

“O ideal seria criar um hub de empresas em um centro de caracterização ou as universidades poderiam atuar abrindo suas estruturas para as empresas desenvolverem fármacos”, aponta Martinho.

O sistema jurídico, a compreensão científica e o mercado

O Brasil conta também com grandes empecilhos nas relações jurídicas. Um dos problemas começa com a dificuldade de patentear estudos e demais inovações. Neste tópico, os especialistas alegam que pode levar cerca de 10 anos para receber algum retorno quanto à solicitação da patente.

Quando enfim recebem retorno da solicitação, os pesquisadores encontram um conflito de comunicação, pois com a falta de conhecimento científico das autoridades jurídicas acabam por não compreender a ideia do produto e novas barreiras são criadas para sua aprovação.

Assim, diversos questionamentos legais impedem ou tornam ainda mais demorado o processo da patente. Durante todo esse período, as ideias costumam ficar estagnadas ou acabam por circular no mercado estrangeiro — que, apesar de ainda passar por dificuldades, encontra-se em um cenário com mais investimentos do que o brasileiro.

Para o professor da UFABC, não há como avançar o mercado nano sem antes estimular o conhecimento básico científico nas escolas e universidades.

O entendimento das ciências é também uma das razões pelas quais o mercado demonstra receio de investir em produtos de nanotecnologia. Segundo Chaud, um dos caminhos para solucionar a falta de recursos no Brasil seria obter mais apoio da indústria farmacêutica. Entretanto, são raras as vezes em que o setor privado aceita investir em algo que ainda não está pronto. “Ao ter uma ideia baseada em nanopartículas, há a possibilidade dela dar certo ou não, mas para funcionar é necessário apoio”, conclui o médico.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui