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Monkeypox: emergência global visa buscar atenção e investimento, mas impacto no sistema de saúde deve ser menor que outras doenças

Com escassez de vacinas no mundo, Ministério da Saúde deve redobrar esforços em informação de prevenção e diagnóstico da monkeypox.

               
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Com menor gravidadade e mortalidade, monkeypox não deve trazer grandes preocupações ao SUS e à saúde suplementar.

O desconhecimento acerca da monkeypox (varíola dos macacos), a alta de casos e a incerteza sobre as vias de transmissão levaram a Organização Mundial da Saúde a decretar a doença como uma emergência global de saúde. A mudança faz com que países redobrem a atenção, investimento e os esforços conjuntos para o controle do surto.

Foram registrados 18 mil casos e 5 mortes em mais de 75 países. No Brasil, 813 pessoas foram infectadas, sendo 595 dos casos em São Paulo. Apesar de gerar grande repercussão e ansiedade à população, é preciso salientar que, até o momento, a doença tem risco de gravidade e fatalidade muito menor que outras que tiveram a mesma classificação, como Covid-19, gripe H1N1, zika e ebola. 

“Pela primeira vez foi decretado sem que houvesse um consenso na OMS. Não é uma doença que tem grande impacto em saúde pública até onde se sabe. Casos graves podem ocorrer, mas são muito pontuais. Decretar emergência acaba facilitando a busca por um conhecimento maior da doença e investimento para vacinas e antivirais”, explica a infectologista Raquel Stucchi, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

De acordo com Stucchi, devemos ter um aumento dos casos nas próximas semanas, mas está dentro do esperado pelos médicos. Por hora, os desafios no Brasil estão relacionados à busca de vacinas para imunizar grupos prioritários e a orientação da população e de profissionais de saúde, sobre prevenção e diagnóstico. O sistema de saúde não deve ter grande impacto quanto teve com a Covid-19, atuando na atenção primária, atendendo pacientes e indicando tratamentos para o controle dos sintomas.

“É uma doença de letalidade muito mais baixa, são raríssimos os casos que se agravam. E a transmissão, apesar de ser um período de incubação muito longo – tem indivíduos que transmitem por semanas –, é diferente de um vírus de transmissão respiratória. É difícil manter o isolamento, mas o contato é feito através das lesões, então é muito mais fácil [de controlar]”, explica Renato Kfouri, pediatra e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim).

Disponibilidade de testes 

“Estamos preparados para a manutenção desse aumento em termos de atendimento, ainda que alguns pacientes tenham queixa de dor muito importante e precisam ser internados para o manejo. O que não estamos preparados é caso leve a uma demanda maior de comprovação diagnóstica, em relação aos kits de testes e recursos humanos”, explica Raquel Stucchi.

Por ser uma doença infecciosa, é importante que o diagnóstico seja feito de forma rápida para evitar que o paciente transmita o vírus para outras pessoas. Por isso, é preciso que além de disseminar informações claras para a população, testes estejam disponíveis nos serviços públicos e privados.

Ainda em junho, o Hospital Albert Einstein desenvolveu o primeiro teste PCR do país. A coleta é semelhante ao teste para diagnosticar Covid, mas ao invés de amostras no nariz e mucosa do paciente, é utilizado material das feridas, características da monkeypox. Outras empresas também produziram seus próprios testes, como o Grupo Sabin, Seegene e a Roche, que já disponibilizam exames PCR. Eles levam em média 3 dias para se obter o resultado.

Mesmo antes da chegada dos testes PCR, o laboratório Fleury já realizava exames diagnósticos por sequenciamento genético do vírus, com material colhido através de raspagem das lesões. Com uma maior quantidade de fabricantes e laboratórios envolvidos na produção de diferentes testes, o risco de escassez é menor. A questão maior fica na distribuição desses testes pelo país e, principalmente, no serviço público.

Em evento na última segunda-feira (25) o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que o Brasil já possui 4 laboratórios públicos com capacidade para diagnosticar e atender o país. São eles: Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, Fundação Ezequiel Dias, em Minas Gerais, Fundação Oswaldo Cruz e o laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

De acordo com a consultora da SBI, a expectativa agora é que testes rápidos sejam desenvolvidos, para acelerar ainda mais o processo de diagnóstico. No entanto, ela ressalta que é preciso haver um investimento e interesse do Ministério da Saúde, assim como trabalhar a comunicação com a população e os profissionais de saúde.

A falta de vacina

Assim como para outras doenças infecciosas, a vacina é a melhor forma de prevenção e importante ferramenta para reduzir a transmissão. Com a varíola humana erradicada no Brasil ainda nos anos 80, o país não conta com estoque de vacinas para a doença, nem existe previsão no calendário do Programa Nacional de Imunizações (PNI). A solução, neste momento, seria fazer como todos os outros países envolvidos afetados pelo surto estão fazendo: comprar.

Além da alta demanda global, o grande problema é que existem apenas duas empresas que produzem a vacina, a Sanofi e a Bavarian Nordic, e que produziam até então em escala muito menor do que o mercado internacional tem solicitado. O Ministério da Saúde iniciou conversas com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para garantir a compra, mas sem previsão de quando efetivamente irão chegar.

“A aplicação estava restrita para quem trabalha em laboratórios e quem viaja para regiões da África que têm a doença. Não há produção mundial, ninguém vai conseguir comprar neste primeiro momento”, explica Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim).

Uma possível solução para o impasse parecia ter sido encontrada. No final de junho, o Instituto Butantan criou um comitê técnico para avaliar a produção de uma vacina nacional. Em nota, o centro de pesquisa afirma que “o Comitê tem como objetivo principal apresentar estudos e propostas a respeito do assunto, além de acompanhar a situação de emergência de saúde global para estruturar estratégias que possam auxiliar no controle da disseminação da doença”.

Contudo, Kfouri é cético em relação à produção em curto prazo. Segundo o médico, não há previsão de outros laboratórios no mundo produzirem uma vacina além daqueles que já comercializam. “Lógico que, à medida que a OMS for liberando lotes do vírus da varíola e outros laboratórios forem credenciados, você pode sim [desenvolver uma vacina]. Mas de imediato não, e as poucas doses que temos estão sendo disputadas pelos países mais ricos”, explica o médico.

A Organização Mundial da Saúde desaconselha a vacinação em massa como forma de controlar a disseminação da monkeypox. De acordo com os especialistas, a recomendação seria para profissionais da saúde e pessoas que tiveram contato com pessoas infectadas serem prioridade, assim como homens que fazem sexo com homens, por estarem entre o grupo mais infectado até o momento.

O medo do estigma

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), as vias de transmissão são por contato direto com feridas, secreções respiratórias por longo período (beijos, por exemplo), itens e roupas contaminadas e transmissão vertical (de mãe para filho durante a gravidez).

O alto índice de infecções em homens que fazem sexo com homens fez soar um alerta para os cuidados desse grupo em relação à prevenção, assim como a atenção das sociedades médicas para não estigmatizar o público. Ainda não se sabe ao certo se a doença pode ser transmitida pelo sêmen, mas o contato íntimo durante o sexo pode estar associado às altas taxas.

“Nós sabemos hoje que 90% dos casos confirmados são em homens que fazem sexo com homens. O medo de estigmatizar tem trazido um silêncio injustificável. A gente tem que lidar com isso. A transmissão vai acontecer até por uma falta de esclarecimento das pessoas”, aponta a infectologista Raquel Stucchi, consultora da SBI.

Com a escassez de vacinas, a médica explica que a recomendação de prevenção é evitar contatos com lesões na pele e compartilhamento de utensílios, e caso suspeite de alguma ferida sem explicação, a população deve procurar um infectologista. Da mesma forma, homens que fazem sexo com homens devem reduzir, neste momento, o número de parceiros e atividade sexual.

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