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Monkeypox é menos letal que Covid-19, mas carrega estigma maior

Já são mais de 18 mil casos no mundo de monkeypox, uma doença que traz estigma maior pelo grupo de pessoas que atinge e pelas lesões visíveis

               
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Monkeypox

Nem saímos da pandemia de Covid-19, que convivemos duramente nos últimos anos, e agora nos deparamos com a monkeypox, uma nova doença de caráter mundial, com distribuição de casos em mais de 70 países em todos os continentes. Um parêntese: temos chamado de monkeypox ou varíola símia porque nenhum de nós, infectologistas, gosta da expressão varíola de macaco para não criar nenhum estigma com o animal. O macaco é tão vítima quanto nós e vimos esse mesmo fenômeno no período da febre amarela.

Essa doença é uma zoonose, ou seja, cuja transmissão ocorre entre animais e humanos. Os principais hospedeiros desse vírus são os roedores, originalmente em algumas regiões da África, mas como sabemos e observamos, já se alastrou para a Europa, Estados Unidos e agora aqui na América Latina, especialmente em Brasil e no Estado de São Paulo.

Desde o início os casos foram relacionados com um grupo específico de pessoas formado por homens que fazem sexo com homens. Apesar de não ser chamada de uma infecção sexualmente transmissível, ela está intimamente relacionada à atividade sexual, principalmente por ter ali um contato pele a pele mais prolongado e mais intenso.

A característica neste momento continua a mesma, porém sabemos que é questão de pouco tempo – e as primeiras descrições já começam a aparecer – até que outras populações sejam afetadas e que podem apresentar riscos maiores e casos mais graves. Como exemplos estão crianças, gestantes e pacientes imunossuprimidos.

Monkeypox se apresenta de formas diferentes

É totalmente diferente do que vivemos com a Covid-19, uma doença muito mais letal. De uma maneira geral a monkeypox é uma doença benigna, mas mais do que a gravidade, o que estamos vendo na prática dos casos clínicos é o estigma. A dor de mostrar na pele que você foi infectado.

Do ponto de vista clínico, precisamos chamar muita atenção de todos os profissionais da saúde e de todas as pessoas de uma maneira geral, porque a doença que estamos vivendo aqui no Brasil e nos outros países é diferente do que estávamos vendo em fotos do Google que vinham lá da África.

De forma clínica, pode se apresentar desde quase sem sintomas até formas mais exuberantes. As lesões da pele, que é o que mais chama atenção tanto do paciente quanto dos profissionais de saúde, podem estar em vários locais do corpo. A maioria dos casos que temos visto começa com lesões no genital, região perianal, mas também tem lesões nas faces, mãos, pés.

E as lesões têm fases diferentes. Algumas se manifestam apenas como uma pápula, uma bolinha avermelhada. Outras como pústula – a forma que mais tenho visto – com um conteúdo amarelado, como se fosse pus dentro da lesão. Há casos de bolhas também, que se confundem até com herpes e sífilis.

Por causa dessa confusão, quando vemos os números de casos – já são mais de 800 no Brasil e 18 mil no mundo todo –, acho que é a ponta do iceberg, porque muitos casos devem passar desapercebidos. Para agravar esse cenário, há pacientes que praticamente não têm lesão na pele, mas apresentam dor na região do ânus. E não necessariamente está exposta, ela pode estar na mucosa anal. Isso dificulta o diagnóstico.

É uma doença que tem período de incubação que varia de 5 a 21 dias e, durante toda a fase de lesão da pele, é transmissível pelo contato pele a pele, no contato mais próximo através de gotículas respiratórias ou até mesmo, por exemplo, se uma pessoa se deitar em um lençol e depois outra pessoa se deitar no mesmo local – fato importante para ambiente hospitalar. Nós, profissionais de saúde, temos que sempre usar máscara de boa qualidade para examinar esses pacientes, usar luvas, avental, ou seja, evitar o contato direto.

Ainda não tem tratamento específico

Até o momento não temos nenhum tratamento específico. No passado, a varíola, doença que causou tantas mortes e sofrimento na humanidade, tinha vacina – até 1973 todo mundo era vacinado contra a varíola. Mas agora estamos falando de um vírus novo, que nenhum de nós tem proteção. Estima-se, contudo, que essas pessoas que tomaram essa vacina no passado tenham uma proteção em torno de 85% para monkeypox.

Vacinas existem, mas já estamos atrasados na solicitação. O Brasil ainda não está vendo isso como uma emergência, apesar da OMS já ter declarado emergência de interesse mundial. E os países ricos, como vimos na Covid-19, já se anteciparam, compraram e pediram as vacinas. Para variar, essa diferença entre os países desenvolvidos para os demais vai ficar mais uma vez evidente.

A vantagem do Brasil é poder contar com o Instituto Butantan. Já existe uma tratativa para que, se necessário, a instituição comece a produzir vacina, visto que no passado já fazia a vacina de varíola e, portanto, tem essa tecnologia para desenvolver os novos imunizantes.

O fato é que estamos diante de uma doença que será um novo desafio para todos nós, no sentido de nos prepararmos para enfrentar e pelo estigma, uma vez que, nesse momento, pode afetar mais a população de homens que fazem sexo com homens. O que, insisto, é uma questão de tempo para sair desse grupo e se disseminar de uma maneira geral.

O que temos que fazer é buscar informação, fazer diagnóstico precoce e, quando houver o diagnóstico, isolar esse paciente o mais rápido possível. Quanto mais pacientes estiveram isolados, menor será a circulação desse vírus no nosso meio. São novos desafios em um país com muita dificuldade, principalmente em saúde pública, mas contamos sempre com a percepção da população no sentido de entender o risco e, principalmente, com os profissionais de saúde e a imprensa fazendo seu papel de esclarecimento.

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