Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento: “Discussões pela sustentabilidade do setor ainda são muito simplificadas”

Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento: “Discussões pela sustentabilidade do setor ainda são muito simplificadas”

No mais recente episódio de Futuro Talks, Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, aborda as alternativas para o setor alcançar a sustentabilidade

By Published On: 17/07/2023
Mohamed Parrini - Futuro Talks

Os desafios atuais do setor da saúde têm feito com que os players busquem alternativas em diversas frentes, como novos modelos de remuneração, formação de ecossistemas, verticalização e inovação por meio de startups e tecnologias. Mas essas discussões sobre os novos rumos ainda ocorrem de forma simplificada, muito focadas em resultados e não de maneira estrutural, em que se olharia o todo, inclusive no contexto de modelos de negócio e formas de contrato. Essa é a visão de Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, entrevistado no mais recente episódio do Futuro Talks.

Para Parrini, as instituições que compõem os segmentos da saúde dependem umas das outras para que o sistema seja sustentável e, se cada um apenas apontar dedos e olhar para seus próprios interesses, o debate não será construtivo. Por isso, as discussões precisam cada vez mais caminhar para a questão da custo-efetividade, passando a medir de forma mais atenta a qualidade – inclusive dando mais transparência a indicadores – ao invés de mirar apenas volume e resultados. Segundo ele, os hospitais evoluíram muito ao longo do tempo, mas o conceito de atendimento é o mesmo de séculos atrás, daí a importância de se olhar outras formas de atuar e fomentar a inovação para preparar o setor para uma transformação inevitável que deve ocorrer ao longo dos próximos 10 ou 15 anos – o executivo prevê até mesmo que instituições como o Moinhos não se limitarão aos atendimentos dentro de suas estruturas físicas, mas conseguirão se expandir de outras formas.

Ao longo de sua carreira, Parrini já atuou na área de consultoria e nos setores hoteleiro e de óleo e gás, até ingressar na saúde em 2007 como CFO do Moinhos – em 2016 assumiu a posição de CEO. Pelo seu histórico, ele traz um olhar econômico para a instituição, mas reconhece que na saúde, ainda mais em um hospital filantrópico, o foco no paciente é o que dita as movimentações. Durante a conversa, ele ainda contou que o hospital tem olhado de forma muita criteriosa às oportunidades de crescimento, mas que algumas ações já estão em andamento, como a conclusão de um novo prédio no completo localizado em Porto Alegre, com expansão da área de pesquisa e de leitos de UTI.

Confira a entrevista a seguir:

https://youtu.be/6Y6hKni1LHg

Aparentemente, em 2023 o cenário desafiador da saúde já é de conhecimento de todos. Como você vê 2024? Você vê a situação melhorando?

Mohamed Parrini – Eu costumo falar com meu time que eu nunca olho números. Por trás de todo o número, de todo o dado, existem pessoas, existe uma cultura, um modelo mental, existe medo, existem desejos. Então, o que a gente vive hoje – crise, oportunidade, euforia, bolhas – são fruto das expectativas, dos medos. A gente tem que sempre analisar o que está por trás, quais são os contratos – e eu não estou falando do contrato de papel, estou falando do contrato social. Qual é o contrato que a gente tem assinado? A minha perspectiva é que a gente precisa avaliar o que está acontecendo antes de apontar dedos. Então hoje, como a gente está em crise, há grupos setoriais – quando a gente fala em Brasil – tentando defender seus próprios interesses. E no privado a mesma coisa, uma categoria, apontando o dedo para outra. Quando talvez não tenha um culpado específico, mas a arrumação desses contratos e dessas expectativas não estejam muito claros. Outro tema que é importante: após a pandemia o mundo está diferente, e ele não está melhor. Falávamos que o mundo e as pessoas iam ser melhores. A única coisa que a gente acertou é que ele está diferente, ele mudou, mas não está melhor. As pessoas estão mais ansiosas, mais doentes. A questão do vírus continua entre nós. As pessoas estão buscando mais prevenção. Tudo isso faz mudar o paradigma vigente, até então, da relação custo-preço. Isso tem que ser discutido.

É interessante você trazer essa questão, porque existia uma grande expectativa de que agora as pessoas iriam dialogar mais – inclusive dentro da saúde. Mas isso não se traduziu, pelo que você está me trazendo, em ações práticas.

Mohamed Parrini – A gente continua com discursos vazios, muito básicos.

A tecnologia, pelo menos, acelerou.

Mohamed Parrini – A tecnologia é um elemento extremamente importante. Dependendo da velocidade que uma tecnologia entra, ela pode sim fazer uma disrupção da própria cultura. A gente está vendo aí o ChatGPT. Mas no geral, a tecnologia é matricial, acompanha a sociedade.

Mas voltando ao debate do sistema…

Mohamed Parrini – Hoje o que a gente vê é, de novo, uma discussão em cima de resultados. Uma discussão que busca resultados de curtíssimo prazo, com um excesso de simplificação de que a população não sabe usar a saúde, de que os profissionais médicos carregam a mão na caneta, os hospitais não são custo efetivos. Tudo isso é verdade. Só que não é a resposta exata. Eu acho que a gente tem que passar pelo tipo de contrato que a gente assinou. Quais são os incentivos que a gente tem que dar para o sistema poder melhorar? Eu acho que é uma discussão maior. E como toda democracia, nós estamos em um sistema como um sistema biológico – o Bertalanffy fala disso. Então, em um sistema complexo, tudo é muito lento. A gente está falando de reforma tributária já há 20 anos. Tudo é uma grande negociação. Mas é importante que a gente tenha consciência. A mudança tem que ser feita, os resultados têm que vir, porque nós precisamos que todos os elos do sistema estejam bem. Por exemplo, na pandemia, as operadoras de saúde estiveram muito bem, os resultados foram magníficos. A gente não via esse barulho todo acontecendo. E de repente, veio para o lado dela, e aí tem que fazer o barulho mesmo. Mas eu acho que a gente tem que olhar enquanto a gente está bem. Eu acho que esse ano a gente vai sair desse momento, porque está havendo repactuação de contratos, remodelagem dos próprios preços, reprecificação dos serviços, correções de excessos. A gente viu uma série de operadoras ajustando coisas que precisavam ser ajustadas e estão sendo feitas. Os hospitais cedendo. Eu, por exemplo, estou cedendo dentro do que eu posso para colaborar.

Então, acho que o ano que vem a gente entra numa fase melhor, mais equilibrada. Não estou falando que vamos jogar dinheiro para o alto, não. Mas a gente já está numa fase melhor, na minha perspectiva.

E aí é a melhor para dialogar.

Mohamed Parrini – Quando a gente chegar nesse momento, temos que sentar de novo para dialogar. Sem a crise. Porque se viveu na pandemia os hospitais em extrema crise, colapsados operacionalmente, burnout de funcionários. Mudou completamente o case mix de tipos de paciente. E a gente viu um silêncio retumbante do outro lado. Agora, o sistema precisa das seguradoras, das operadoras. São elas que dão acesso aos nossos serviços. No Brasil, o modelo é de saúde suplementar, no qual alguém toma o risco pela prestação de serviço. Então, as operadoras e seguradoras são essenciais nesse processo, a gente precisa protegê-las. Mas eu acho que a discussão original está errada. Efetivamente, deveria aumentar a taxa de prêmio pelo serviço prestado em alto nível. Na minha instituição, a gente é ranqueado entre as 100 melhores do mundo, top 3 no Brasil, top 3 na América Latina. Somos afiliados a Johns Hopkins. Temos liderança em pós-graduação. Faculdade desde 2018. Um dos 3 maiores centros de pesquisa clínica do país. Muita coisa eu posso falar. Será que o meu preço é mais do que 10% a mais do que a média da minha praça? Eu diria que não. Quando eu acerto muito eu sou premiado por acertar muito? Então, talvez a discussão do contrato seja uma discussão maior sobre custo-efetividade, premiando mais o resultado dos mais custo-efetivos.

Essa questão, por exemplo, de mudar a forma de contrato, de premiar quem entrega melhor, talvez passe por uma mudança, uma maturidade do setor da saúde, de publicizar esses dados de qualidade assistencial de alguma forma para poder ter esses resultados?

Mohamed Parrini – Eu acho que tem muitas coisas. Uma delas é essa. A gente pode, sim, divulgar números dentro de uma jornada de preparação para outros que não estão tão preparados. Eu represento um dos hospitais de excelência do país e para mim é mais fácil falar disso. E quem está com dificuldade, quem presta serviços para o SUS, às vezes tem deficiências até com alvará de incêndio, porque senão tem que fazer uma reforma de 20 milhões de reais. Então, é uma jornada que passa pela transparência dos dados, mas essa não é uma discussão brasileira. É mundial.

Não tem ninguém mais avançado do que o Brasil nesse sentido?

Mohamed Parrini – Tem, mas muito pouco. Os contratos agora de Medical Aid nos Estados Unidos falam já com gatilhos do próprio SUS. Tem gatilhos de remuneração, em alguns casos, melhores do que a saúde suplementar. Então assim, eu acho que isso tem que estar na pauta e fazer uma jornada devagarinho. Minha opinião é que a gente entra numa jornada de mudança acelerada nos próximos anos. Eu não acho que o mundo vai mudar em 10 nos, mas eu acho que ele vai mudar em 20 anos. Então, pelo que estou vendo, são muitas soluções. A indústria farmacêutica está trazendo muitas soluções que vão minimizar procedimentos. O meu hospital tem 97 anos. Imagina o hospital mais moderno no mundo que você quiser olhar. O conceito ainda é medieval. E medieval não é uma crítica. O que é um hospital? A história começa com o exército cuidando de seus soldados e as igrejas ou as entidades religiosas cuidando dos seus feridos, num processo de misericórdia. Então, eu acho que pouca coisa mudou. A questão da troca ou da transparência dos dados fala muito também com a cultura médica medieval de comando e controle e de muita autoridade, que eu acho que isso tem mudado. Hoje eu venho de um hospital mais interdisciplinar, multidisciplinar, atuando em conjunto e com as esferas muito claras: qual o papel do administrador, o papel do engenheiro, do enfermeiro, farmacêutico. A gente está num processo de mudança, mas entender o fenômeno eu acho muito importante para poder entender que vai haver mudanças. Não é porque a gente ficou 100 anos assim, que não vai haver mudanças no próximo ciclo. Uma coisa que é importante falar é que não passa só pelos dados. Como você cuida de uma pessoa se os contratos das operadoras das seguradoras são trocados a cada ano? Então, ultimamente eu não vejo as operadoras fazendo um planejamento de saúde, que deveria cuidar da sua saúde, não passados 12 meses te passar um reajuste. Esse plano não é feito e 12 meses depois é trocado por uma outra operadora.

Não há incentivo também para eu cuidar da tua saúde numa jornada de 5-10 anos, porque eu não fidelizo você e você fica esse ano na operadora A, no que vem na operadora B. Isso algo que tem que ser refletido.

Isso me leva para outra questão que você trouxe no começo da sua fala, que essa mudança demanda tempo. Você precisa investir para ver o resultado lá na frente. Ao mesmo tempo, aparentemente, o setor precisa de soluções um pouco mais rápidas. Como equilibrar essa equação?

Mohamed Parrini – Com os contratos no modelo que estão hoje, no qual as empresas podem trocar a cada 12 meses, com os contratos de remuneração variável, inclusive dos médicos e dos profissionais, que é por volume…eu vejo que tem um desafio grande pela frente. Mas só para defender também o Brasil um pouquinho. Hoje você consegue oferecer para a classe média brasileira uma saúde de altíssimo nível por um preço muito acessível. E como isso é feito? É feito porque, sim, existe uma eficiência de custo-efetividade muito interessante. O próprio financiamento do SUS é 4%, 3,5% do PIB. Muita coisa é feita com poucos recursos. Mas sem fugir da sua pergunta, no curto prazo, o que está sendo feito? Enfrentar os desvios. As seguradoras já estão com planejamento de mais médio prazo. Eu vejo mudanças, iniciativas de escritório de valor para medir. Eu acho que a gente tem que acelerar mais isso. Coibir excessos de prestadores que podem ser hospitais, podem ser médicos, podem ser clínicas. A gente viu agora uma discussão sobre reembolso de honorários médicos. Excessos estavam sendo cometidos em função da facilidade do pedido de reembolso por aplicativo. Nós somos da saúde, temos que buscar cuidar do paciente e ter autossustentabilidade. Precisamos estar aqui. Médicos precisam ser bem remunerados, mas cumprindo seus contratos, protocolos. Operadoras precisam estar saudáveis. Seguradoras junto ao INSS estarem bem fortes. A gente vê casos até hoje se arrastando aí por anos. INSS sem saber o que fazer. Populações inteiras de cidade e capitais em seguradoras sempre numa situação difícil. E hospitais precisam também ser parte desse processo de custo-efetividade, criando seus escritórios de valor como nós criamos no Moinhos, monitorando nossos dados, pedindo segunda opinião, trocando seus contratos de remuneração variável menos por volume, mais por qualidade e desfecho clínico. É isso que a gente vai fazer no curto prazo.

Em reportagem do Valor em abril do ano passado, você disse que uma das estratégias do Moinhos era crescer ocupando o espaço no sul do país. Como isso está funcionando?

Mohamed Parrini – O sistema de saúde no Brasil é dividido entre os hospitais públicos, os hospitais privados e os hospitais filantrópicos. Os hospitais filantrópicos hoje são responsáveis por 60%, quase 2/3, de toda a prestação de serviços do SUS. E os filantrópicos pertencem a associações e a instituições de imigrantes, comunidades religiosas, congregações. Essas entidades geralmente foram criadas para ajudar os mais pobres. Em algum momento, eles criaram pedaços para atender pelo privado. Como eles eram filantrópicos e sem fins lucrativos, eles começaram a ter que atender também o SUS. E esse é o caso do Hospital Moinhos de Vento. Nós somos uma instituição que vem da origem dos povos de língua alemã, que migraram para o sul do Brasil, que sofriam preconceitos. Muitos não seguiam a religião vigente. Sofriam um preconceito por sotaque, como todo imigrante sofre. E eles começaram a se unir. Essa é a história de todos os hospitais de imigrantes que você vê aqui, o Einstein, Sírio-Libanês, Hcor, Oswaldo Cruz. Geralmente se faz um colégio, um clube social e um hospital. Esse é o caso da comunidade. Elas se espalharam por Porto Alegre, São Leopoldo, Novo Hamburgo e região. A origem do Hospital Moinhos de Vento é essa. Esses pequenos comerciantes, fabriquetas se tornaram gigantes e o Moinhos cresceu junto, trazendo e incorporando esse know-how de gestão, de profissionalização. As schwester tocavam o hospital, os médicos tocavam a parte médica e os gestores a administração. Então, nós somos privados, autossustentáveis, não aceitamos emendas parlamentares, dinheiro público, para poder aprender a ganhar o nosso próprio dinheiro. E estamos no Proadi-SUS, no qual ao invés de fazer prestação direta do serviço de saúde para o SUS, no caso do Moinhos, quase 100 milhões de reais eu tenho que devolver em projetos por todo o Brasil. Então, a nossa pegada não é crescer. Porém, o mercado mudou e a gente vai ter que competir de alguma forma, porque se eu ficar pequeno demais eu não vou conseguir ter escala de competição. De alguma forma a gente quer proteger a nossa pracinha ali. E a ideia é ocupar os espaços. A gente tem crescido, estamos faturando quase um bilhão e meio. E quanto mais a gente cresce, mais Proadi-SUS a gente investe, mais contribuições. A gente gera desenvolvimento e conhecimento, apesar de esse não ser o principal objetivo. Então, sim, a gente vai continuar crescendo, vamos crescer nas regiões que a gente conhece. Mas o nosso posicionamento hoje é que nós somos um hospital ranqueado internacionalmente entre os 120 do mundo. Nós somos um hospital brasileiro a serviço da medicina e da saúde brasileira, localizado no Rio Grande do Sul.

Primeiro crescer nessa região que vocês já conhecem, como você bem trouxe. Agora pensar um pouco para outros estados está no radar?

Mohamed Parrini – A gente sempre olha para os estados. O mercado mudou, preço mudou. Tinha uma bolha de preços. Então a gente não conseguiu nem avançar em nenhuma negociação lá atrás, porque os preços estavam exorbitantes, as pessoas abriram o capital. Tudo está conectado. Você vê o mundo e tudo começou com a crise subprime, em 2008. Ali começou o que eles chamam de quantitative. Que é jogar dinheiro no mercado, salvar bancos, financiar, emitir papel, jogar liquidez no mercado, taxas de juros negativas. Hoje a gente está na ressaca de uma inflação que está sistêmica no mundo inteiro. A inflação não reage mais ao aumento da taxa de juros. Lógico, tem guerra, tem questões de custo. Então, esse excesso de liquidez gerou os WeWork, SoftBank, excesso de que o pessoal técnico chama de FOMO, Fear of missing Out. Se você não botar dinheiro, eu não vou. Tudo isso está na esteira do próprio setor que a gente está também. É o mesmo movimento, excesso de liquidez. E faz muito mal para a saúde ter pouco dinheiro e ter muito dinheiro. Os dois te fazem mal. Acho que a gente está entrando num momento de normalidade. E temos observado e recebido propostas de instituições que hoje já não têm mais aquela facilidade aqui. E estamos olhando com muito cuidado, lembrando que o meu conselho é pró-bono. São empresários, muitos descendentes desses fundadores. E eu preciso da aprovação deles, e eu já tenho muito apoio deles. Mas a pergunta que vem é: por que você quer crescer?

E a resposta?

Mohamed Parrini – A resposta é para a gente se proteger, se defender. Não estou aqui para ser o cérebro, conquistar o mundo. Mas a gente tem que estar grande, estar forte para poder competir. O outro motivo é que nós temos uma obrigação ética e um compromisso com o país. A nossa existência é um ato de contribuição. A gente existir junto com os nossos colegas filantrópicos também contribui para a subida. Na medicina existem todos os seguidores que estão agora crescendo, querendo tomar o lugar. Isso é maravilhoso. É porque nós existimos, nós é que colocamos a régua lá no topo para o SUS. Retenção de cérebros: quantas pessoas estão lá no Rio Grande do Sul porque nós estamos lá, senão teriam ido embora. Isso é dito para mim. A simples existência nossa contribui muito para o sistema.

A excelência puxa a excelência.

Mohamed Parrini – Eu concordo. Essa competição é maravilhosa. Mas a gente tem no DNA essa vontade de ser melhor, por querer ser melhor. Isso está muito presente nos hospitais filantrópicos.

Esse movimento que a gente tem visto de verticalização, de alguma forma afeta o negócio, a saúde ou essa excelência que a gente está conversando?

Mohamed Parrini – Eu acho muito bem-vindo. Existem modelos que são vitoriosos. Eu acho que a gente está posicionado como um hospital A no privado. A gente faz o Proadi-SUS para a população menos favorecida, para o SUS. Mas nosso dinheiro vem do público A. Então, de alguma forma, os verticalizados não nos encontraram ainda. Eles trazem contribuições importantes, porque fazem muita coisa boa com um custo muito efetivo. Nas etapas de protocolos a gente vai tirar muito aprendizado da existência deles. Todavia, eu acho que há de se observar com muito cuidado a união de interesses de uma verticalização entre a operadora e um hospital. Isso é um tema que tem que ser observado pelas agências reguladoras.

Por qual motivo?

Mohamed Parrini – Eu vi muita coisa na pandemia. O objetivo de um hospital é salvar pessoas. Então, quando você tira o dinheiro da mesa, o foco é só o paciente. Quando o administrador junto com isso é dono do risco, tem um elemento. E eu não estou demonizando. Eu acho que é muito bem-vindo, mas é um ponto de atenção para se observar. Como a gente vai monitorar os limites dos protocolos. Até o momento, eu acho que está muito bom. Eles têm trazido contribuições importantes para ensinar o setor privado a ser mais efetivo.

E como você vê as parcerias estratégicas, união de forças, joint ventures? Dentro do Moinhos isso de alguma forma faz sentido?

Mohamed Parrini – Eu acho muito bem-vindo. A gente recebeu propostas nesse sentido já e nesse momento estamos discutindo duas. Precisamos entender com muita clareza quais são os objetivos de cada JV. De novo, o nosso objetivo não é puramente econômico. Mas eu acho que sim, dentro da estratégia nossa de melhoria da qualidade de custo-efetividade e de proteção do nosso mercado, se estiver enquadrado nisso, a gente está dentro. Numa lógica de crescer por crescer, a gente é muito cuidadoso.

Você já atuou em diversos segmentos, como o hoteleiro, consultoria, óleo e gás. O que a sua experiência te traz de diferente com essa visão da saúde?

Mohamed Parrini – Os profissionais de saúde – começando pelos médicos, mas não terminando neles – têm a ciência e o estudo muito presente. Muitos são amigos meus, você vê como eles são ecléticos, são escritores, são artistas, são músicos. É um ambiente riquíssimo. Então, eu comecei minha carreira numa empresa de auditoria americana chamada Arthur Andersen. E depois eu fui para petróleo, fui para outros setores. A saúde é muito interessante, porque nela a gente consegue ver aquilo que a gente está fazendo. Um investimento, um capex, não é só um capex. Um investimento em uma máquina não é só um investimento de uma máquina. Você consegue tangibilizar a satisfação que o profissional médico tem e a satisfação de um familiar de ver o exercício da sua profissão. Eu nunca me imaginei trabalhando com saúde, nem mesmo com educação. Mas hoje eu acho que educação e saúde são elementos muito chaves. A gente vê, por exemplo, muita transformação. Eu admiro os países dos Emirados, como eles planejaram esse futuro e conseguiram fazer a transformação deles, quanto eles são disciplinados nesse processo de transformação. Só que eu acho que com o petróleo fica mais fácil fazer isso. Eu prefiro trazer para a mesa os países da Escandinávia e a Coreia do Sul, que conseguiram fazer uma transformação sem tantos recursos – com exceção da Noruega – através da educação, da tecnologia e da ciência. Há subfinanciamento do SUS, há no setor privado. Há também dificuldades econômicas na educação. Mas a gente precisa discutir um pouco da cultura corporativa privada, trazer elementos para saúde, para a educação, ciência e tecnologia para conseguir fazer uma construção que mude o país de forma mais rápida. Eu estou com 49 anos. Então, eu vejo 10 anos passar e a gente andar para trás.

Na saúde a mudança está acontecendo. Eu vejo hospitais em processo de profissionalização, gestores discutindo eficiência. Eu acho que eu faço parte desse processo de mudança. Mas eu penso que a gente tem que avançar mais nessa contribuição, vamos dizer, corporativa.

Você fala do ponto de vista de política pública mesmo?

Mohamed Parrini – Pública e privada. Quando eu estou trazendo também os hospitais filantrópicos, a gente é menos eficiente do que as empresas de capital aberto. Não podemos perder essa mente altruísta de querer fazer o bem, de querer olhar uma jornada de longo prazo, de querer salvar vidas, de educar, de formar pessoas. Mas a gente podia dar uma temperada com pinceladas de objetivos, métricas, milestones, remuneração variável para poder enxergar a mudança que a gente quer ver nos hospitais filantrópicos, nos públicos, na educação pública. Então, essa vinda de mais gente com esse modelo é bem-vinda.

Essa mudança de mentalidade tem que partir de cada um dos players ou de repente tem que ser algo estabelecido como uma política?

Mohamed Parrini – Eu acho que a primeira coisa é a gente falar. Hoje em dia está difícil você falar tudo que você pensa. Eu acho que o primeiro elemento é falar. É ter uma discussão na qual eu dou minha opinião, você educadamente diz que discorda de mim, eu respeito a sua discordância e a gente continua avançando numa sociedade que discute os pontos e que não bota para baixo do tapete as coisas que não estão sendo faladas ou não estão sendo feitas. Porque o objetivo final são as pessoas.

Eu tive a oportunidade de ir ao Moinhos e conhecer o hub de inovação. Qual vai ser o papel da inovação na transformação da saúde?

Mohamed Parrini – Nós criamos o Atrion, um centro de inovação do hospital Moinhos de Vento, no qual a gente acelera, incuba e estimula o interempreendedorismo. Infelizmente, temos que discutir o próprio contrato de trabalho que a gente tem hoje no Brasil, que é a CLT, que não permite que o meu funcionário crie uma empresa comigo e continue sendo meu funcionário. Esse é um dilema, como é que a gente vai fazer? Porque hoje você quer criar a tua empresa, você não pode propor para o teu chefe. Então, existem regramentos legais no Brasil que eu acho que são medievais também, já que eu estou usando essa palavra. O Atrion é um mecanismo de se conectar com pessoas. A gente trabalha muito em hospital, então o nosso dia a dia é para olhar para o hoje. Atender com os recursos que eu tenho hoje. O Atrion é uma forma da gente se conectar com outros que estão fora desse circuito corrido e que estão pensando de forma mais arejada, soluções conectadas com a indústria. Temos parceria com a Johnson & Johnson, Novartis e com muitas outras. Em parceria com as empresas, a gente apoia as empresas que estão sendo criadas. As ideias estão sendo criadas. A gente acelera quem está querendo ser acelerado e a gente também pivota novas ideias e produtos dentro da nossa instituição. Depois eles voam por aí, mas eles ajudam a gente a criar soluções internamente. Em alguns outros momentos, a gente entra junto em parcerias e sociedades, seja lá como vamos escrever ela juridicamente, para poder se conectar com esse hospital do futuro, que eu acho que seremos todos menos hospitalocêntricos.

O Brasil é um país que o paciente ainda vai muito para o hospital e isso vai mudar em 15-20 anos.

O que você planeja para o Moinhos daqui 15, 20 anos?

Mohamed Parrini – A gente tem que estar preparado. Nós, do Moinhos, nos posicionamos como uma instituição de saúde científica. Nós estamos conectando cada vez mais com a educação. A assistência primeiro, que é o cuidado com a pessoa que está buscando a cura ou a minimização de uma dor que ele tem naquele momento, alguma aflição. Segundo educação. Terceiro a pesquisa. E quarto as tecnologias. Então, a conexão dessas quatro coisas vai permitir que instituições como a nossa possam prestar serviços de saúde ou de educação em saúde ou de pesquisa em saúde, em qualquer lugar. Não somente dentro das minhas paredes. Eu tenho que estar pronto para isso. E quando alguém pensar numa pessoa ou numa entidade mais preparada ou autorizada a falar disso, ele tem que pensar nas instituições que são seculares. Porque lá dentro estão os cérebros, estão os professores. Nós não somos aquelas paredes. Nós somos as pessoas, os processos, as pesquisas, as discussões vivas que estão acontecendo naquele momento. Então, quando eu tirar de dentro, eu não preciso das paredes, as paredes vão continuar ali para um pedaço dessa população que vai continuar caindo ou se ferindo. Mas um pedaço grande disso pode estar em outro lugar. E eu e nós do Hospital Moinhos de Vento pretendemos estar nesse lugar, que a gente não sabe bem aonde vai ser.

Isso justifica muito investimento em educação, de ocupar também esse espaço e criar essas faculdades.

Mohamed Parrini – Sim, nós temos a faculdade de ciências da saúde desde 2018. O Moinhos nasce com as schwester da primeira escola técnica de enfermagem do Rio Grande do Sul, antes do hospital, em 1924. Então, hoje, 100% da nossa mão de obra é formada nas nossas escolas técnicas. Na faculdade, a gente está com o curso de enfermagem. A primeira turma é formada agora no meio do ano. Na pós-graduação em saúde, nós somos uma das maiores em saúde do Rio Grande do Sul. A gente está avançando para o mestrado e para o doutorado.

E na medicina?

Mohamed Parrini – Estamos avaliando. Eu não estou autorizado ainda a falar, mas a gente está nessa jornada. O que é mais importante é que se a gente for por esse caminho, vamos buscar diferenciais. E a gente vai fazer mais do que a carga horária mínima. Queremos contribuir para a formação desse médico do futuro também. Então, se é para fazer mais do mesmo, não precisam da gente.

O que mais está entre as prioridades do Moinhos no curto prazo?

Mohamed Parrini – Estamos levantando um prédio novo. A gente está ampliando todo o nosso centro de institutos de pesquisa, com laboratório de fase 1 para pesquisa clínica. Estamos ampliando mais 30 leitos de UTI. Cada vez mais nossos pacientes estão mais complexos e a gente virou um hospital muito mais complexo. Então, esse prédio vai ser inaugurado agora, uma torre nova em maio, abril do próximo ano. E a gente já está em planejamento para fazer um novo prédio de educação. Inauguramos a faculdade dentro de um shopping próximo do Moinhos. Queremos ter um prédio próprio de educação e para pesquisa. Esse é o nosso objetivo. E ampliar as parcerias dentro daquela lógica de poder oferecer os serviços que haja demanda na nossa cidade, no nosso estado.

E agora a última pergunta: quais são as pautas quentes que precisamos prestar atenção?

Mohamed Parrini – Uma das pautas quentes é sobre políticas públicas de saúde. Há de se discutir o burnout na saúde. O mundo está discutindo hoje temas relacionados à importância da enfermagem e à quantidade de profissionais de enfermagem que serão necessários no futuro – com o envelhecimento da população – e que não querem mais estar nessa profissão. Então, a gente precisa abraçar mais esses profissionais. Tem que falar do médico do futuro, eu acho que esse é um outro tema. E o outro tema é a questão da inteligência artificial, estou citando o ChatGPT, mas esse é um tema que necessita de mais cuidado para que que a gente consiga usar melhor isso dentro da prática clínica, dentro da educação dos profissionais. Como é que a gente vai usar isso a nosso favor? E qual vai ser o regramento desse negócio? São as pautas que têm me preocupado ultimamente.

Natalia Cuminale

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, com as reportagens, na newsletter, com uma curadoria semanal, e nas nossas redes sociais, com conteúdos no YouTube.

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  • Isabelle Manzini

    Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

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