Mídias sociais podem afetar a saúde mental e causar dependência

Mídias sociais podem afetar a saúde mental e causar dependência

O uso das mídias sociais aproximou as relações interpessoais nas […]

By Published On: 25/04/2022
Novo estudo avalia o efeito do TikTok na ativação do cérebro, liberando dopamina e podendo provocar compulsão.

O uso das mídias sociais aproximou as relações interpessoais nas últimas duas décadas. Se antes era preciso telefonar ou enviar cartas para se comunicar com amigos e familiares, agora é possível não só trocar mensagens instantâneas, mas também acompanhar o dia a dia de qualquer pessoa que tiver uma conta em uma rede. Contudo, o uso abusivo pode acabar prejudicando a saúde mental, especialmente dos jovens. 

Um estudo realizado por cientistas da Universidade de Zhejiang, na China, avaliou como o TikTok age no cérebro dos jovens, recomendando vídeos personalizados a cada pessoa através de algoritmos. Através de exames de imagens, os pesquisadores apontaram que os vídeos curtos da rede ativam áreas responsáveis pelo prazer e satisfação do cérebro dos participantes. Dessa forma, o usuário passa a continuar rolando a timeline do aplicativo, para manter a mesma sensação. Isso ocorre porque uma das regiões ativadas é a área tegmental ventral (VTA), ligada à produção de dopamina, o “hormônio da recompensa”.

A descoberta acende um alerta para o uso indiscriminado das redes sociais, que pode levar à compulsão. “A pessoa está na timeline ali, e vai liberando substâncias cerebrais que fazem com que aquele momento seja prazeroso, então ela não percebe. Quem de fato tem um transtorno vai ficar o dia e a noite passando a timeline. Se uma terceira pessoa não percebe, ela não tem essa noção e adoece”, explica a psiquiatra Letícia Fernandes Macedo Storelli.

O Brasil é um dos principais mercado do TikTok. Com a pandemia de Covid-19, a plataforma atingiu 1 bilhão de usuários ativos com pelo menos uma visita mensal em setembro de 2021, sendo popular entre crianças, adolescentes e jovens adultos.

Autoimagem, bullying e discurso de ódio

“Infelizmente tem aumentado muito a procura por consultório de jovens a partir de 14 anos. É algo que a pandemia intensificou bastante, por conta de computador, internet, de estar focado o tempo inteiro em uma sala fechada, junto a outras comorbidades, como depressão e ansiedade”, alerta a médica.

Além do uso abusivo das redes sociais, é preciso ficar atento a como o conteúdo que chega até o usuário pode impactar negativamente. Questões como autoimagem, bullying e discurso de ódio merecem atenção. Um levantamento da Royal Society for Public Health e do e Youth Health Movement, do Reino Unido, ouviu cerca de 1500 jovens de 14 a 24 anos para entender a relação deles com as mídias sociais. Os participantes poderiam utilizar 14 características para avaliar cada rede em relação à própria saúde mental.

O Instagram, rede social de fotos e vídeos, foi considerada a mais nociva, sendo associada à ansiedade, depressão, solidão, dificuldades de dormir, bullying, danoso à imagem corporal e Fomo (“medo de estar perdendo algo”, em tradução livre). Já as características positivas, os jovens indicaram como a auto expressão e auto identidade.

“Quando você recebe um like, faz com que ative um mecanismo cerebral de estabilidade, de sensação de prazer. Essa sensação só vai aumentando quanto mais likes e mais comentários você receber. Faz com que a própria sensação de prazer gere mais e mais dopamina. Quando você é rejeitado, gera na pessoa algo muito sofrido, que é um gatilho para um quadro psiquiátrico”, explica Macedo. A médica ainda alerta que além do uso, é preciso ter fatores genéticos que aumentem o risco da pessoa desenvolver transtornos.

Tratamento

Para avaliar quando o uso de uma rede social está sendo prejudicial, a psiquiatra indica fazer uma avaliação. Se o Instagram ou o TikTok está atrapalhando a sua qualidade de vida, interferindo nas tarefas diárias ou na sociabilização com amigos e familiares, é preciso ficar atento e em casos graves, procurar ajuda profissional.

Na maioria dos casos não é o próprio usuário que percebe, por isso é importante que pais, responsáveis e pessoas próximas saibam identificar e alertem. Existem situações que os pacientes chegam aos consultórios por outros sintomas e transtornos, como depressão e ansiedade, e só ao longo das consultas o médico consegue identificar que as mídias sociais podem estar impactando no bem-estar deles.

“Tem que existir um equilíbrio na vida desse adolescente, no contexto familiar e social. Os pais precisam ser muito amigos. Quando você proíbe algo a pessoa vai escapar e gera conflitos que se torna um problema lá na frente. É preciso identificar que aquela pessoa tem uma compulsão, entender que aquilo já passou do limite do normal e ela tem que tratar. O jovem tem que ter uma rotina diária fora da tela”, explica Letícia.

O tratamento envolve psicoterapia, medicamentos e uma reeducação sobre o uso saudável das redes. A médica alerta que apesar de ser apesar do efeito da dependência ser semelhante ao da do uso de drogas e da compulsão alimentar, o tratamento é mais simples porque a não existe uma substância ou comida que é ingerida, apenas a tela do celular.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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