Para aumentar índices de vacinação, microplanejamento será foco do Ministério da Saúde

Para aumentar índices de vacinação, microplanejamento será foco do Ministério da Saúde

Segundo Eder Gatti, diretor do departamento de imunização do Ministério da Saúde, atuação local de estados e municípios será fundamental

By Published On: 14/02/2024
Microplanejamento na vacinação

Foto: Adobe Stock Image

O desafio de aumentar as taxas das coberturas vacinais, em queda desde 2016, e recuperar a credibilidade de um dos maiores programas de vacinação do mundo – o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que completou 50 anos em 2023 – segue como um dos principais objetivos do Ministério da Saúde. Em 2023, a pasta adotou diferentes estratégias para ampliar a capilaridade em todo o território e conseguiu êxito no aumento das taxas para oito vacinas recomendadas para crianças com um ano de idade. Agora, o plano é intensificar o microplanejamento, que consiste em garantir que estados e municípios, mesmo os mais distantes, consigam elaborar seus próprios planos.

“Em 2024, vamos fortalecer o microplanejamento da vacinação, que foi implementado pela primeira vez em 2023. Para isso, faremos visitas técnicas a estados e municípios. A ideia é garantir que aqueles que aderiram a essa estratégia de vacinação prossigam e que os não conseguiram implementá-la de forma adequada adotem o microplanejamento”, explicou ao Futuro da Saúde o infectologista Eder Gatti, diretor do Departamento de Imunização e Doenças Imunopreveníveis do Ministério da Saúde.

Em 2023 houve o repasse de mais de R$ 151 milhões para ações regionais nos estados e municípios, valor que incluiu oficinas com as secretarias de saúde, visando soluções viáveis para cada local do país, que leva em consideração a realidade daquela população, como estrutura da saúde e condição socioeconômica e geográfica dos municípios. Segundo Gatti, o foco é justamente fortalecer a vacinação baseada no território, permitindo que os municípios se organizem e planejem ações de acordo com seu contexto.

Para Carla Domingues, que comandou o PNI entre 2011 e 2019, esse enfoque deve permanecer: “É importante continuar com o microplanejamento porque ele precisa dar conta da realidade do país. Ou seja, é necessário sentar com cada município, olhar seus problemas e traçar estratégias específicas. As ações de vacinação para a capital paulista serão diferentes para a região ribeirinha, por exemplo”.

Ela exemplifica que, no caso de São Paulo, os postos de vacinação precisariam ficar abertos durante a noite, estarem em estações de metrô e em grandes eventos. Já para a população ribeirinha, seria necessário levar a vacina.

A vacina contra o papiloma vírus humano (HPV) é uma das que respondeu positivamente à iniciativa. Desde 2014 apresentava queda no número de doses aplicadas, mas em 2023 a cobertura subiu 30%. De acordo com dados do Ministério da Saúde, no total, 3.992 cidades brasileiras utilizaram a estratégia.

Padronização da Rede Nacional de Dados em Saúde

Outra área que foi reestruturada em 2023 e será mais explorada em 2024, de acordo com Eder Gatti, será a padronização das plataformas que registram a vacinação no país, que vão abastecer a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS):

“Ainda em 2023, nós conseguimos colocar todos os registros de doses aplicadas na RNDS. Com isso, cada dose está atrelada a um CPF, a um indivíduo. Com essas informações, vamos desenvolver estratégias baseadas nos indivíduos e nos seus territórios, permitindo, inclusive, identificar quais são as crianças que não estão vacinadas e, com isso, poderemos ir atrás delas para garantir a sua vacinação”, esclarece.

Até 2022, os registros e doses aplicadas das vacinas eram inseridos em diversos sistemas de informação dos próprios municípios e estados. Agora, utilizando a RNDS, é possível monitorar a gestão da saúde populacional em tempo real e com o objetivo de centralizar os dados de saúde em um único repositório.

Além de ajudar no desenvolvimento de estratégias locais, a expectativa é que esse sistema de informação reduza o desperdício de recursos públicos, uma vez que trará informações como estoque e movimentação das vacinas.

Além do microplanejamento, comunicação será outro pilar

Gatti confirmou ainda que a pasta vai continuar com as ações de comunicação ao longo do ano. Segundo ele, campanhas como a do Zé Gotinha “vão continuar presentes na vida das crianças”. Ainda em 2023, o Ministério da Saúde lançou os perfis do Zé Gotinha nas redes sociais. “O ideal é consolidarmos as coberturas vacinais, fortalecendo a rotina, pois a vacinação é uma ação permanente.”

Outra iniciativa lançada em 2023 pelo Ministério da Saúde, foi um bot no WhatsApp. Por lá, a população pode adicionar e enviar uma mensagem para esclarecer dúvidas e pedir informações relacionadas às vacinas aplicadas no país, doses e a política nacional de imunização.

O canal também permite checar informações falsas, um dos problemas que interferem globalmente nas coberturas vacinais. O tema é inclusive foco do programa Saúde com Ciência, que atua no combate à desinformação.

“Fortaleceremos o Saúde com Ciência e vamos reforçar o microplanejamento, que vai promover a vacinação de rotina e ajudar na imunização contra a Covid-19 e a dengue. Além disso, faremos a vacinação em ambiente escolar, coisa que muitos municípios já fazem”, adiantou Gatti. “O ambiente escolar agrega crianças e adolescentes e permite uma vacinação mais efetiva.”

Covid-19 e dengue no calendário

Em janeiro, o Ministério da Saúde divulgou o Calendário Nacional de Vacinação de 2024. Esse ano a novidade é a inclusão da vacina da Covid-19 para crianças de seis meses a cinco anos e a da dengue.

Renato Kfouri, pediatra neonatologista e infectologista, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), lembra que é fundamental a vacinação dos menores de dois anos por ser um público não exposto à Covid-19: “São crianças que nasceram nos dois últimos anos e não tiveram exposição ao vírus. Lembramos que metade das crianças de até dois anos que morreram de Covid eram saudáveis antes de contrair a doença.”

Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

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Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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