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Microbiota intestinal: estudos vivem ‘boom’ e tentam encontrar caminhos para prevenção de doenças através de análise genética

Estudos que envolvem a microbiota intestinal têm potencial enorme e começam a ser explorados por universidades e healthtechs

               
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Uma floresta inexplorada, com uma vasta fauna e, ainda, muitos mistérios. É assim que médicos e pesquisadores avaliam a microbiota intestinal, um conjunto de bactérias, fungos e vírus que, ao contrário do que grande parte das pessoas pensam, tem funções ainda mais importantes no corpo humano. Ela pode dizer muito sobre obesidade, diabetes, câncer, dermatite e diversas outras doenças.

Para falar da microbiota e seu potencial é preciso ter noção da sua dimensão na composição do corpo humano: estima-se que aproximadamente 100 trilhões de bactérias, boas (probióticas) e ruins (patogênicas), que pesam cerca de 2kg do nosso peso de balança, vivem no intestino. Não à toa, o órgão muitas vezes é classificado como um “segundo cérebro”.

“Nós temos muitos neurônios presentes no trato digestivo como um todo. Fora o cérebro, esse é o sistema com mais neurônios. É muito comum, na prática, a gente ver a relação entre momentos de stress, ou de depressão, tendo impacto diretamente na função intestinal e vice-versa. Existem diversos exemplos de trabalhos que mostram a relação entre o bom funcionamento digestivo e quadros neurológicos e psiquiátricos. E o oposto, também”, revela Arceu Scanavini Neto, cirurgião do aparelho digestivo do Hospital Israelita Albert Einstein.

Os potenciais deste mundo muito explorado, mas ainda cercado de incertezas, devem fomentar o mercado de saúde ao longo dos próximos anos. Segundo projeções publicadas na Fortune Business Insights, as movimentações do mercado de saúde digestiva devem atingir um valor próximo de US$ 72 bilhões até 2027 – em 2019, o montante girava em torno de US$ 38 bilhões. De acordo com o banco de dados do Pubmed, plataforma para pesquisa de publicações científicas da área da saúde, o número de estudos sobre o tema cresceu 5 vezes entre 2015 e 2021.

A alta reflete uma preocupação, tanto de médicos quanto de pacientes, cada vez mais constante com os impactos que o trato digestivo pode ter na nossa saúde. “A gente conhece uma parcela pequena dessas bactérias, não sabemos o nome de muitas delas. Temos muito o que aprender, conhecer e entender sobre o impacto de cada uma delas na nossa homeostase. O equilíbrio dessa microbiota está diretamente relacionado com um organismo saudável”, completa o cirurgião do Einstein. 

Muito além do intestino

Engana-se quem pensa que o que acontece no intestino fica só no intestino. Embora a microbiota esteja localizada ali, onde antes chamávamos de flora intestinal, ela tem impacto significativo no nosso sistema imunológico – cerca de 70% dele depende deste microbioma.

“Para o nosso organismo funcionar, ele depende do combustível que a gente adquire a partir da alimentação. Para o coração funcionar, o intestino tem que funcionar adequadamente. Sistema nervoso, também. O trato digestivo funciona como uma barreira importante na questão de infecções. Se ele estiver desequilibrado, posso desenvolver infecções graves e até letais”, explica Scaravini Neto. O cirurgião completa que existe um grande risco nas doenças inflamatórias intestinais, que deixam o intestino mais permeável – é o caso da doença de Crohn e da retocolite ulcerativa.

Para ilustrar, podemos usar a analogia de um filtro de café, sendo que o intestino funciona como o pano: se mais permeável, ele não vai separar tão bem o que vai entrar ou não na corrente sanguínea. Isso pode acabar levando substâncias que não fazem tão bem e podem causar infarto, derrame e deixar o organismo mais suscetível a quadros inflamatórios – o que leva a artrites, doenças reumatológicas e psoríase, por exemplo.

Desde 2012, diversos trabalhos da Unicamp contribuem para o entendimento de doenças ligadas ao trato digestivo, como a já mencionada doença de Crohn. Mais recentemente, estudos da universidade, com apoio da Fapesp, mostraram relações entre o desequilíbrio deste microbioma e o Parkinson nos casos chamados de esporádicos – quando não há fator genético envolvido.

Daniela Oliveira Magro, pesquisadora do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, revelou que, do ponto de vista epidemiológico, tanto a prevalência quanto a incidência de doenças inflamatórias intestinais vêm crescendo no mundo todo, inclusive no Brasil, nos últimos anos. O que explica, em partes, esse boom do setor. 

“Com os estudos, a gente consegue descrever como é a microbiota das populações de doenças específicas, como obesidade, doença de Crohn e câncer de intestino, e conseguimos, dentro da nutrição, melhorar a qualidade alimentar desses pacientes fazendo esse equilíbrio [das bactérias]”, explica Daniela.

Como a microbiota intestinal se forma

Os questionamentos dos estudos são diversos e vão desde o que soa como básico: de que forma a microbiota se forma? O projeto Germina, da Universidade de São Paulo (USP), tenta descobrir, por exemplo, de que forma a genética contribui na formação da microbiota intestinal. O estudo vai acompanhar 500 crianças a partir dos 3 meses de idade por mil dias.

Carla Taddei, professora da EACH-USP e pesquisadora do projeto, explica que o tema divide opiniões a partir do momento que o feto está no útero da mulher. “Todo mundo achava que o bebê nascia do útero estéril e, quando chegava na hora do parto, tanto natural quanto cesárea, colonizava-se a criança. Mas estudos com biologia molecular, que avaliam a sequência de DNA dessa microbiota, começaram a mostrar que bebês, quando nascem, o mecônio (primeiras fezes do recém-nascido) já é colonizado.”

Ela completa: “Passamos bons anos tentando entender como isso acontecia antes do parto. E ainda não há evidências concretas se o útero é ou não é colonizado. No ano passado, surgiu um trabalho polêmico na Nature que ‘provou’ que o bebê não nasce colonizado – isso aconteceria apenas no parto. Isso está sendo muito discutido nos últimos meses porque vai contra tudo o que se achava nos últimos anos”.

Microbiota intestinal

Fato é que essa carga bacteriana tem um papel muito importante no organismo do bebê. O que vem da mãe ou do ambiente é o que vai iniciar esse “booster de colonização” nele. Em seguida, vem a dieta – seja de leite materno ou de fórmula.

“O leite materno tem todos os nutrientes que o bebê precisa, inclusive bactérias que ajudam a formar a microbiota. Então, ele é mais que um alimento. É um efeito modulador da microbiota. Quando a criança começa a comer alimentos sólidos, eles também têm bactérias e outros carboidratos que causam mudanças da microbiota ao longo da primeira infância. Entre os dois e três anos de idade, ela já está estabilizada. Tudo que tinha que acontecer para modular ela já aconteceu. E aí chamamos de microbiota de adulto.”

Depois dessa idade, poucas coisas vão modular a microbiota intestinal de forma definitiva. Por exemplo: uma pessoa, ao se tornar vegetariana, terá mudanças na flora intestinal. Se em algum momento ela voltar a comer carne, a microbiota volta ao padrão antigo. “Por isso que estudamos tanto a criança. Para que ela seja um adulto saudável e não precise fazer tantas intervenções quando amadurecer”, explica a pesquisadora da USP.

Intestino em detalhes

A startup brasileira Bioma4me Análises Clínicas foi a primeira no país a oferecer o sequenciamento genético da microbiota intestinal. Desde 2018, o exame identifica o desequilíbrio das bactérias no intestino de forma individualizada e ajuda no diagnóstico de doenças e na identificação de padrões deste microbioma.

De acordo com Dan Linetzky Waitzberg, diretor médico da empresa e médico cirurgião do Aparelho Digestivo pela FMUSP, o conhecimento da composição da microbiota intestinal permite avançar rumo à medicina personalizada com bases mais sólidas.

Para ele, o mercado brasileiro, ao dispor de tecnologia de diagnósticos genéticos do microbioma, se beneficiaria em orientar tratamentos específicos para diversos tipos de doenças que têm ligações com o intestino – e atuar, sobretudo, no maior controle da sintomatologia delas.

A análise oferecida pela Biome4me acontece a partir da coleta do tamanho de “um grão de feijão” das fezes do paciente. Em laboratório, acontece a extração do DNA de células bacterianas, amplificação, sequenciamento genético do gene 16s rRNA utilizando a tecnologia NGS (Next Generation Sequencing) e a taxonomização bacteriana.

“O gene 16s rRNA é constitutivo de bactérias, isto é, está somente presente nessa população. O seu sequenciamento permite identificar a população bacteriana da microbiota intestinal e informar, em termos quantitativos e qualitativos os filos, gêneros e espécies presentes, assim como a diversidade e a riqueza da microbiota intestinal”, explica Waitzberg. “Ao identificar precisamente os sinais de equilíbrio e desequilíbrio da flora intestinal, o exame possibilita ao prescritor modular os distúrbios encontrados pelo sequenciamento genético, por meio de intervenções na dieta, com prebióticos, probióticos, simbióticos ao lado de medidas medicamentosas”.

Para realizar o exame, segundo o diretor médico da Bioma4me, apesar de não exigir encaminhamento, é solicitada a indicação de um prescritor profissional da saúde para o envio e ajuda na interpretação dos resultados.

Hoje, o exame de sequenciamento genético do microbioma intestinal da Bioma4me custa R$ 1.039 e não é coberto por planos de saúde por não estar na lista de exames cobertos pela Agência Nacional de Saúde. Ele é recomendado tanto para quem sofre de distúrbios intestinais orgânicos ou funcionais quanto para quem queira conhecer a composição de microbiota e, se necessário, tomar atitudes orientadas por um profissional.

Influência da alimentação

A alimentação tem influência direta no funcionamento do intestino. Através dela, é possível suplementar tanto probióticos, que são as “bactérias boas”, quanto os prebióticos, carboidratos que servem como alimento para essas mesmas bactérias.

Entre os prebióticos estão o alho, a cebola, a banana, a aveia e outros. Já nos alimentos ricos em probióticos, temos iogurtes, kombucha, kefir e diversos tipos de queijos – investir em um cardápio rico neste grupo pode contribuir para o equilíbrio da microbiota. Além disso, essas bactérias fortalecem o sistema imunológico e ajudam na regulação da pressão arterial e colesterol, entre outros benefícios.

E essa suplementação pode ser feita, inclusive, por quem é intolerante à lactose. Os queijos envelhecidos, que passaram por um processo de maturação, são os mais recomendados. “Um parmesão que fica anos na prateleira não tem mais lactose. Ele tem uma quantidade de bactérias que, muitas vezes, vai ter efeito benéfico nessa interação com a nossa microbiota. A chance do paciente sentir efeitos é pequena”, explica Arceu Scanavini Neto.

Ainda assim, uma foodtech de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, promete aumentar a gama de opções, principalmente para essas pessoas. Através de cápsulas, a startup Weecaps é pioneira na América Latina – como explica Thaiane Marques da Silva, doutora em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela UFSM e CEO da empresa:

“Os probióticos necessitam chegar vivos ao intestino para fornecerem seus benefícios e, quando não protegidos, não resistem a aplicação em mais de 90% das matrizes alimentícias. Nossa tecnologia gera microcápsulas que são capazes de proteger os probióticos na aplicação e na vida de prateleira dos produtos, bem como durante a passagem pelo trato gastrointestinal, tendo a liberação dos probióticos somente no intestino”.

Futuro do setor

Apesar dos inúmeros estudos e pesquisas, e a identificação de padrões de bactérias em determinadas doenças, a ciência ainda não consegue definir o que é uma microbiota considerada normal. As expectativas dos especialistas vão diretamente em encontro a isso: que, no futuro, seja possível traçar um perfil de saúde de cada indivíduo através do intestino – de forma pessoal, o que é a normalidade e o que é descompensação.

“Eu acredito que tem um mercado pensando em investimentos, é muito promissor. Hoje em dia, com o pouco que a gente conhece, já se gasta muito, na casa de bilhões, nos Estados Unidos. E com projeções de aumento exponencial. É daí que vem o interesse: saber cada vez mais e com mais precisão”, avalia o cirurgião Arceu Scanavini Neto.

A nutricionista Daniela Magro, da Unicamp, acredita que esses estudos estão longe de se esgotarem e o mercado é, de fato, promissor: “Precisamos deixar os exames mais baratos para que, mais para frente, eles sejam colocados a nível laboratorial”. Hoje, não são todos os profissionais que são capacitados para interpretar esse tipo de análise de sequenciamento genético da microbiota – o que ainda é um gargalo do setor.

Para Carla Taddei, da USP, pode-se dizer que existe um grande boom de estudos da microbiota nos últimos anos e, principalmente, novos mecanismos de interação que estão sendo desvendados: “Se a gente souber como aparece a obesidade e o diabetes, a gente sabe como modular a microbiota antes dela aparecer. As relações com o câncer, também. Como evitar a doença modulando a microbiota”.

“Mas, quanto mais a gente estuda, mais perguntas a gente tem – e mais caminhos se descobre. Nosso objetivo é, justamente, traduzir o que vemos na pesquisa para a prática clínica”, completa Taddei. Para ela, é “até difícil seguir a literatura” de tantas descobertas novas que estão surgindo atualmente.

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