Medicina em transformação: cinco pontos que a pandemia evidenciou sobre a carreira médica

Medicina em transformação: cinco pontos que a pandemia evidenciou sobre a carreira médica

Não é novidade que a rotina dos profissionais da saúde […]

By Published On: 27/06/2022

Não é novidade que a rotina dos profissionais da saúde pode ser exaustiva e com impacto direto no bem-estar físico e mental dos médicos. A crise sanitária, que causou o colapso dos sistemas de saúde, aumentou a demanda por especialistas e evidenciou aspectos cruciais para a carreira.

1. Necessidade de cuidar da saúde mental

Uma pesquisa recente traz novos números sobre as taxas de esgotamento mental de estudantes de medicina durante a pandemia por Covid-19. Apresentados durante a reunião anual da Associação Americana de Psiquiatria (APA), os resultados indicam que, dos 613 entrevistados: ao menos 54% apresentam sintomas de burnout; 80% demonstram exaustão emocional; 57% tiveram pontuações altas quanto ao cinismo e 36% tiveram pontuações baixas no que se refere à eficácia acadêmica.

“A pandemia deu mais relevância à rotina do médico e como ele atua, mas a questão não é nova. O próprio exercício da medicina, ainda mais dependendo da especialidade, é uma profissão estressante”, afirma Angelo Vattimo, médico e primeiro secretário do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP).

Os desafios da vida médica começam desde antes da graduação. Na Fuvest, o curso de medicina é o mais concorrido em todas as unidades, com a concorrência por vaga variando de 96 a 124 pessoas.

Além disso, passar pela graduação, residência e especialização também exige muito dos estudantes, e “quando começa a trabalhar, muitas vezes os estudantes encontram ambientes estressantes, logo na juventude. Então toda essa combinação pode impactar na saúde mental, tanto é que os casos de burnout por trabalho e questões de suicídio cresceram nos últimos anos”, reforça Vattimo.

2. Busca por mais qualidade de vida

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Neste ponto, a busca por mais qualidade de vida e uma saúde mental melhor pode ser pensada através do ponto de vista filosófico, mas também de estratégias. “Não é só uma questão da medicina, mas sim da sociedade moderna. O ambiente competitivo, o consumismo, a necessidade de manter o status, a corrida desenfreada por plantões para ganhar dinheiro… tudo isso impacta a saúde mental”, explica Angelo Vattimo.

Logo, o primeiro passo é aprender a dosar e tirar momentos para pausa. “Muitas vezes os profissionais não têm essa percepção, eles precisam, mas o médico acaba sendo mau paciente – não só em termos de saúde mental, mas também em cuidar de si próprio em questões orgânicas –, então muitas vezes acaba ocorrendo o pior”, pontua o primeiro secretário do CREMESP.

No Brasil, a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizaram um estudo para entender como estava a saúde mental dos profissionais da saúde. Em outubro de 2021, os números apontavam que 81,6% dos entrevistados perceberam impacto na saúde mental. E mesmo assim, apenas 30% dos profissionais de saúde dizem ter recebido algum tipo de apoio para cuidar da saúde mental ao longo deste período. 

3. Melhores salários e planos de carreira

“Não existe plano de carreira para os médicos, esse é um dos grandes problemas no Brasil”, afirma primeiro secretário do CREMESP.

Nessa questão, o mais próximo de um plano de carreira são os concursos públicos regionais. O último concurso com abrangência federal-nacional era do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), extinto na década de 1990. O concurso do INAMPS facilitava a solicitação para transferência de unidade de trabalho.

Logo, o que sobra são apenas concursos para funcionários públicos no âmbito estadual ou municipal, que têm dentro de suas legislações específicas algumas possibilidades de ascensão funcional. No entanto, “isso ainda está muito longe de ser uma carreira de estado”, pontua Vattimo.

Atualmente, os concursos públicos diminuem cada vez mais. “Os equipamentos de saúde pública estão sendo geridos por organizações terceirizadas, muitos sem vínculo nenhum, sem CLT, ou vínculos de PJ e contratos de gaveta, tipo freelance”, explica o médico.

4. Telemedicina e a necessidade de se atualizar rapidamente

“A pandemia obrigou a área médica a sair da zona de conforto”, afirma Chao Lung Wen, chefe da Disciplina de Telemedicina da Universidade de São Paulo (USP). A quarentena e o isolamento social fizeram com que toda a sociedade passasse a considerar novas tecnologias para lidar com questões de saúde.

Três elementos foram necessários: a estabilidade jurídica, oferecida pela permissão provisória da telemedicina; a profissionalização da área de tecnologia médica; e profissionais da saúde experimentando essas ferramentas.

Na visão de Chao, essas mudanças representam uma fase de transição na saúde. Isso porque, esses são os primeiros passos para uma nova forma de lidar com o bem-estar e doenças. “Não caminharemos para a medicina digital, mas sim a medicina conectada. Os serviços poderão ser feitos tanto a distância, quanto presencialmente”, explica o especialista em telemedicina.

Para Chao “médicos com mais dificuldade de usar o meio digital, é natural que percam um pouco de mercado. Por outro lado, as empresas de tecnologia irão precisar fornecer sistemas cada vez mais fáceis para eles possam utilizar, e é possível que até 2026 isso seja mais comum”.

5. Habilidade de se adaptar a mudanças

Com todos os fatores listados anteriormente, outro elemento que merece reflexão é a habilidade de se adaptar a mudanças. Seja uma pandemia ou uma nova forma de atender pacientes, como os médicos lidam com as constantes mudanças embutidas nessa profissão?

“Adaptar-se a situações extremas é uma característica individual, alguns têm e outros não. Na medicina, pela própria formação e por estar desde de jovem em um ambiente meio hostil, os médicos acabam praticando a adaptação e resiliência. O conhecimento, ter uma formação mais sólida e mais experiência são coisas que ajudam a ter mais facilidade em adaptar-se, mas as situações adversas continuam”, afirma Angelo Vattimo.

Por outro lado, a habilidade de adaptar-se às mudanças tecnológicas também são importantes para a prática adequada da profissão. Por este motivo, Lung Wen defende que “não é uma questão de resiliência, mas do conhecimento da transformação”. Para o especialista, trata-se de entender que o uso da telemedicina, por exemplo, é fruto de uma mudança social, “é uma nova realidade que exige apenas uma condição: não deixar os serviços perderem qualidade”, reforça Chao.

A mudança social na qual ele se refere está associada a recursos como conexão 5G, Metaverso, Inteligência Artificial e outros. Logo, “se a própria sociedade e conectividade melhorou, a Saúde não poderia ficar de fora”, pontua o especialista.

Letícia Maia

Estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Fez cursos voltados para comunicação científica da Oxford-Brazil EBM Alliance e do Knight Center for Journalism in Americas. Email: leticia@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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  • Redação

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  • Fernando Maluf

    Diretor Associado do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein e fundador do Instituto Vencer o Câncer. É formado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde hoje é Livre Docente. Possui Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialização no Programa de Treinamento da Medical Oncology/Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em New York.

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