Medicina de precisão é o caminho para um cuidado cada vez mais personalizado

Medicina de precisão é o caminho para um cuidado cada vez mais personalizado

A medicina evoluiu muito nas últimas décadas, com o desenvolvimento […]

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By Published On: 31/08/2022

A medicina evoluiu muito nas últimas décadas, com o desenvolvimento de estratégias inovadoras e tratamentos que mudaram o curso de diversas doenças. A grande transformação do século atual é marcada pelo avanço da medicina de precisão, uma das práticas que tem revolucionado a forma como cada indivíduo é tratado. Embora sua aplicação esteja mais avançada em enfermidades como o câncer, a ideia é que possa impactar não só o diagnóstico como o tratamento de diversas doenças, da depressão aos problemas cardiovasculares.

Essa nova forma de atuar alia os dados clínicos convencionais — como sintomas, históricos pessoal e familiar, e exames complementares — ao perfil genético do paciente. Ao entender as particularidades de uma determinada enfermidade em um paciente específico, torna-se possível agir da forma mais eficiente dentro de um determinado caso, com objetivo de alcançar o melhor desfecho.

Precisão e personalização

O oncologista e coordenador médico do Centro de Medicina de Precisão do Hospital Israelita Albert Einstein, Fernando Moura, define a medicina de precisão como proativa: “Nós viemos de uma época de medicina reativa, diagnosticando e tratando os problemas que aparecem. Com a medicina de precisão, seremos proativos, conhecendo os riscos genéticos de desenvolvermos doenças e, desta forma, atuando de modo a prevenir e rastrear algumas enfermidades”, afirma Moura, que destaca que a medicina de precisão é composta por três pilares: predição, prevenção e personalização do tratamento.

O conhecimento da genética permite predizer os riscos de que o indivíduo desenvolva certas doenças e permite aos médicos traçar estratégias de prevenção ou de detecção precoce, mesmo antes da manifestação dos primeiros sinais e sintomas da doença.

Henrique de Paula, patologista e coordenador médico do Laboratório/HIAE em Goiânia, explica que a grande transformação em relação à medicina de precisão se deu com a chegada de tecnologias como o sequenciamento chamado de NGS (Sequenciamento de Nova Geração, na sigla em inglês), com capacidade exponencial de mapeamento.

“Antes, o sequenciamento era feito gene a gene, o que transformava o seu emprego na rotina quase impossível, quando precisávamos avaliar múltiplos genes. Hoje, com menor quantidade de material biológico e em um único processamento, conseguimos estudar de centenas a milhares de genes simultaneamente”, ressalta. O próprio Einstein realiza o Predicta Teste, feito via sangue ou saliva, que possibilita o mapeamento de 147 ou 563 genes, a depender da escolha do paciente.

Do câncer a doenças psiquiátricas

De acordo com Henrique de Paula, a medicina de precisão já tem forte atuação em especialidades como oncologia, tanto em tumores sólidos como hematológicos: “Hoje, é indispensável a avaliação genômica mínima para tratar qualquer paciente com adenocarcinoma de pulmão avançado, por exemplo. Na hematologia, o sequenciamento é necessário para preencher critérios diagnósticos de diferentes neoplasias. Faz parte do nosso dia a dia”.

Além da oncologia, outras áreas serão beneficiadas com essa prática, como cardiologia, neurologia, reumatologia, medicina materno-fetal e até ortopedia, segundo Fernando Moura. “Vamos conseguir classificar doenças cardiológicas mais especificamente, com base na genômica, por exemplo. Outras condições como esclerose múltipla ou Alzheimer também terão melhor compreensão. E a análise dos dados gerados pelos atendimentos, exames e genética nos ensinarão cada vez mais, bem como poderão prever desfechos para determinados tratamentos”, afirma. 

Henrique de Paula cita também a neuropsiquiatria, principalmente no que tange a farmacogenômica, estudo de como a variabilidade genética altera a forma com a qual cada indivíduo responde a um medicamento. “Quando um fármaco apresenta efeitos adversos mais exuberantes ao paciente ou não está produzindo os efeitos esperados, pode ter relação com a variante do gene responsável pelo metabolismo desta medicação, por exemplo”.

Parte da população pode ter alguma característica que lhe confere menor ou maior sensibilidade a medicamentos específicos. Dessa forma, o uso da medicina de precisão pode auxiliar na decisão sobre qual dosagem prescrever ou até mesmo ajudar a optar por medicação diferente para o paciente, aumentando a chance de sucesso na terapêutica. “Acredito que em um futuro não tão longínquo, todas as especialidades serão impactadas e beneficiadas pela medicina de precisão”, diz Henrique de Paula.

Ciclo virtuoso

É importante mencionar que o sequenciamento genético gera um grande volume de dados que, se usado de maneira correta, respeitando limites éticos e legais, é fator indispensável para a evolução da medicina de precisão.

O paciente, ao longo de sua jornada, percorre diversos caminhos, entre eles o atendimento médico, os exames laboratoriais, radiológicos e algumas vezes biópsias e tratamentos, apenas para mencionar alguns dos procedimentos médicos. A documentação dessa jornada tem o potencial de gerar inúmeros dados. Por sua vez, os dados de inúmeros pacientes podem ser analisados em conjunto e proporcionam conhecimentos, sempre preservando a identidade dos indivíduos.

Esse aprendizado retorna ao atendimento clínico, aprimorando o cuidado dos pacientes e até mesmo os desfechos de determinados tratamentos. Assim, é gerado um ciclo virtuoso que vai aprimorar continuamente a jornada e o atendimento do paciente.

Personalização traz mais eficiência

O Einstein criou Centros de Excelência em Medicina Personalizada (CEMPs) há quase 2 anos. Os CEMPs são grupos de trabalho que agregam médicos de diversas especialidades e “experts” em uma determinada doença. Por exemplo, o CEMP de Câncer de Pâncreas reúne diversos especialistas – cirurgiões, oncologistas clínicos, radio-oncologistas, patologistas, radiologistas, radiologistas intervencionistas, geneticistas, entre outros – que discutem atualizações, inovação e oportunidades de melhoria nos cuidados. Dentro desses fóruns, dados continuamente obtidos das jornadas dos pacientes também são analisados. O conhecimento adquirido retorna aos pacientes com o aprimoramento do cuidado médico. 

Ferramentas de apoio à tomada de decisão também estão em desenvolvimento e, logo menos, proporcionarão suporte a todo corpo clínico para que a melhor assistência seja oferecida aos pacientes. Atualmente, por exemplo, há inúmeros “molecular care pathways” (diretrizes de tratamentos) que auxiliam os médicos na condução de casos complexos.

Hoje, o Einstein tem 8 CEMPs em oncologia, 3 em hematologia e outros em áreas como pediatria, neurologia, cardiologia, ortopedia e nutrologia. Até o final de 2025, serão 60 Centros de Excelência em Medicina Personalizada, oferecendo conhecimento e tratamento a diferentes tipos de doenças.

O desafio do acesso

A medicina de precisão tem avançado rapidamente, mas o acesso ainda é um desafio. Pensando nisso foi criado o projeto Genomas Raros, uma parceria do Ministério da Saúde com o Einstein para levar a nova tecnologia a cada vez mais pacientes e ainda ajudar no desenvolvimento de inovações baseadas nas necessidades de cada tratamento.

O projeto oferece sequenciamento do genoma completo de indivíduos com doenças raras ou câncer hereditário no Sistema Único de Saúde (SUS), tendo como objetivo definir o diagnóstico de cerca de 30% dos pacientes sequenciados e gerar o maior banco de dados de doenças raras do país.

Ana Carolina Pereira

Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ao longo de sua carreira, passou por veículos como TV Globo, Editora Globo, Exame, Veja, Veja Saúde e Superinteressante. Email: ana@futurodasaude.com.br.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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