Mauricio de Sousa: “Mesmo com a tecnologia, o quadrinho continua forte”

Criador da Turma da Mônica fala sobre personagens inclusivos, uso das telas pelas crianças e como tem lidado com a pandemia

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Lailson dos Santos/Divulgação

Aos 84 anos, o cartunista, escritor e empresário Maurício de Sousa segue criando. E cria com um olhar inclusivo e cuidadoso, que ajuda muitas crianças. Muito além dos famosos personagens principais da Turma da Mônica, eternizados na cultura de milhões brasileiros, vários outros como a Dorinha, que é cega, e o André, com autismo, trazem temas complexos para o ambiente das histórias em quadrinhos.

Sua mais nova criação é Edu, um garoto que tem Distrofia Muscular de Duchenne, caracterizada pela deterioração muscular progressiva. O personagem foi desenvolvido em parceria com a Sarepta Farmacêutica como parte do recém-lançado projeto Cada Passo Importa. A história do Edu mostra os desafios enfrentados pelas crianças com DMD e a importância da inclusão.

Durante a conversa com Futuro da Saúde, Mauricio de Sousa falou sobre a criação destes personagens, suas percepções sobre o aumento do uso de celulares e tablets pelas crianças, os cuidados para não incluir abordagens políticas ou ideológicas nas histórias, como tem lidado com a pandemia e quais cuidados toma com a saúde. E reforça que mantém contato próximo com seu público: “Tenho muito contato com os leitores. Eu falo com eles no Instagram. Não é a equipe não. Sou eu”.

Sabemos que vários personagens da Turma da Monica são inspirados nos seus filhos. Como você se inspira para criar os personagens relacionados à saúde? Você fez recentemente o Edu, com Distrofia Muscular de Duchene, mas já tinha o Humberto, a Dorinha, o André, entre outros. Alguns personagens são criados a partir da criatividade. Temos que inventar e criar com base nas informações que passaram. Estudamos todas as características, como a doença ataca a criança desde cedo e quais os sintomas ocorrem. Criamos historinhas e situações próximas do que acontece da vida real. A nova historinha mostra a visita do primo de Edu, Leo, que também tem a doença (a Distrofia Muscular de Duchene). O Leo nunca existiu de verdade, mas foi inspirado e construído com base nas informações que recebemos.

Como se dá a escolha do tema? Geralmente são condições de saúde que têm a ver com necessidade de inclusão. Sim. O André, por exemplo, eu fui estudando as crianças com autismo para criar a estrutura do personagem. É uma das áreas que mais me impressionaram por causa da variedade que existe no autismo, cada um é um. Fiquei admirado com a capacidade que eles desenvolveram para tratar determinados assuntos, alguns foram para cálculos, outros desenham muito bem. Boa parte dos autistas que foram ao meu estúdio desenham muito bem, principalmente na área de cores. E alguns são influenciados por personagens meus. Até aqueles que têm um grau mais severo de autismo, que não se comunicam com o mundo exterior, às vezes, por algum motivo, eles tomam conhecimento da Turma da Mônica e se transformam nos personagens. Eles se vestem como os personagens.

O senhor acredita que a Turma da Mônica ajuda essas crianças de alguma forma? Tem o caso de um rapaz que chegou vestindo a roupa do Chico Bento, falando muito bem. Ele mudou a forma de se comunicar. Depois de algum tempo, encontrei esse menino e ele estava se comunicando muito mais e melhor.

Como os personagens influenciam? Crianças querem ler, entender a história. Elas pegam o gibi e às vezes inventam a história. Nem sempre é um caso tão majestoso como essa história do Chico Bento. Às vezes são coisas mais sutis. É por isso que preciso ter tanto cuidado com o comportamento dos meus personagens.

Como você toma esse cuidado? Trabalho com uma grande equipe. É preciso pensar muito antes de soltar uma historinha, pois ela tem ser boa para chegar a uma mente tão sensível como de uma criança com autismo suave ou severo. Atualmente a Marina, minha filha, é diretora de conteúdo da empresa. Ela conhece toda a filosofia dos personagens. Passei os últimos 40 anos com esse cuidado.

A Turma da Monica geralmente não aborda temas muito polêmicos. Esse é um cuidado? Nosso público é composto por crianças que não estão ligadas à política e temas sofisticados. Como é para criança que está aprendendo, abrindo os olhos para ao mundo, esse tipo de abordagem deve vir dos pais, dos mestres. Então, eu não tenho direito de colocar nenhum tipo de ideologia ou sugestão nas nossas histórias. Tem que ser natural, normal, ingênuo sem ser bobinho. Não tem criança ingênua mais. O que produzimos no estúdio temos todo cuidado para não impor ideias políticas, ideologia, que não temos direito de fazer.

Hoje um grande drama dos pais é em relação às telas. É difícil manter os filhos longe dos celulares. Na Turma da Mônica parece que esse ainda não é um problema. O que você pensa sobre o uso das telas e o futuro das crianças? O quadrinho em si é muito forte porque ele está à mão. Ele pode ser guardado, colecionado. Quando surge pela primeira vez nos olhos da criança, ele marca presença. Mesmo que haja tecnologia, o quadrinho ainda continua forte o suficiente para marcar. Tenho muito contato com os nossos leitores. Eu falo com eles no Instagram. Não é a equipe não. Sou eu. Tem muita gente que aprendeu a ler com os personagens, com o gibi, e estão falando comigo agora. Eles mantêm esse tipo de relação ao mesmo tempo em que acompanham com curiosidade e admiração. Fico muito contente com essa possibilidade que passamos com criançada. Quero escrever e lançar um livro sobre as influências do gibi no comportamento das pessoas. Os quadrinhos vieram para ficar. Olhando para a minha estante, vejo os meus gibis. No que eu pego meus gibis antigos, de 40 anos atrás, vejo uma historinha e uma situação, volta a lembrança e a emoção.

Mas você se entristece com a popularização das telas para as crianças?É um sinal dos tempos. Não posso me entristecer com uma realidade que veio e vai ficar. Temos até tecnologia em mais dimensões, com cheiro. O celular veio e grudou na mão da criançada. É mais uma forma de comunicação, de ver e de transmitir. Não dá para ser contra e é preciso aceitar como uma realidade. Dá, na medida do possível, para contrabalançar com os quadrinhos, com histórias com mensagens positivas e alegres.

Como o senhor encarou a pandemia? Fiquei meses sem sair de casa e ainda estou. Raramente saio. Nasceu meu netinho recentemente. Quando ele nasceu, ele foi para casa da mãe dele e só depois de quatro meses visitei. Com todos os cuidados. Ao mesmo tempo, usei os recursos tecnológicos para não parar de trabalhar. A equipe toda foi para o online. Agora, o pessoal me chama para lives. Eu acho bom poder falar do nosso trabalho. Você mostra o que está fazendo, conversa. Estou gostando da experiência. E foi bom também para me preparar cada vez mais para entrar na escola para conversar com a criançada.

Como o senhor cuida da sua saúde? Daqui um mês faço 85 anos. Nem acredito que estou com a idade do meu bisavô e ele era tão velhinho. Me alimento bem, faço minha bicicleta ergométrica, enquanto vejo o noticiário na televisão. Para ficar melhor ainda, montamos um cinemão em casa. Tenho dia cheio, com várias reuniões, mas tenho também o meu horário de fazer minhas coisas. Vejo filmes com minha esposa Alice. Gosto de assistir filmes que tenham profundidade e mensagens. Em geral temos acertado, levamos para o cérebro coisas interessantes. Vejo muito noticiário. Mesmo que eu não goste do que está acontecendo. Tenho 9 filhos, de vez em quando eles me visitam. Na pandemia, ficavam de máscara e conversando pela vidraça. Estamos um pouquinho mais soltos, eles podem entrar na casa devidamente mascarados, tiram sapato.

Como você vê o futuro da Turma da Mônica? É o futuro dessa criançada que vai crescer. Se nós conseguíssemos, o sonho da vida é conseguir melhorar o nível educacional das crianças. Está faltando educação adequada no nosso país. Fazemos o nosso possível de algum modo alfabetizando pelo gibi. Muitos leitores me contam que aprenderam a ler com os gibis. Comigo aconteceu isso. Aprendi a ler no gibi. Me encantei com a leitura e não parei de ler mais. Era faminto de leitura. Fazemos o que nós podemos com o nosso gibi. E temos um cuidado danado para não ter erro de português, já que acaba sendo uma cartilha informal de alfabetização.

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