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Leonardo Piovesan, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz: “Check-up é uma abordagem que funciona como coordenação de cuidado”

Em edição especial do Futuro Talks, Leonardo Piovesan, head de saúde populacional do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, aborda o potencial do check-up na jornada do cuidado

               

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Leonardo Piovesan, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, fala sobre o check-up em entrevista ao Futuro Talks

O termo check-up é bastante conhecido na sociedade. Mas muito mais do que a realização de diversos exames para medir índices, há toda uma estratégia por trás da abordagem que pretende ter o olhar para a prevenção e diagnóstico precoce, além da avaliação de riscos de forma personalizada, sempre com indicações baseadas em evidências científicas. Este foi o principal tema da conversa com o médico geriatra Leonardo Piovesan, head de saúde populacional do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em edição especial do Futuro Talks.

Pelo seu potencial, tanto no sentido de analisar um indivíduo de forma integral como de otimizar logística e tempo de uma pessoa – que consegue realizar diversas análises em um só lugar e em um curto período –, o check-up virou uma solução muito procurada por empresas e pessoas que querem concentrar essa parte importante do cuidado.

E é uma experiência que não se limita ao momento dos exames no hospital, segundo Piovesan. No Oswaldo Cruz, segundo o médico, um dos diferenciais do check-up é a jornada pela qual o paciente passa, que é dividida em três etapas. A primeira delas é o check-in, em que o paciente preenche suas informações para que a instituição avalie onde estão os riscos e estabeleça os exames que aquela pessoa deve fazer. A segunda é o check-up propriamente dito, com consultas e avaliações que duram até 5 horas. E a terceira é o check-out, momento que o profissional que coordena a atividade faz as recomendações e indica como será feito o acompanhamento.

Com a chegada de novas tecnologias como aliadas do cuidado, que inclui telemedicina e inteligência artificial, a abordagem deve evoluir ainda mais. Inclusive ampliando sua atenção à saúde mental, assunto que tem ganhado cada vez mais relevância e demanda ações específicas.

Confira a entrevista em:

Algumas pesquisas mostram que as pessoas estão mais preocupadas em se informar mais sobre saúde. Mas isso significa que elas estão efetivamente cuidando mais da saúde?

Leonardo Piovesan – A meu ver, apesar de buscarem mais informação, as pessoas não cuidaram mais da sua saúde. E os dados mostram isso. Uma pesquisa feita com mais de 47 mil pessoas, que envolveu Fiocruz, Unicamp e Universidade Federal de Minas Gerais investigou os hábitos e o estilo de vida das pessoas durante a pandemia e, para nossa surpresa, o que aconteceu? Houve piora nos indicadores de estilo de vida. As pessoas pioraram a prática de atividade física, moderada a vigorosa, passaram a consumir mais alimentos industrializados e ultraprocessados, beberam mais, consumiram mais tabaco e pioraram seu estado de saúde mental. Então, apesar de todo mundo saber que ser saudável era uma proteção para ter formas menos graves da doença, o comportamento das pessoas foi o oposto. E outra coisa que chama a atenção: as pessoas que tinham doenças crônicas e não controladas tinham mais chance de ter formas graves da doença, mas observamos, na verdade, que esse grupo postergou o seu tratamento ou deixou de fazer o tratamento adequado. Então, houve uma contradição. Mais informações foram buscadas, mas a saúde não melhorou. Há uma oportunidade muito grande para as pessoas se cuidarem mais.

Agora, no pós-pandemia, está tendo um resgate de hábitos saudáveis? As pessoas estão voltando a fazer exames, check-up?

Leonardo Piovesan – Há alguns dados interessantes para comentar. O Ministério da Saúde indicou que, em 2021, só 17 % das mulheres que eram elegíveis para fazer mamografia fizeram o exame. Na saúde suplementar, segundo dados do painel de medicina da Abramed, em 2021 tivemos uma redução em torno de 38% na realização de sangue oculto nas fezes, que seria um exame para rastreamento do câncer de intestino, em 34% nas colonoscopias, que também são exames indicados para o rastreamento, 28% nas mamografias, isso na saúde suplementar e 24% no Papanicolau. Então, assim, de fato, durante a pandemia, a gente teve uma postergação disso. Mas, atualmente, um estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) mostrou que, no caso da mamografia, por exemplo, ainda não atingimos os níveis que tínhamos em 2016 na saúde suplementar, então ainda não estamos nos níveis pré-pandêmicos. Isso mostra que as pessoas ainda não retomaram e não ampliaram esse nível de cobertura. A OMS fala, por exemplo, que no caso do rastreamento de mamografia, o ideal seria que 70% da população elegível fizesse esse exame, e estamos bem distantes desse número.

Boa parte das pessoas sabe a importância de se fazer exames e buscar diagnóstico, mas antes de entrar nos detalhes, acho que vale explorar aqui o conceito disso. O que se considera um check-up hoje?

Leonardo Piovesan – O check-up é uma avaliação abrangente, holística, do estado de saúde do indivíduo, do paciente, buscando identificar fatores de risco de possíveis adoecimentos, doenças em seu estágio assintomático ou pré-clínico, ou doenças que o paciente já tenha e desconhece e precisa já começar um tratamento. Além disso, o check-up é uma excelente oportunidade para se trabalhar a prevenção e a promoção à saúde. Então, hoje, por exemplo, falando da jornada de check-up do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, dividimos em três momentos: check-in, o check-up propriamente dito e o check-out. O check-in é uma fase pré-realização dos exames e das consultas, feito em até 72 horas antes do check-up, onde são avaliados fatores de risco através de questionários validados pela literatura científica. Então, avalio ali risco de adoecimento de saúde mental, avalio o estilo de vida, os hábitos alimentares e também já consigo avaliar o risco, por exemplo, de desenvolver diabetes ou doenças cardiovasculares nos próximos dez anos. Com base nesse check-in, o indivíduo vai para o check-up, que é aquele dia em que ele dedica normalmente em torno de cinco horas para realizar um conjunto de exames laboratoriais, de imagem, testes funcionais e consultas. Todo esse protocolo é baseado em evidência, em literatura e pesquisa, porque sabemos que as pessoas fazem uma confusão.

Elas acham que quanto mais exames fizerem, quanto mais médicos visitarem, mais saúde terão. Essas análises precisam ser baseadas em evidência, precisam de comprovação, de qualidade, não excesso.

E como é esse momento do check-up?

Leonardo Piovesan – O paciente passa por toda uma bateria de avaliações, conduzida por especialistas. Sempre contamos com a presença de um clínico que desempenha o papel de orquestrador, sendo o primeiro contato para avaliar todos os aspectos mencionados. Ele também realiza a avaliação da qualidade do sono e da situação vacinal do paciente. Além disso, avaliamos a parte osteomuscular, permitindo a observação da força muscular e da marcha do paciente. Se o paciente for idoso, é essencial avaliar se ele apresenta risco de quedas. Essa abordagem é altamente personalizada. Após essa etapa, o paciente é submetido a avaliações psicológicas e nutricionais. Posteriormente, homens passam por uma consulta com o urologista, enquanto as mulheres têm a consulta com o ginecologista. A saúde ocular e auditiva também é avaliada. Após a conclusão dessa avaliação completa e abrangente do paciente, seguimos para o momento do check-out, feito em até 10 dias após a realização do check-up, onde todos os resultados são consolidados e uma conclusão sobre o estado de saúde, fatores de risco e doenças existentes é estabelecida. A partir desse ponto, fornecemos ao paciente um conjunto de recomendações. Em resumo, o check-up é uma jornada completa e personalizada, abrangendo todas essas avaliações, para garantir a saúde do indivíduo.

E quem precisa fazer esses exames? Qual a periodicidade ideal?

Leonardo Piovesan – O check-up é benéfico para todos, sendo indicado desde a infância, como no caso da puericultura, que já representa um tipo de check-up para crianças. Naturalmente, a recomendação varia de acordo com cada fase da vida. Para os adultos, a frequência dependerá da idade e do gênero de cada indivíduo. Mas, em geral, sugerimos que os pacientes passem por essa avaliação pelo menos uma vez ao ano. Alguns exames não precisam ser realizados anualmente. Em certos casos, a periodicidade pode ser bienal, ou mesmo uma única vez, como a colonoscopia, que, geralmente, é recomendada a cada 10 anos de acordo com as diretrizes. Portanto, a frequência é determinada pelos fatores de risco específicos.

Qual o perfil do público na instituição?

Leonardo Piovesan – No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o perfil é, majoritariamente, formado por executivos de empresas. As empresas costumam contratar o pacote de check-up para seus quadros executivos. Atendemos alguns clientes de planos de saúde e também particulares, mas a maioria é composta por executivos corporativos. E, levando em consideração a agenda apertada e complexa que esses profissionais costumam ter, a conveniência de realizar todas as avaliações em um único dia e receber uma avaliação abrangente no mesmo dia é um grande atrativo.

E qual a importância de coordenar esse cuidado, de saber direcionar o indivíduo, e onde o check-up se enquadra nesse contexto?

Leonardo Piovesan – Dentro do contexto da saúde populacional, que é a minha principal área de atuação, a coordenação do cuidado é algo extremamente estratégico. Países com sistemas de saúde bem estruturados, com foco no acesso pela atenção primária, destacam-se por sua eficiente coordenação do cuidado. Quando conseguimos estabelecer um cuidado coordenado, percebemos que a jornada do paciente se torna mais eficaz, evitando desperdícios, apresenta melhores desfechos e, frequentemente, resulta em maior satisfação por parte do paciente, pois ele é direcionado para o cuidado adequado. No contexto do check-up, vejo-o como um exemplo de coordenação do cuidado. Por quê? Apesar de envolver várias etapas, todo o processo é cuidadosamente orquestrado, organizado e centralizado, principalmente na figura do clínico. O clínico atua de forma semelhante a um médico de atenção primária ou um médico de família, avaliando a jornada completa do paciente, oferecendo orientações e realizando um acompanhamento. Portanto, mesmo que o paciente passe por diferentes especialidades durante o check-up, como ginecologista, dermatologista, oftalmologista e cardiologista, há alguém que enxerga o quadro como um todo, garantindo um encerramento coerente. E essa coordenação do cuidado não se limita apenas ao dia do check-up. Atualmente, oferecemos aos pacientes um acompanhamento contínuo. Antes de sua próxima consulta de check-up, nossa equipe mantém interações com o paciente para garantir que ele esteja seguindo as tarefas e orientações prescritas, de modo a facilitar seu envolvimento no cuidado de sua saúde, seguindo a lógica da navegação do cuidado.

Então uma equipe continua monitorando esse paciente do check-up?

Leonardo Piovesan – O paciente segue recebendo atenção contínua, e em casos mais críticos, como quando identificamos uma lesão suspeita na mama durante o rastreamento, que envolve a realização de mamografia, direcionamos imediatamente o paciente para um centro de especialidades específico. Lá, ela passa pela avaliação do mastologista e, se necessário, realiza uma punção, saindo do centro com o diagnóstico e um plano de tratamento definido. Portanto, existe uma continuidade ininterrupta nesse cuidado. Do meu ponto de vista, a coordenação do cuidado é extremamente estratégica para a saúde suplementar. No entanto, ainda existem barreiras dentro desse modelo que contribuem para a fragmentação e o desperdício. Por exemplo, há dados que revelam que muitos exames realizados pelos pacientes nem sequer são retirados ou analisados nos laboratórios, representando uma taxa de não utilização de 20% a 30%. Esse desperdício é evidente quando um médico solicita o mesmo exame que um colega da mesma especialidade já havia pedido anteriormente.

Quando há alguém coordenando o cuidado de forma abrangente e gerenciando o sistema de saúde, torna-se mais sustentável e os resultados são melhores.

Sobre a tendência da medicina personalizada, isso se aplica no contexto de check-up?

Leonardo Piovesan – Atualmente, o check-up é altamente personalizado e adota uma abordagem voltada para a medicina de precisão. Não se trata de aplicar a mesma bateria de exames para todos indiscriminadamente. Por exemplo, sabemos que pessoas com mais de 50 anos que foram fumantes ou ainda são fumantes devem realizar, a partir dessa idade, uma tomografia de tórax de baixa dosagem para rastrear nódulos que, eventualmente, poderiam ser malignos e desencadear o desenvolvimento de câncer de pulmão. No entanto, esse tipo de exame não é indicado para todos. Uma pessoa de 50 anos que não apresenta nenhum dos fatores de risco mencionados não precisa desse exame. Não faz sentido submeter-se a uma tomografia de tórax sem critérios, como se fosse parte de um check-up padrão. Outro exemplo de personalização diz respeito ao rastreamento ou à realização de marcadores genéticos para câncer de mama e ovário, como os conhecidos BRCA1 e BRCA2. Novamente, não é apropriado realizar esses marcadores em todas as pessoas. Esse é um exame caro e dispendioso, portanto, deve ser realizado com critério. É necessário fazer uma avaliação de risco e uma consulta com um geneticista para determinar se o exame é apropriado para o paciente. É fundamental frisar isso, pois, recentemente, surgiu a moda da ressonância do corpo inteiro, com alguns famosos divulgando em redes sociais que essa é a essência de um check-up.

E não é, certo?

Leonardo Piovesan – Essa abordagem é problemática, pois além de não haver indicação para pessoas assintomáticas, ela pode levar à identificação de achados em exames que são normais, gerando procedimentos invasivos desnecessários. Por vezes, você pode encontrar uma lesão suspeita em um exame, que na verdade é um achado de exame normal. Isso gera dúvidas tanto para o paciente quanto para o médico, levando à recomendação de procedimentos invasivos para investigação. No final, acaba sendo apenas uma lesão benigna. Portanto, a personalização e a solicitação de exames de acordo com os riscos identificados são fundamentais para evitar essas situações indesejadas.

Os avanços tecnológicos, como telemedicina e inteligência artificial, chegaram também nessa área de check-ups?

Leonardo Piovesan – Atualmente, na jornada do check-up, já incorporamos a telemedicina. Realizamos o check-out, que é a consulta de fechamento do check-up, via telemedicina. Isso se deve ao fato de recebermos muitos pacientes de outros estados que vêm especificamente para realizar seus exames e procedimentos no mesmo dia, o que, por sua vez, encurta as distâncias. Além disso, a telemedicina simplifica a agenda dos clientes, que são executivos, diretores e gerentes de grandes empresas. Hoje, a telemedicina faz parte integrante da nossa realidade. Quando se trata de inteligência artificial e aprendizado de máquina, atualmente, estamos colaborando com a nossa área de inovação hospitalar em um projeto que utiliza os dados do check-up. O que buscamos com esse projeto? Possuímos uma rica base de dados, já que o check-up do Hospital Alemão Oswaldo Cruz é um dos mais antigos e tradicionais, com mais de 30 anos de existência. A ferramenta que estamos desenvolvendo analisa todos esses dados, criando uma pontuação de saúde tanto para o indivíduo quanto para a empresa. Essa pontuação é gerada a partir de algoritmos e inteligência artificial e até incorpora dados que são, muitas vezes, de difícil acesso, dado o cenário complexo da coleta de dados em saúde. Ele utiliza informações até mesmo registradas de forma livre pelos médicos nos prontuários. Qual é a vantagem desse score de saúde? Além de fornecer uma visão do estado atual de saúde, ele também avalia os riscos individuais e, para as empresas, oferece modelos de previsão, como a sinistralidade. Isso significa que podemos prever os custos assistenciais futuros com base nos comportamentos atuais.

Dessa forma, podemos estabelecer parcerias com as empresas, sugerindo soluções e programas para melhorar o cuidado de suas populações e reduzir os custos com assistência médica.

Isso já está funcionando?

Leonardo Piovesan – Nesse mês já começamos a aplicar. Está rodando.

E como a questão de saúde mental está sendo olhada quando falamos de check-up?

Leonardo Piovesan – Como mencionei, nosso público principal é composto por profissionais de organizações e empresas. Hoje, para as empresas, a saúde mental é o equivalente ao que costumava ser, há 10 ou 20 anos, as lesões por esforço repetitivo (LER) e bursites. Atualmente, as doenças mentais representam a segunda maior causa de afastamento nas empresas. Portanto, o nosso check-up avalia o estado de saúde mental, identificando diagnósticos muitas vezes ocultos nessa área. Frequentemente, as pessoas sofrem de doenças mentais sem sequer saber disso. No check-up, além de rastrear indicadores de depressão, ansiedade, burnout e uso abusivo de álcool por meio de questionários, conseguimos calcular se há risco ou doença. No dia do check-up, os pacientes passam por uma avaliação com um psicólogo para aprofundar esses questionários e, se necessário, recebem orientações para cuidados apropriados. Em termos populacionais, fornecemos dados agregados às empresas, apresentando as prevalências e porcentagens de diagnósticos, mas sem divulgar a identidade das pessoas. Atuamos como parceiros das empresas, oferecendo soluções para desenvolver estratégias de saúde mental. Algumas estratégias bem-sucedidas que implementamos com algumas organizações incluem a capacitação de líderes para promover ações voltadas para a saúde mental de suas equipes. Durante a pandemia, desenvolvemos uma estratégia chamada “socorrista em saúde mental”, semelhante à ideia de brigadistas contra incêndios. Esses socorristas em saúde mental são profissionais que, mesmo sem formação em saúde, são treinados para identificar sinais e sintomas de sofrimento mental em colegas ou clientes e agir em situações de crise, como um brigadista em um incêndio. Eles são treinados para acolher, ouvir e encaminhar para o cuidado adequado, ajudando a identificar sinais de sofrimento emocional em colegas, como alguém mais recluso, chorando ou com uma respiração acelerada. Essa estratégia tem se mostrado bastante eficaz.

Qual a importância dessa capacitação?

Leonardo Piovesan – Então, a capacitação desses líderes e a formação de socorristas em saúde mental é uma realidade. Introduzimos essa prática no hospital em 2020, mas ela já existe em outros países, como Canadá, Inglaterra e Austrália. No Canadá, por exemplo, já existem mais de 50 mil socorristas em saúde mental. Essa estratégia é bastante eficaz, pois permite que as empresas formem equipes que atuam na identificação de pessoas que estão enfrentando problemas emocionais. Essas equipes podem encaminhar essas pessoas para o cuidado necessário, seja dentro da empresa ou para serviços de saúde. É uma estratégia realmente interessante que pode ter um impacto positivo nas organizações.

Nestes últimos anos as empresas estão se interessando mais em olhar para a saúde dos colaboradores. Como você vê esse cenário na prática?

Leonardo Piovesan – Esse é um tópico bem concreto. De acordo com uma pesquisa global da AON, mais de 80% das empresas entrevistadas em todo o mundo incluem a saúde e a qualidade de vida de seus funcionários em suas estratégias. Isso representa um aumento de cerca de 25 pontos em comparação com o período anterior à pandemia. É evidente que as organizações estão cada vez mais preocupadas com a saúde de seus colaboradores. Durante a pandemia, ficou claro que as empresas que tinham estratégias de saúde mais desenvolvidas e compreendiam a saúde de sua população tiveram resultados melhores com seus colaboradores.

Atualmente, essa preocupação é visível em várias organizações, principalmente nas grandes e médias empresas. No entanto, ainda há muito a ser feito no Brasil nesse sentido.

A tendência do ESG colabora com isso?

Leonardo Piovesan – Essa preocupação se tornou estratégica para as organizações por diversos motivos. O movimento do ESG (Ambiental, Social e Governança) também ajuda nesse cenário, pois engloba as pessoas, saúde e qualidade de vida. Isso também envolve os determinantes sociais da saúde, com o trabalho sendo um deles. Se conseguirmos estabelecer uma boa relação entre o trabalho e a vida pessoal, o ambiente de trabalho pode se tornar uma plataforma para promover a saúde das pessoas. Muitas empresas ainda veem hoje a medicina de trabalho como a saúde ocupacional tradicional, que costuma ser vista como procedimentos burocráticos. No entanto, aquelas que transformam a medicina ocupacional em uma abordagem de gestão da saúde populacional estão colhendo resultados significativos. Isso inclui melhorias na qualidade de vida da população, sustentabilidade e redução de custos com assistência médica, além de melhorias na saúde geral das pessoas. O Hospital Alemão Oswaldo Cruz, por exemplo, iniciou essa transformação em 2010 e obteve resultados substanciais em sua própria saúde corporativa. O sucesso desse processo levou à oferta desse modelo como um produto para as empresas. Investir em saúde dá retorno. Existem vários dados sobre isso. De acordo com estudos da Universidade de Harvard, a cada dólar investido em promoção da saúde e qualidade de vida no trabalho se economiza quatro dólares em custos relacionados a doenças. A dificuldade ainda é avançar nas pequenas empresas ou no trabalho informal.

Tudo isso que falamos se conecta de alguma forma com a questão de longevidade. Como aumentar o cuidado com a saúde pode impactar esse cenário?

Leonardo Piovesan – A longevidade está intimamente relacionada à saúde. Quando você é saudável, você vive mais e desfruta de uma qualidade de vida melhor. Quando discutimos os determinantes da saúde, percebemos que 50% deles estão relacionados a quê? Aos nossos hábitos e estilo de vida. Outros 20% são determinados pela nossa genética, que não é modificável. Outros 20% são influenciados por fatores ambientais, e somente 10% são atribuídos ao acesso à assistência médica. Isso fica evidente ao observar que países que gastam muito em saúde não necessariamente têm a melhor saúde, como é o caso dos Estados Unidos, onde quase 20% do PIB é destinado à saúde, mas a qualidade de vida e a saúde da população não são impressionantes. Portanto, considerando que 50% de nossa saúde depende de nossos hábitos e estilo de vida, que são modificáveis, a oportunidade está aí. Podemos realmente prevenir doenças, adotar uma alimentação saudável, gerenciar o estresse e garantir um sono adequado. Há ainda dois fatores essenciais para a longevidade: manter relacionamentos duradouros e encontrar um propósito na vida. Trabalhar tudo isso indica pode melhorar a qualidade de vida. E investir em exames preventivos, como o check-up, está alinhado com a busca por uma longevidade saudável.

E isso é um pouco o contrário do que a sociedade tem feito hoje.

Leonardo Piovesan – Exatamente. Como mencionei no início, apesar das lições da pandemia, ainda não aprendemos totalmente. De fato, muitos de nós pioraram nossos hábitos de vida em vez de melhorá-los. No entanto, temos uma oportunidade de cuidar de nós mesmos e adotar um estilo de vida mais adequado. Porque, embora não saibamos quando, sabemos que enfrentaremos outras pandemias no futuro. Quando cuidamos de nós mesmos e adotamos um estilo de vida saudável, ficamos mais bem preparados para enfrentar esses desafios. Isso é uma realidade que foi claramente demonstrada.

Falando sobre futuro, o que esperar dos check-ups, das promessas da área, de possíveis transformações e afins?

Leonardo Piovesan – As tecnologias estão se tornando aliadas essenciais na área da saúde. É importante ressaltar que elas nunca substituirão o cuidado médico ou a equipe de saúde, mas desempenham um papel crucial, especialmente no monitoramento de doenças. Hoje em dia, temos dispositivos que podem monitorar sinais vitais, glicemia e pressão arterial. Isso é de grande ajuda no acompanhamento de doenças crônicas, que estão cada vez mais associadas ao processo de envelhecimento. Além disso, quando alcançarmos a interoperabilidade dos dados, conectando esse monitoramento com hospitais e ambulatórios, teremos uma visão global muito mais rica da saúde das pessoas. Isso abrirá portas para a aplicação de inteligência artificial e algoritmos, o que pode ajudar a identificar o tratamento mais adequado, o estilo de vida ideal e a adesão ao medicamento. A tecnologia é e continuará sendo extremamente importante no campo da saúde. Embora ainda não seja acessível para todos, acredito que, com o tempo, ela se tornará mais disponível, e as empresas de seguros de saúde e operadoras provavelmente a oferecerão como parte do cuidado com a saúde, auxiliando no tratamento, acompanhamento preventivo e muito mais.

Algum recado final?

Leonardo Piovesan – A mensagem fundamental é que 50% de nossa saúde está relacionada ao nosso estilo de vida. Portanto, é vital que todos reflitam, considerem o autocuidado como prioridade e se tornem agentes ativos dessa transformação. Isso inclui adotar um estilo de vida saudável, realizar exames com a periodicidade adequada de acordo com a faixa etária e seguir as orientações de profissionais de saúde. Com base nisso tudo, podemos ter uma vida mais saudável e com maior qualidade, o que, por fim, se traduz em longevidade, a palavra-chave desta discussão.