‘Kit Covid’, spray de Israel, corticoides, remdesivir… O que a ciência diz sobre os tratamentos para Covid-19?

Ao longo da pandemia muita desinformação foi propagada. As fake news levaram as pessoas a acreditar que existiam tratamentos preventivos, mesmo sem comprovação científica

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Desde o primeiro caso no Brasil, registrado em fevereiro do ano passado, alguns medicamentos já surgiram como uma tentativa de tratar ou prevenir a Covid-19.

O fato é que após a confirmação do diagnóstico, em casos leves, a recomendação médica é isolamento, repouso, hidratação e uma alimentação adequada. O uso de medicamentos também pode ser uma estratégia para alívio de sintomas como febre, por exemplo. Já em casos graves, em que há internação, os médicos podem recorrer ao uso de outras estratégias pontuais como corticoides (para desinflamar o pulmão) e anticoagulantes (limita sangramentos e impede tromboses). Embora já sejam utilizados, o uso desses medicamentos exige cautela. Estudos estão sendo feitos para analisar qual a dosagem e o tempo de uso ideal para os infectados pela Covid-19 em casos moderados e graves.

Ao longo da pandemia muita desinformação foi propagada. As fake news levaram as pessoas a acreditar em tratamentos preventivos, utilizando medicamentos que foram apenas sugeridos como eficazes, mas que dependiam de mais confirmações científicas. 

Antes de avançar sobre o que a ciência já identificou em relação à Covid, é preciso reforçar que remédios e vacinas possuem funções diferentes:

No caso das vacinas contra a Covid-19, o objetivo principal é evitar a agravamento do quadro, diminuindo o risco de hospitalização ou morte. Enquanto a vacinação não está disponível em larga escala no país, a adoção das medidas já conhecidas, como distanciamento social e uso de máscaras, são as recomendadas pelas autoridades de saúde para conter a disseminação.

O médico infectologista e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Dr. Marcelo Simão, explicou para o Futuro da Saúde porque é tão difícil encontrar um medicamento certeiro contra a Covid-19:

“Não é fácil encontrar um medicamento para um vírus que você conheceu agora. É preciso testar remédios que já existem. A pesquisa de uma nova sustância pode levar muitos anos”. 

Para encontrar um remédio, os laboratórios testam diversas substâncias e a grande maioria não demonstra atividade com o vírus ou bactéria desejado. Quando finalmente encontram uma que se mostra promissora, os cientistas devem provar que a droga não é tóxica para uso, o que é feito realizando estudos com muitos pacientes.

“Por isso, no ano passado, houve uma tentativa de investigar se algum dos remédios existentes – como a cloroquina e a ivermectina – eram eficazes. No tubo de ensaio sim, mas no paciente não”, conclui o médico.

Veja na lista abaixo o que se sabe sobre os medicamentos mais falados atualmente:

Medicamentos conhecidos

  • Ivermectina 

Um dos medicamentos mais falados atualmente, a Ivermectina é um remédio antiparasitário, usado para o tratamento de pessoas e animais. No Brasil, ela costuma ser prescrita contra piolho e sarna. 

Em testes de laboratório, a substância demonstrou ser capaz de matar o vírus da Covid-19. Contudo, as doses usadas em laboratório são muito altas para o corpo humano. Em doses menores e seguras para as pessoas, esse medicamento é incapaz de matar o vírus. 

As consequências de aumentar a dose do medicamento podem ser dramáticas, seja aumentando a quantidade de comprimidos por dia ou tomando mais dias do que o estipulado para esse medicamento.

“A dose normal de Ivermectina [para o uso aprovado] são dois comprimidos por dia, o pessoal está usando doze, quatorze comprimidos por dia. Não é seguro você aumentar a dose, tem gente precisando de transplante de fígado depois de tomar essas doses”, comenta o infectologista.

A Agência Europeia de Medicamentos declarou que não aconselha o uso do medicamento para o tratamento de infecções por Covid-19. Em nota, explicou que uma revisão dos dados disponíveis foi realizada e que não há recomendação para essa finalidade. “Embora a ivermectina seja geralmente bem tolerada em doses autorizadas para outras indicações, os efeitos colaterais podem aumentar com as doses muito mais altas que seriam necessárias para obter concentrações de ivermectina nos pulmões que sejam eficazes contra o vírus. A toxicidade quando a ivermectina é usada em doses superiores às aprovadas, portanto, não pode ser excluída”, disse a Agência Europeia de Medicamentos em nota. 

  • Cloroquina

A cloroquina é um medicamento utilizado para o tratamento de malária. Já foi testada para o vírus da dengue, para o novo coronavírus e para muitos outros patógenos, mas não obteve sucesso em nenhum.

Em laboratório, a cloroquina também demonstrou ser promissora mas, assim como a ivermectina, os testes foram abandonados pois a dosagem capaz de matar esses vírus é tóxica para os seres humanos. 

“O único bicho que ela mata é o parasita da malária, outros patógenos não. Apesar das evidências, as pessoas continuam insistindo, dizendo que ela seria uma boa opção, mas não é”, explica Simão. 

De acordo com o infectologista, o medicamento pode aumentar o risco de eventos cardiovasculares em pacientes que a utilizam contra a Covid-19: “A Sociedade Brasileira de Infectologia, do qual eu já fui presidente, não indica o uso de cloroquina”.

Recentemente, as farmacêuticas fabricantes da cloroquina declararam que o medicamento não apresenta ação sobre a Covid-19. “Doses muito altas podem aumentar a ocorrência de hepatite medicamentosa. E temos visto casos relacionados ao uso”, conclui o médico.

  • Hidroxicloroquina

Apesar do nome similar, hidroxicloroquina e cloroquina não são o mesmo medicamento. Ambas são utilizadas para tratar casos de malária e são ineficazes no combate contra o coronavírus. Entretanto, a hidroxicloroquina também é usada no tratamento de doenças autoimunes. 

Assim como outros medicamentos citados nesta matéria, os resultados promissores deste medicamento estão restritos ao tubo de ensaio. Há 11 meses a farmacêutica Apsen, fabricante do medicamento Reuquinol que contém hidroxicloroquina, declarou que não recomenda o medicamento no tratamento do novo coronavírus.

  • Remdesivir

Recentemente aprovado pela Anvisa, o Remdesivir é um medicamento antiviral que foi desenvolvido originalmente para combater o ebola.

Para a aprovação, a Anvisa se baseou em estudos que demonstraram haver redução no tempo de hospitalização ao utilizar esse remédio. Contudo, essa decisão entra em divergência com a Organização Mundial de Saúde (OMS), que não aconselha o uso do Remdesivir. 

Segundo os estudos analisados pela OMS, o medicamento não foi capaz de evitar mortes e nem de impedir o agravamento da doença. O custo e efeitos colaterais também corroboraram para que a organização não recomende o remdesivir.

  • Dexametasona

A dexametasona é um medicamento do tipo corticoide, atua diminuindo as inflamações e é utilizada em diversos tratamentos, como asma, alergias intensas, reumatismo e entre outras.

A OMS só recomenda o uso deste medicamento em pacientes que estão recebendo ajuda respiratória, como ventilação mecânica e oxigênio — e não deve ser usado de forma precoce. Os especialistas alertam que o tempo de uso e doses devem ser respeitadas, pois ainda não se sabe se o aumento da dosagem em casos graves seria benéfico para os pacientes.

Medicamentos em estudo

Alguns medicamentos ainda estão em fase de estudo, mas já demonstraram alguma atividade e, dependendo dos resultados, podem trazer alternativas para os pacientes no futuro. Veja abaixo os principais remédios em estudo:

  • Molnupiravir

Medicamento antiviral feito para o tratamento de gripe que se mostrou promissor no combate ao coronavírus. Atualmente está sendo estudado pela Universidade Federal do Paraná e pela Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Os resultados preliminares devem sair ainda no primeiro semestre de 2021.

  • Spray EXO-CD24

Desenvolvido em Israel, o remédio em spray tem aumentado as expectativas quanto ao combate do novo coronavírus. Além de ser prático e pouco invasivo, devido a seu formato, a substância promete tratar a infecção em poucos dias.

Recentemente, houve uma missão brasileira no país para discutir sobre a fase 3 dos estudos do medicamento, no qual o Brasil fará parte. A fase 3 corresponde a parte final de um estudo, quando ele é testado em centenas de pessoas.

  • Nitazoxanida

Outro medicamento que já foi alvo da desinformação, a nitazoxanida é um medicamento antiparasitário e antiviral. Ainda em estudo, a fase 1 demonstrou que esse medicamento pode agir contra o coronavírus, mas os testes ainda não foram feitos em pessoas, somente em tubo de ensaio. Portanto, não há evidência ainda de que é seguro utilizá-lo.

Outros tratamentos

Um tratamento diferente e que tem se mostrado promissor são os anticorpos monoclonais, uma forma de terapia que pode atuar na prevenção e no tratamento ao estar contaminado. Consiste no uso de anticorpos de alguém que tenha se curado da infecção de Covid-19, feito através da coleta de sangue e copiadas sinteticamente em laboratório.

Enquanto a vacina estimula a criação de anticorpos no organismo, os anticorpos monoclonais já estão prontos para combater o invasor assim que entra no corpo do indivíduo. Essa alternativa ainda em estudo tem se mostrado promissora em casos iniciais de Covid-19, mas não em casos moderados ou graves.

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