A ‘quarta onda’ e estratégias de Israel contra a Covid-19

Ao longo da pandemia da Covid-19, Israel chamou atenção pela forma como lidou com a crise e seus avanços, tanto no combate ao vírus quanto no campo científico.

236
Na imagem, panorama vista de cima de cidade em Israel.

Israel tem se destacado ao longo da pandemia da Covid-19 devido às suas estratégias de proteção e avanços na ciência. O país ganhou notoriedade com o desenvolvimento de um medicamento em spray contra o novo coronavírus — com ensaios clínicos realizados em parceria com o Brasil —, e por ser um dos primeiros a vacinar sua população. Além destes pontos, os israelenses também acabaram chamando a atenção das pessoas por ser uma das primeiras nações a voltar à vida “normal”, sem restrições ou máscaras.

Para entender os detalhes do enfrentamento do coronavírus no país, Futuro da Saúde conversou com Daniel Schmit, CEO do Instituto Weizmann na América Latina. O centro é responsável por estudos multidisciplinares e ganhou destaque durante a crise sanitária devido a projeções epidemiológicas, pesquisas no campo da neurociência e outros.

Atualmente Israel vive sua quarta onda de Covid-19. Por isso, “falar que tivemos sucesso é relativo”, pontua Daniel Schmit. Recentemente, o país ultrapassou a marca de 7 mil mortos pelo coronavírus, dentre uma população de 9 milhões de pessoas. Além disso, até a primeira semana de setembro foi visto o momento mais alto da 4ª onda. Agora, a expectativa é que nestas próximas semanas o número volte a cair. Conheça os principais destaques do enfrentamento da pandemia por Israel, além de um retrato do momento atual.

Terceira dose

A campanha de vacinação já está em sua terceira fase no país. O avanço na imunização permitiu que observassem que os vacinados estão até 15 vezes mais protegidos do que quem não se vacinou. Em outras palavras, aqueles que completaram o esquema vacinal estão menos propensos a desenvolver casos graves de Covid-19.

Israel é um dos países com a população mais vacinada do mundo. Partindo dos 12 anos de idade, cerca de 64% já tomou a primeira dose, 59% já está na segunda dose e 23% na terceira dose. Apesar disso, a vacinação não é obrigatória no país. Segundo Schmit, estima-se que 950 mil pessoas que poderiam se vacinar — isto é, não possuem contra-indicação médica e não são barrados pela faixa etária — optaram por não imunizar-se.

“Hoje entendemos que não é possível obter uma imunidade de rebanho“, explica Daniel. A aguardada imunidade coletiva que esperava-se alcançar com os 70% de vacinação deixou de ser uma possibilidade, devido à facilidade de contágio do novo coronavírus e as novas variantes.

Uso de máscaras obrigatório

Há alguns meses, os israelenses interromperam o uso de máscaras praticamente por completo. Era possível ver muitas pessoas circulando sem elas, inclusive em locais fechados como mercados e escolas. Após a terceira onda, Israel registrava cerca de 5 mortes diárias por Covid-19 e assim, o governo deixou de considerar uma medida obrigatória. Agora, no entanto, o uso de máscaras voltou a ser obrigatório.

A vida sem restrições durou pouco, pois os cientistas compreenderam que, com o coronavírus, essa forma de proteção será necessária em momentos menos e mais graves. Enquanto os outros coronavírus que causaram epidemias desapareceram com os anos — por razões ainda desconhecidas —, ainda é incerto se o mesmo pode ocorrer com o SARS-CoV-2. A variante Delta é mais contagiosa e por isso pode acarretar em mais casos de infecção. Por outro lado, isso não significa que a doença será mais grave.

Saúde mental

Segundo Schmit, a saúde mental é um dos assuntos que mais preocupa os israelenses neste momento. O Instituto Weizmann começou um estudo para avaliar o impacto mental da pandemia na população. Através de um questionário digital respondido por cerca de 5 mil pessoas, os cientistas observaram que o sofrimento psíquico foi menor durante a crise sanitária, quando comparado aos tempos de guerra e operações militares. 

Mesmo assim, o medo é elevado e ele está associado ao receio da morte, seja por si ou pelos outros. Há ainda o estresse daqueles que não conseguem se desconectar do trabalho e crianças que não suportam a ideia de chamadas de vídeo. Esses elementos têm preocupado os especialistas por aumentar a incidência de transtornos mentais.

Junto a essa constatação, está o fato de que mulheres, jovens adultos e pessoas desempregadas foram os grupos que mais passaram a apresentar mais sintomas de mal-estar mental, incluindo sinais fisiológicos e comportamentais. Para solucionar essa questão, as mulheres afirmam buscar por apoio emocional em seus relacionamentos, enquanto os idosos recorrem à atividade física e à meditação.

Os resultados do levantamento foram publicados na revista Molecular Psychiatry e chegou à conclusão de que o estresse emocional está associado ao aumento da frequência cardíaca e a distúrbios do sono.

Confiança da população

“Durante a pandemia houve uma grande crise de confiança: em quem podemos confiar? Esse foi o primeiro ponto. Hoje em dia temos mais claro de quem deve definir isso, mas até hoje existem diferentes vozes na pandemia. No início a OMS dizia que não era necessário usar máscaras ou fechar fronteiras. E era muito claro que precisávamos usar máscara, mas não havia o suficiente”, conta Daniel Schmit.

Para que sua população compreendesse quais orientações seguir para proteger-se, era necessário que as autoridades políticas e científicas conseguissem entrar em um consenso sobre a situação. Por um tempo, isso foi um desafio. Schmit explica que a estratégia para nortear a população em Israel foi de mostrar as diferentes projeções de como a pandemia poderia se desenvolver. Entre as possibilidades da pandemia, estavam projeções de contágios, infecções, hospitalizações e mortes pensados por epidemiólogos, matemáticos, médicos, políticos, entre outros.

Fechamento de fronteiras

Inicialmente, Israel tomou medidas que destoavam dos demais países e até mesmo da Organização Mundial da Saúde, como o fechamento de fronteiras. No país, Schmit conta que “uma das primeiras reações foi fechar as fronteiras do país para estrangeiros e depois para os próprios israelenses”. “Essa decisão de fechar tudo foi muito forte, diante de uma situação desconhecida. Até hoje as fronteiras para os estrangeiros estão fechadas.”

“Em Israel nós fechamos os aeroportos imediatamente logo que soubemos, mas aqui trata-se de um país muito pequeno”, diz o CEO do instituto na América Latina. Por esta razão, aplicar soluções poderia ser algo mais rápido do que países de longa extensão e população, como o Brasil. Mesmo assim, “há países que não fecharam nada. Os que fecharam claramente se protegeram da entrada do vírus na população”.

Resposta rápida e método

A rapidez das decisões foi outro tópico importante, mas, após essa etapa, é preciso adotar e manter os métodos. No que se refere às comparações entre países e o que podemos aprender com Israel, Daniel acredita que a grande pergunta a ser feita pelas pessoas é refletir sobre quais métodos foram escolhidos por cada um. Houve a valorização do isolamento? Do uso de máscara? Da vacinação? Ou só de alguns?

Schmit responde que “Israel escolheu todos”. Motivo que levou a população à níveis elevados de estresse, “mas que foi importante para conter o número de mortos”, completa. “Não fomos os melhores do mundo no combate contra a Covid-19 e ainda não sabemos dizer qual o melhor modelo, mas nós tivemos um bom resultado até e acredito que tentar diversas formas de proteção foi o que ajudou”, conclui o CEO.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui