Intervenções digitais na saúde mental de jovens são promissoras, mas precisam de mais evidências, aponta estudo

Com a tendência de usar estratégias do mundo virtual para auxiliar na saúde mental, cientistas americanos revisaram diversos estudos para verificar se aplicativos, jogos, sites e redes sociais de fato são eficazes em ajudar jovens que lidam com questões psíquicas. Apesar do público aceitar bem esses métodos, as evidências mostram que eles são facilmente abandonados. Os cientistas apontam algumas soluções.

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Pesquisadores da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, realizaram uma meta-análise em que revisaram 18 pesquisas sobre a eficácia de aplicativos, jogos e outras tecnologias como forma de intervenção em saúde mental em jovens — que não são necessariamente consideradas terapias, mas podem auxiliar pessoas com transtornos mentais ou pelo menos incentivar a busca por um profissional. Eles concluíram que essas estratégias podem ser promissoras, mas as evidências sobre sua eficácia ainda são variadas.

Entre as modalidades analisadas, a terapia computadorizada — aulas interativas feitas pela internet onde se ensina os princípios da terapia cognitivo-comportamental — foi considerada como eficaz para jovens com ansiedade e depressão. Por outro lado, não houve conclusão sobre o uso de jogos terapêuticos, aplicativos, sites e redes sociais com ênfase em saúde mental. De acordo com os cientistas, o fato de muitos abandonarem essas estratégias depois de um certo período pode ter contribuído para a baixa eficiência.

Em geral, as intervenções que contavam com o envolvimento de algum profissional, amigo ou até mesmo um dos pais demonstraram maior adesão e eficácia do que os métodos puramente digitais. Além disso, esse mesmo fator foi associado à diminuição do abandono das intervenções.

Outra observação dos pesquisadores é que as medidas online podem contribuir como complemento para tratamentos tradicionais de saúde mental, mas eles apontam que é preciso de mais estudos, já que apenas uma pequena parcela das plataformas sejam baseadas em evidências. A análise foi publicada na revista JMIR Mental Health.

Contexto da saúde mental nos jovens

O estudo aponta que os problemas de saúde mental em jovens são subnotificados. Isso porque esse grupo social é ignorado por serviços e políticas públicas de saúde, segundo os cientistas. Eles reforçam também que os indivíduos de 10 a 24 anos são mais vulneráveis a condições prejudiciais para a saúde da mente.

Segundo dados da UNICEF, a cada ano 1 em cada 5 adolescentes passa por algum transtorno mental. Mesmo assim, muitos não conseguem receber ajuda, isso porque existem barreiras que impedem o acesso atendimento, diagnóstico e tratamento.

A pesquisa indica também que os 14 e 24 anos são as idades em que os transtornos mentais normalmente começam. O suicídio é a terceira principal causa de mortes no mundo, afetando homens e mulheres principalmente durante os 15 e 19 anos. A depressão é uma das principais causas de incapacidade dos 10 aos 19 anos.

Sem tratamento, os transtornos vivenciados podem persistir ao longo de toda a vida e até mesmo se agravar com o tempo. Nesse contexto, as intervenções digitais possibilitam que recebam algum auxílio e abrem a possibilidade de melhorar a situação.

Como foi a pesquisa

Os pesquisadores analisaram dados coletados dos repositórios MEDLINE, PubMed, PsycINFO e Cochrane do período de janeiro de 2010 e junho de 2020. Através dos métodos de revisão sistemática e meta-análise, estudaram as medidas digitais de intervenção na saúde mental de jovens dos 10 a 24 anos.

Um ponto observado é que mais de 90% das intervenções estudadas ocorreram em países de alta renda e que há pouca informação sobre o histórico dos participantes. Com isso, eles se preocupam quanto a generalização dos resultados, já que faltam informações sobre jovens de diferentes culturas, grupos étnicos-raciais e situações socioeconômicas.

A faixa etária analisada no estudo engloba também o grupo que mais está conectado a Internet, correspondendo a mais de 70% das pessoas de 15 a 24 anos. Nas regiões onde a localização geográfica e a renda podem afetar esse acesso, o número de usuários ainda é significante. Cerca de 43% dos indivíduos de países de média e baixa renda usam a Internet. Ainda quanto aos países de baixa renda, 72% da população possui acesso a telefones celulares e 16% a Internet.

Apesar da Internet poder expor os jovens a situações negativas, como bullying e exploração sexual, ou causar dependência comportamental e depressão, os cientistas acreditam que a aplicação de algumas medidas podem contribuir para a intervenção digital ter mais qualidade, já que o número de usuários nessa faixa etária é cada vez maior e a demanda por esse serviço é evidente, com a existência de cerca de 2 milhões de aplicativos médicos.

Soluções para a intervenção digital

Portanto, é importante buscar aprimorar esses serviços e, para isso acontecer, os cientistas recomendam a utilização de bases científicas para evitar danos; consultar o público-alvo em todas as etapas do processo de criação da plataforma ou jogo; além de buscar entender como os recursos virtuais se encaixam no sistema de saúde.

Entre os aspectos que os usuários jovens citaram como importantes para aceitar a intervenção digital, estão:

  • Anonimato e privacidade
  • Segurança de dados (incluindo profissionais moderando as plataformas)
  • Visual da plataforma
  • Qualidade e quantidade de informações e recursos oferecidos (sendo concisas, interessantes e confiáveis)
  • Mandar lembretes para o usuário
  • Permitir personalização
  • Oferecer personagens ou avatares relacionáveis
  • Refletir as diferenças geográficas, culturais e étnicas
  • Disponibilidade 24h

A procura por ajuda ocorre principalmente após as 23h, por isso a importância de um serviço seguro em período integral. Outro ponto que atrai os adolescentes e jovens é a possibilidade de uma intervenção flexível e independente, por oferecer maior autossuficiência e controle.

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