Inovação não é só pensar em produto, mas também está na forma de fazer negócios, diz Fabia Tetteroo-Bueno, CEO da Philips para América Latina

Primeira mulher a liderar a organização na região, executiva falou sobre quebras de paradigmas no setor, avanço da tecnologia e mudança nos modelos de negócios

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Entrevista com Fabia Tetteroo-Bueno, da Philips, sobre inovação

Inovação não significa apenas criar produtos tecnológicos, mas também está em desenvolver novas formas de pensar os negócios. No universo automotivo, por exemplo, os programas de assinatura de carros, em que se paga pela utilização e não pela aquisição dos veículos, têm ganhado popularidade. Qual será o novo modelo para o setor da saúde? Soluções em que hospitais e laboratórios pagarão por exames ou resultados — e não necessariamente pela compra de máquinas de diagnósticos — podem ser um caminho. Fabia Tetteroo-Bueno, CEO da Philips para América Latina, abordou esta tendência na Entrevista do Mês para Futuro da Saúde.

A executiva está há 23 anos na companhia e já passou por diversas áreas até chegar ao cargo máximo de liderança da empresa na região. Ela também falou sobre inteligência artificial, informatização do setor, inovação, como a Covid-19 tem acelerado alguns processos e afirmou ainda que estas discussões não são pauta exclusiva do Brasil, mas do mundo todo.

O Brasil, aliás, tem pontos positivos, como o SUS e as startups: “O que está acontecendo em startup no setor de saúde agora no Brasil, com essa discussão de ecossistema, não ocorre em outro lugar do mundo. Acho que surgirão ideias bem legais”. Confira os principais trechos da entrevista.

Entrevista com Fabia Tetteroo-Bueno, da Philips, sobre inovação

Em termos de tecnologia, quais são as próximas evoluções na saúde e onde está o foco da Philips no campo de pesquisa e desenvolvimento?

Fabia Tetteroo-Bueno – Estamos investindo muito na América Latina em duas áreas. Uma delas tem como objetivo quebrar o paradigma de como se trabalha com o setor da saúde. Hoje, para você melhorar o setor, você precisa de grandes investimentos. Isso acaba acontecendo a cada 10 anos, porque custa caro. Quando se trata de pensar em novos modelos de negócios e novas soluções, quebrar esse paradigma é mais difícil no setor público do que no privado.

Então, uma das abordagens é pensar em soluções baseadas em workflows [fluxos de trabalho]. Por exemplo, qual o workflow de cardiologia? Em vez de compra de máquina, por que não pensar nos processos que otimizam esse fluxo? Quando você melhora o seu workflow, você atende mais pessoas. Ao mudar a estratégia de custo por resultado e não por exame, você também pensa de uma forma mais eficiente, pois dá muito mais resultado para o paciente e para o hospital, seja público ou privado.

A segunda área é mais relacionada à tecnologia e desenvolvimento: estamos investindo em software. Acreditamos que o diferencial virá de inovação com software. As máquinas que existem são ótimas, mas a saúde ainda é um setor muito defasado em termos de software. No futuro, vão existir muito mais ecossistemas, onde será possível fazer o seu tratamento online e se comunicar melhor com seu médico online.  

Qual o impacto prático disso?

Fabia Tetteroo-Bueno – Quando você melhora a tecnologia para o profissional da saúde, ao invés de fazer papelada, ele vai estar com o paciente, fazendo tratamento. Isso vai melhorar eficiência do workflow, reduzindo custos e dando mais acesso. Essas são as áreas prioritárias.

Você disse que às vezes é mais difícil quebrar paradigmas no setor público do que no privado. Por que isso acontece?

Fabia Tetteroo-Bueno – Quando você vai fazer uma compra de uma máquina para o mercado público, o ideal não seria pensar na máquina em si, mas em parcerias a longo prazo. Temos um exemplo na Bahia, de um centro de diagnóstico, que eles pagam para a gente por tratamento, não pelo preço da máquina. No setor público é mais difícil, você tem que estudar as legislações. Já o setor privado normalmente é mais focado em resultados de curto prazo. Mas acredito que está evoluindo.

“Por exemplo, no Brasil, o SUS está fazendo um programa bem interessante de melhorar a informatização do setor. E são parcerias de longo prazo porque com software não é simplesmente comprar uma máquina. Você tem que fazer uma decisão de qual é o seu software e não pode trocar a cada mês, a cada ano. A informatização também pode ajudar nessa direção de pensar mais no longo prazo”.

Entrevista com Fabia Tetteroo-Bueno, da Philips, sobre inovação

Como que você vê essa transformação ao longo dos últimos anos? A impressão é que houve uma transformação em termos de tecnologia, mas não uma mudança em termos de mentalidade do setor de saúde.

Fabia Tetteroo-Bueno – Concordo. Se você fizer algo errado em medicina, há um custo muito alto, que é o custo de uma vida. Então os médicos – não só no Brasil, mas no mundo inteiro – são mais cuidadosos. O setor de saúde é um pouco mais tradicional e isso tem muito a ver com o risco que isso está envolvido – risco de vida, legal, de marca, de reputação, de carreira. E isso não acontece só para hospitais, mas também para pessoas, para os médicos enquanto indivíduos. Mas tem muita tecnologia que não estava sendo usada. Telemedicina não é só teleconsulta. É fazer exame, treinamento, educação, tratamento em casa, tudo a distância. A Covid-19 acabou acelerando essas coisas. Acho que muito do setor de saúde que sempre falamos que nunca ia acontecer, ou que ia demorar muito, está sendo acelerada por causa da pandemia.

Além da telemedicina, tem mais algum exemplo que foi acelerado por causa da Covid-19?

Fabia Tetteroo-Bueno – Antes, quando uma máquina que quebrava, era preciso voar um engenheiro para fazer esse serviço, sendo que essas máquinas são como um computador, ou seja, na maioria das vezes era possível fazer à distância, mas as pessoas queriam que o engenheiro estivesse lá para ter certeza de que estava tudo bem. Hoje já fazemos mais de 60% a distância, muito mais rápido e eficiente para todo mundo.

E você acha que agora, por causa da Covid, as pessoas de fato estão mais preparadas ou talvez um pouco mais abertas a essa mudança de paradigma?

Fabia Tetteroo-Bueno – Acho que sim. Ainda é preciso uma melhoria da tecnologia, porque em muitos casos ela existe, mas não estamos prontos para utilizar. Vou dar exemplos: temos muitos dados médicos, mas como conectar e traduzir esses dados em resultados que realmente levem a melhores tratamentos? A inteligência artificial é o futuro para ajudar a fazer isso. Outro exemplo: para uma pessoa com câncer, você quer que o tratamento seja o mais personalizado possível, já que cada pessoa é diferente. Com os dados que a gente tem de milhares de pessoas que estão sendo tratadas, conseguimos ver se determinado tratamento funciona e é possível ir testando e ajustando no caminho, de forma personalizada.

A inteligência artificial vai nos levar para um outro modelo?

Fabia Tetteroo-Bueno – Hoje em dia você paga por consulta, por exame. No futuro, iremos para um modelo em que você paga por resultado. É o futuro e eu acredito que a inteligência artificial nos vai ajudar chegar a isso, mas primeiro a gente tem que implementar tecnologia. É preciso implementar os prontuários eletrônicos para ter todo o histórico da pessoa. Conectar esses pontos com testes de remédio e de tratamento. Temos que pegar essa informação e começar a traduzir para resultados para pacientes. E não é um desafio apenas na América Latina, mas o mundo inteiro está passando por isso.  

Onde está o Brasil em comparação com o resto do mundo?

Fabia Tetteroo-Bueno – Saúde e educação deveriam ser um direito humano e não comércio somente. Claro que a competitividade é positiva para melhorar o serviço, mas no final o bom do SUS, por exemplo, é que todo mundo tem o direito ao mínimo. Se você quer ter um diferencial, você paga por isso. A Europa nesse sentido é bem mais avançada. Eles criaram essa segurança de que todo mundo tem um mínimo. Toda essa parte da telemedicina, de tecnologia, os países nórdicos tinham começado antes da Covid. Na pandemia, eles falaram de abertura inteligente, lockdown inteligente, porque eles tinham mais dados. Mas a verdade é que a grande revolução de saúde ainda tem que acontecer no mundo inteiro.

No Brasil, temos uma base muito boa. Acredito que toda a informatização do setor vai ajudar. A pirâmide populacional da Europa tem a parte de cima muito mais larga, com mais velhos em grande número, então se eles não fizerem uma boa prevenção, o sistema colapsa. Nos países como o Brasil, onde a pirâmide é um pouco mais circular, não se gasta quase nada com prevenção e muito com tratamento e diagnóstico. Mas nós estamos virando também uma população de mais idade, então temos que trabalhar nessa direção para não colapsar o sistema. Então, voltando ao ponto inicial, o maior avanço que precisamos ter no Brasil é a informatização, para usarmos esses dados melhor com os tratamentos, e depois precisamos focar não só em hospitais, mas investir na atenção primária, com mais prevenção, mais tratamento em casa.

Entrevista com Fabia Tetteroo-Bueno, da Philips, sobre inovação

O que exatamente você define como tratamento em casa?

Fabia Tetteroo-Bueno – Não temos só que tratar uma doença, mas tratar a pessoa integralmente. E essa prevenção se divide em dois grupos: um é aquele das pessoas que estão fora de peso, bebem ou fumam demais e sabem que é um problema, mas não fazem nada até ter um ataque do coração ou criar uma doença crônica. Outro grupo é formado por aqueles que já têm uma doença diagnosticada e podem evitar que uma nova crise aconteça. A primeira parte da prevenção relacionada à comportamento é dificílima. As gerações mais velhas são menos conscientes quanto à prevenção das doenças. Elas vão abusando até estourar.

Agora, a prevenção de doença crônicas, para evitar o próximo problema de acontecer, é possível. E tem várias doenças em que é possível garantir um bom tratamento e acompanhamento em casa. Não para evitar que a pessoa tenha que ir para o hospital quando tiver crise, mas que tenha melhores tratamentos no caminho. Uma das aquisições que fizemos recentemente foi a BioIntelliSense, que faz um produto para monitoramento em casa dos principais sinais vitais. São várias as possibilidades de fazer monitoramento de doenças crônicas em casa. Monitoramento de apneia do sono, de gravidez e de doença respiratória já são uma realidade. Vai vir muito mais agora. É uma tendência.

É diferente do que faz um smartwatch, por exemplo?

Fabia Tetteroo-Bueno – Exatamente. A BioIntelliSense tem o BioSticker. É um adesivo que você coloca e, por 30 dias, monitora seus dados vitais. Se você tem uma doença, por exemplo, um problema respiratório, um problema de coração, o adesivo vai dar um sinal para o seu médico. Ele pode orientar e dizer “me liga” ou “vem para o hospital”. Um smartwatch te dá esses dados, mas eles não são aprovados pela Anvisa ou pela FDA, porque são mais para prevenção. O adesivo é para quando você já tem um problema e precisa fazer realmente um monitoramento muito mais detalhado.

Um tema que está muito popular aqui no Brasil, hospitais, grandes empresas e startups é a criação de ecossistemas. Quais são as dificuldades de implementar um ecossistema e por que isso ainda não foi feito?

Ninguém descobriu a receita do bolo correta. A Uber é um ecossistema. Uma pessoa necessita de um transporte, outra tem um carro desocupado e há um ecossistema que conecta os dois.

“No caso de saúde, o desafio é que você tem que conectar muitos pontos, não apenas ligar o A ao B. É muito mais complexo: você tem seguro, hospital, médico, paciente, especialista… São muitos pontos para conectar. Não tenho dúvida que é o futuro, mas é bastante complexo ainda”.

É possível imaginar um modelo para esse futuro?

Fabia Tetteroo-Bueno – Não acredito que apenas um ecossistema vai solucionar todos os problemas. Acredito que existirão vários miniecossistemas e que, quem sabe, se conectem. O que está acontecendo em startup no setor de saúde agora no Brasil, com essa discussão de ecossistema no Brasil, não ocorre em outro lugar do mundo. Então acho que no Brasil surgirão ideias bem legais. Temos que observar.

Em relação ao modelo de pagamento, você sente que aqui no Brasil essa mentalidade de pagar por serviço e não necessariamente pelos resultados está mudando?

Fabia Tetteroo-Bueno – Ainda vai demorar um tempo não apenas no Brasil, mas no mundo. O mundo todo está atrás disso. E tem a ver um pouco com a questão do ecossistema, porque são vários atores envolvidos. Por exemplo, para um tratamento de apneia do sono, há o envolvimento de um médico, farmacêutica, seguro, clínica de sono e a pessoa em casa. Como são vários players, não é fácil pagar por resultado, mas eu não tenho dúvida que esse é o futuro. E aí é onde eu acredito que a inteligência artificial, a análise de dados é o que vai realmente fazer uma mudança para nós. Tanto que no Brasil hoje tenho vagas para programadores, analista de dados, que eu não consigo preencher. Quem tiver com dúvida do que fazer na profissão, devia investir nessas áreas porque ainda tem muito o que crescer.

A evolução da tecnologia tem custo alto de desenvolvimento, investimento em pesquisa. Como essa conta fecha no fim?

Fabia Tetteroo-Bueno – Volto ao ponto de que temos que parar de pensar em comprar a máquina e pagar pelo exame. Parar de pensar em comprar a máquina e pagar pelo custo operacional. O exemplo que citei da Bahia é um dos melhores. Eles não pagam por equipamento, pagam por mês o que eles utilizam. A inovação aí não foi o produto, mas na maneira de fazer o negócio. Quando falamos em inovação, não podemos pensar só em produto.

Entrevista com Fabia Tetteroo-Bueno, da Philips, sobre inovação

Você acha possível avançar em todos esses pontos, inteligência artificial, ecossistema, informatização, inovação, atenção primária, atenção em casa, nos próximos cinco anos ou precisamos de mais tempo?

Fabia Tetteroo-Bueno – Estou muito positiva que sim.  Antes da Covid-19, diria que ia demorar mais de 5 anos, mas agora acho que será antes. Na América Latina toda escutávamos mais e mais sobre a informatização. O SUS já tinha um programa chamado ConecteSUS, que agora estão acelerando. Estamos vendo a mesma coisa na Colômbia, Chile, México e Argentina – e isso não estava acontecendo um ano atrás. O Brasil sempre foi muito avançado com a informatização do setor privado, mas no setor público não. Nos outros países, não era nem setor privado. A informatização vai acontecer, não tenho dúvida.

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