Mais uma vez, IA generativa é destaque no SXSW e HIMSS como tendência para a saúde

Mais uma vez, IA generativa é destaque no SXSW e HIMSS como tendência para a saúde

Eventos foram marcados por tendências que irão transformar a saúde. IA generativa ganha destaque e soluções devem chegar ao mercado.

By Published On: 20/03/2024
IA Generativa é vista como o futuro da medicina e saúde e foram destaque no SXSW e HIMSS

Entre 8 e 16 de março, dois grandes eventos reuniram executivos da saúde de todo o mundo para falar sobre criatividade, tecnologia e futuro: o South by Southwest Conference e a Annual Conference and Exhibition of the Healthcare Information and Management Systems Society, conhecidos respectivamente com SXSW e HIMSS. Ambos ocorreram nos Estados Unidos e levaram centenas de brasileiros que atuam no setor.

Com características diferentes, dividiram a atenção de prestadores de serviços que buscam atualizações e tendências para tentar entender o que está ocorrendo na sociedade e no mercado de saúde digital. Quem escolheu qualquer um deles afirma que a experiência foi relevante e traz insights na bagagem que podem pavimentar o futuro.

Mais focado na tecnologia da saúde, o HIMSS 2024 contou com um inédito stand onde empresas brasileiras puderam apresentar seus cases, marcando uma mudança de perspectiva. O país tem deixado de ser apenas consumidor, para ser visto como possível fornecedor e colaborador em projetos com grandes empresas.

O SXSW trouxe uma visão mais futurista sobre os desdobramentos das tecnologias na sociedade, discutindo para onde vamos e como devemos nos atualizar para não ficar para trás. Da mesma forma, também trouxe um alerta de que empresas e órgãos reguladores precisam acompanhar o movimento, trazendo segurança e eliminando vieses.

A inteligência artificial generativa foi o grande destaque em ambos. De um lado, empresas de tecnologia apresentaram soluções em estágios iniciais que devem levar a saúde para outro patamar. De outro, houve muita reflexão do impacto delas em diferentes indústrias. Os psicodélicos também ganharam destaque no SXSW, que debateu avanços e desafios.

“O HIMSS é uma feira mais focada em processos tecnológicos existentes no setor de saúde, que passa por novidades, produtos, devices, interoperabilidade e sistemas. É algo em uma fronteira de 5 anos para você se atualizar e tentar alcançar. O SXSW é um outro conceito. Você bebe da cultura da inovação”, afirma Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, que esteve presente no South by Southwest, e aponta que a escolha depende entre o momento que o profissional está e a posição que ele ocupa.

IA Generativa no SXSW e HIMSS

De acordo com executivos da saúde que estiveram presentes nos eventos, a IA generativa foi o grande destaque – assim como no ano passado. A tecnologia que chacoalhou a sociedade também dá as caras em soluções da saúde. Por isso, é preciso que profissionais comecem a pensar e entender como elas farão parte do dia a dia das instituições.

“Todo o HIMSS foi em cima de inteligência artificial. Notamos que existe uma dificuldade ainda muito grande de entender os benefícios, que estão começando a ficar mais claros. Não está incorporado ainda. Existe um potencial tão grande, que as pessoas ainda não conseguiram enxergar na prática o que virá a ser o uso de IA. Principalmente na área de saúde”, aponta João Alvarenga, diretor executivo de TI e Digital do Grupo Fleury, que esteve no HIMSS 2024.

Tida como tendência de mercado, a IA generativa deve trazer impacto em diferentes áreas da saúde, do apoio ao diagnóstico até na personalização da interação com o paciente. Mas segundo os especialistas, é preciso acompanhar o desenvolvimento para verificar as possibilidades que garantam aspectos de segurança e eficácia.

Um dos principais cases apresentados na HIMSS foi o Nuance Dragon Ambient eXperience Copilot (DAX Copilot), da Microsoft. Em implantação na Stanford Medicine, utiliza IA generativa e foi produzida em parceria com a Nuance, empresa que pertence à Microsoft e é uma espécie de assistente, ou como o próprio nome diz, um copiloto. 

“Integra aplicações móveis, inteligência artificial, assistentes pessoais, apoio à decisão clínica, interoperabilidade e analytics. Isso é uma tendência. O profissional tem os dados do paciente no prontuário, a IA processa as informações e os indicadores, e quando vai conversar com o paciente sobre um determinado procedimento cirúrgico, recebe de maneira organizada as informações necessárias”, explica Claudio Giulliano, CEO da Folks, empresa parceira da HIMSS e que organiza a participação brasileira no evento.

Já no SXSW, a IA generativa entrou em discussão sobre seu uso, segurança e confiança nas informações, além da importância de as empresas e colaboradores se adaptarem ao futuro, pensando na sua existência e aplicação. No entanto, foi reforçado a máxima de que ela não substituirá os profissionais.

“Quando a gente senta e analisa o futuro, estamos nos preparando para esse caminho. Entendendo o que temos de tecnologia hoje e onde queremos chegar, é quando conseguimos tornar esse processo rentável. Quando conseguirmos colocar e entender o uso da IA para auxiliar a gente no processo, com tantos gargalos que temos, conseguiremos atingir o que entregamos hoje com muita mais facilidade”, observa Juan Félix, gerente médico da Amil.

Amy Webb e o futuro 

Um dos principais destaques do SXSW é a conferência da Amy Webb, a futurista e fundadora do Future Today Institute, que falou sobre as tendências de inovação e tecnologia de forma geral. Em seu Tech Trend Report 2024, ela aponta que a barreira entre o digital e o biológico está sumindo, o que abrirá uma nova possibilidade de tratamentos.

“A fusão da tecnologia com a biologia levou a avanços notáveis recentemente. Os cientistas decodificaram aspectos da função cerebral, permitindo aplicações inovadoras como mobilidade controlada pelo cérebro para paralisia e conversão de pensamento em fala. Estas inovações, no entanto, levantam preocupações éticas sobre a privacidade e a leitura de mentes e necessitam de diretrizes regulamentares completas para serem exploradas com segurança”, afirma Webb.

Segundo a futurista, estamos entrando no “superciclo tecnológico”, com os avanços na biotecnologia, na inteligência artificial e nos ecossistemas conectados. No entanto, reforçou que é preciso trabalhar para reduzir riscos e trazer segurança, ampliando suas capacidades de processamento.

“Percebi um ambiente de muita tensão e medo relacionado à inteligência artificial generativa. Muitos diretores querendo estar lá para saber o que vai acontecer. A impressão que eu tenho é que está todo mundo muito assustado com a surpresa que foi o ChatGPT, o que parece que tem o risco de disruptar inclusive outras empresas”, afirma Mohamed Parrini, do Moinhos de Ventos.

Participação brasileira

O Brasil teve ampla participação no HIMSS e no SXSW. A busca por atualização e conhecimento sobre tecnologia, além de insights sobre as principais tendências para a sociedade, levaram centenas de brasileiros do setor da saúde para Orlando e Austin, sedes dos eventos.

“O Brasil era sempre visto como um mercado de consumo, as empresas vinham para cá para ter representação de vendas. Éramos pouco vistos como um mercado gerador de tendências. Em geral, consumíamos coisas que já estavam maduras e lançadas há certo tempo em outros mercados. Estávamos a reboque. Quando passamos a fazer parte, estamos amadurecendo enquanto mercado de saúde”, analisa Guilherme Rabello, head de inovação do InovaInCor, núcleo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor).

No HIMSS, a Folks organizou o Brazilian Pavilion. Durante três dias de exposição, o stand contou com empresas apoiadoras, entre elas a Bionexo e o Hospital Albert Einstein, e foi um espaço de network para mostrar companhias brasileiras para o mundo. Em um mini-auditório, empresas puderam apresentar seus cases.

“Não estamos no topo. Mas temos a missão de desenvolver mais soluções avançadas mantendo a base estruturante. Iniciativas como essa precisam acontecer cada vez mais, pois saem negócios desses contatos. As empresas olham para o mundo”, afirma Claudio Giulliano, CEO da Folks.

O Hospital Albert Einstein também esteve presente no SXSW, com o painel “4 Collaborative Tech & Data Projects for Health Equity”, mediado pelo presidente Sidney Klajner. O painel contou com a participação da Mayo Clinic (EUA), City of Hope (EUA) e Sheba Medical Center (Israel), hospitais referência e que figuram entre os melhores do mundo. 

“Tratamos de temas que são super relevantes, antes de mais nada para o sistema de saúde, sobre como a gente usa tecnologia, conexões e parcerias globais para endereçar um problema, que é a falta de equidade”, afirma Rodrigo Demarch, diretor executivo de inovação do Einstein.

Apesar de realidades diferentes, com características de sistema de saúde, regiões e economia específicas, os problemas podem ser semelhantes. O desafio da tecnologia para ampliar o acesso e equidade, por exemplo, são alguns deles. ”Existem problemas que na verdade todos nós queremos resolver juntos, coisas nas quais essas instituições acreditam”, aponta Demarch. A colaboração e a troca de informações é um dos caminhos, assim como o desenvolvimento conjunto de soluções.

Outros insights

O SXSW foi visto pelos executivos como um lugar de desenvolvimento e reflexão sobre as tendências para a sociedade. Apesar de citarem palestras específicas, eles falam mais sobre insights que devem permear seu trabalho de volta ao Brasil, frente às equipes que atuam no sistema de saúde. “O SXSW ajuda a gente a pensar fora da caixa, a dar um passo à frente do que as pessoas de fato necessitam. Ele antecipa as mudanças e essas inovações que vão modificar no futuro. E a saúde é o futuro. Por isso que essa trilha da saúde é tão marcada. Como líderes, independente da hierarquia, é fundamental fazer exercício”, aponta Juan Félix, da Amil.

Para Mohamed Parrini, o impacto do evento é transversal. Ele afirma que deve provocar mudanças na gestão de pessoas, na informação e na escolha de parceiros tecnológicos, já que é preciso olhar para a inteligência artificial em todos os processos.

“Já pedi para sentar com meus fornecedores para saber como estão interagindo com a IA generativa, inclusive nos produtos que me fornecem, em prontuários eletrônicos e diagnóstico de imagem. Quem não estiver trabalhando com projetos de pesquisa e desenvolvimento conectados com IA, não sei se quero trabalhar. Quero trabalhar com quem está pensando nisso comigo”, analisa Parrini.

Além do uso da IA generativa nas tecnologias da saúde, o HIMSS trouxe cases concretos do uso de IA tradicional, principalmente em soluções que auxiliam na análise de imagens com sugestão de pré-laudos, que podem auxiliar médicos a priorizar casos mais graves.

“Estamos bem mais avançados nesse tema. A máquina se mostra bem inteligente para identificar problemas em um exame que talvez passam despercebidos por um profissional. Sem falar a velocidade. Consegue processar de forma muito mais rápida. Agora, começamos a ver uma convivência entre a máquina e o médico”, observa João Alvarenga, do Grupo Fleury.

Outro ponto de destaque foi a presença de empresas que não são nativas da saúde, como Amazon, Google, Microsoft, Oracle, entre outras, na conferência, mostrando soluções de IA e armazenamento em nuvem, por exemplo. Com o grande volume de dados para a utilização das tecnologias e melhor assistência ao paciente, empresas de armazenamento estão vendo potencial no setor. Cybersegurança e interoperabilidade também pautaram o evento.

Fornecedores de varejo, como a Best Buy, também estão trazendo uma visão de saúde. Estavam com um stand mostrando a possibilidade de ter soluções integradas para o varejo. Pacientes que queiram comprar dispositivos como medidor de pressão, compravam aparelhos isolados. Agora, já oferecem agregado ao provedor de serviço. No Brasil ainda não temos tanto essa cultura, mas é uma visão que possa ser uma tendência”, observa Guilherme Rabello, head de Inovação do InovaInCor.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

About the Author: Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

Leave A Comment

Recebar nossa Newsletter

NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

Artigos Relacionados

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br