Hospitais avançam nas ações sustentáveis e passam a medir pegada de carbono

Hospitais avançam nas ações sustentáveis e passam a medir pegada de carbono

Iniciativas começam a se aprofundar para mapear dentro das instituições e de fornecedores as formas de reduzir os impactos para a sociedade

By Published On: 26/06/2024
Ações sustentáveis hospitais ESG

Foto: Adobe Stock Image

A saúde já começa a ver impactos das mudanças climáticas na sobrecarga dos sistemas. O aumento de arboviroses, problemas respiratórios e ondas intensas de calor e frio são apenas algumas das consequências sentidas. Mas, assim como outros setores, a saúde também contribui para os desafios atuais: um relatório da Health Care Without Harm (HCWH) apontou que os sistemas de saúde respondem por 4,4% da emissão global de CO2 e a pegada climática dos cuidados de saúde é equivalente às emissões anuais de GEE de 514 usinas a carvão. Neste contexto, empresas e instituições de diversos segmentos promovem ações sustentáveis nas mais variadas frentes para diminuir seus impactos diretos.

É o caso de hospitais e centros de saúde, que desenvolvem ações para atacar de vez a questão. É um caminho sem volta. “A responsabilidade com a sociedade em todos os aspectos cada vez mais tem que andar junto com a estratégia da empresa”, aponta Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento.

Porém, sem uma estratégia padrão, ainda há dificuldade de colocar em prática as ideias que estão no papel. No Brasil, o Programa Nacional Hospitais Saudáveis (PHS) – uma associação sem fins econômicos que já tem 470 unidades associadas – tenta contribuir para esse cenário. A iniciativa existe desde 2008 e atualmente representa no país a Health Care Without Harm e a Rede Global Hospitais Verdes e Saudáveis.

“Temos uma série de ações de ciclos anuais com seminários. Falamos sobre os desafios, incentivamos, temos prêmio e divulgação de dados”, explica Vital de Oliveira Ribeiro Filho, presidente do PHS. “O setor da saúde demorou para aderir a iniciativas. Ficou muito imerso no seu próprio mundo”.

Uma das instituições que aderiu recentemente foi o Hospital do Centro-Norte Goiano (HCN), uma unidade do governo de Goiás, que passaram a medir sua pegada de carbono com base em protocolos oficiais. Karina Pavão, diretora médica de sustentabilidade e ESG do HCN, conta que o tema da sustentabilidade tornou-se parte integrante da rotina do hospital: “De um lado, cuidamos da saúde. Ao mesmo tempo, prejudicamos a saúde. Vimos o quanto isso é uma pauta necessária, especialmente com as mudanças climáticas que afetam a humanidade, impactando individualmente e em todos os aspectos”.

Ferramentas inovadoras para apoiar hospitais

Embora existam ações e estratégias de sustentabilidade para avaliar a pegada de carbono, fazer essa avaliação não é uma tarefa simples. Recentemente foi publicado um estudo canadense que calculou a pegada de carbono e pontos críticos de emissões em um hospital. Ao estudar um hospital na Colúmbia Britânica durante o ano de 2019, os pesquisadores identificaram o uso de energia e água, além da compra de produtos médicos, como os principais pontos críticos do hospital. Esses fatores representaram mais de metade da pegada anual, totalizando 3.500-5.000 toneladas de CO2 equivalente. Segundo o estudo, uma cama de hospital equivale aproximadamente à pegada de carbono de cinco famílias canadenses.

No caso do HCN, para medir a sua pegada de carbono eles utilizaram o GHG Protocol, que é o padrão mais utilizado para verificar e gerenciar as emissões nocivas. Desenvolvido pelo Instituto Mundial de Recursos e pelo Conselho Mundial de Negócios para o Desenvolvimento Sustentável, esse protocolo permite mensurar as emissões de todos os gases de efeito estufa (CO₂, CH₄, N2O, HFCs, PFCs e SF₆). Baseado em cinco princípios, ele possibilita o seu uso em empresas de todos os países e setores.

Pavão explica que este é um levantamento comumente realizado por grandes empresas, mesmo fora do setor da saúde: “É bem complexo, com vários dados e dividido em diversos escopos”. Para isso, precisaram realizar um diagnóstico detalhado para avaliar suas responsabilidades diretas. Isso inclui, por exemplo, o número de ambulâncias do hospital, consumo de gases, o uso de GLP na cozinha, os alimentos utilizados e até mesmo o funcionamento do caldeirão para aquecer água, entre outros aspectos. Essa análise envolveu uma coleta extensa de dados, segundo ela, e o processo levou cerca de três meses.

Depois desse levantamento, foi necessário um diálogo com todas as equipes. Como o hospital é uma instituição extremamente complexa, eles precisaram dialogar com a área da engenharia, manutenção e vários setores do centro cirúrgico, o que possibilitou análise dos dados. “Em cima desse diagnóstico de levantar todos esses dados, conseguimos identificar quais eram as áreas que mais emitem gases de efeito estufa. Dentro disso, identificando essas áreas, conseguimos fazer um plano de descarbonização para focar nos pontos que precisam melhorar”, detalha Pavão.

Dentre algumas das iniciativas, está a reciclagem dos resíduos. No caso da reciclagem, há um cunho social, pois o hospital fez parceria com catadores locais, gerando renda e inclusão para essas pessoas. Isso é especialmente importante, considerando que cerca de 70% dos resíduos hospitalares no Brasil não são descartados adequadamente: “Buscamos estabelecer parcerias com associações e empoderar os catadores, que muitas vezes são invisíveis na sociedade. Mas sem eles, estaríamos em uma situação muito pior”.

As estratégias dos hospitais para serem carbono zero

A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) – atualmente com 122 associadas – tem buscado o compromisso de seus hospitais associados com um futuro mais sustentável. A entidade tem reunido grupos de trabalho e promovido oficinas, jornadas e encontros para fortalecer as discussões em torno da agenda ESG. Como parte desses esforços, em 2023, pelo segundo ano, publicou o documento “ESG nos hospitais Anahp: resultados e boas práticas”, que reúne dados da atuação de seus associados nos três âmbitos ESG, com iniciativas relacionadas à humanização da assistência, gestão de resíduos, eficiência energética, inovação e tecnologia, entre outras temáticas emergenciais.

O levantamento mapeou 691 projetos ESG realizados entre junho de 2022 e junho de 2023, que somaram mais de R$ 500 milhões investidos. Destes números, 180 projetos eram do pilar ambiental, que receberam quase R$ 79 milhões – ou 16% – do total investido.

“Coletamos mensalmente esses dados, consolidamos e procedemos as devidas análises justamente buscando compreender os diferentes cenários de performance nos hospitais”, afirma Ingrid Cicca, coordenadora do GT ESG da Anahp e Gerente de Sustentabilidade e Meio Ambiente da Rede D’Or São Luiz.

Além disso, a Anahp dispõe de uma série de ferramentas para acompanhar as estratégias dos hospitais no que se refere à agenda climática. Uma dessas ferramentas é o Sistema Integrado de Indicadores Hospitalares Anahp. Além dos indicadores assistenciais ligados diretamente às áreas técnicas, eles disponibilizam ferramenta de indicadores das áreas operacionais, sendo alguns deles relacionados especificamente ao desempenho ambiental dos associados. Dentre esses indicadores ambientais estão consumo de água, de energia e geração de resíduos.

Cicca destaca que, por contar com associados hospitais de diferentes portes, perfis de atendimento e localizados em todas as regiões do Brasil, tudo isso precisa ser levado em consideração ao avaliar as estratégias dos hospitais: “Entendemos que nosso maior desafio reside na sensibilização e engajamento dos profissionais de saúde quanto à temática das mudanças climáticas. É importante que todos compreendam o quanto o setor saúde impacta e será impactado pelas alterações climáticas”.

Para a emissão de GEE, o consumo de energia e a geração de resíduos são aspectos ambientais relevantes para o setor saúde. A Anahp tem observado importantes ações adotadas pelos hospitais, como a migração do consumo de energia do mercado cativo para o Mercado Livre de Energia (MLE), buscando diversificar a matriz energética para uma fonte mais limpa e renovável.

Ações sustentáveis na cadeia de fornecedores

Em Porto Alegre, o Hospital Moinhos de Vento busca o equilíbrio entre competitividade e cuidado com o meio ambiente. Mohamed Parrini enfatiza que fazer o diagnóstico correto da emissão de carbono da instituição é o primeiro passo para elaborar projetos que vão compensar isso. Ele acredita que a sociedade vai cobrar cada vez mais do setor da saúde ações voltadas para ESG: “Clientes, funcionários, fornecedores e demais stakeholders vão cobrar nesse sentido. Pacientes vão te cobrar. Isso, em algum momento, vai ter regulação”.

O Moinhos tem como meta, até 2027, ser uma instituição carbono neutro e, para isso, desde 2017 compra energia de fontes 100% renováveis garantidas através dos RECs (Certificado de Energia Renovável), neutralizando a emissão de mais de 2.300 tCO2e/ano na atmosfera. Toda a energia do hospital é 100% proveniente de fontes renováveis, sendo o principal fornecedor uma usina eólica em Campo Largo (BA). Além disso, ainda em 2023, foi instaurada a Política de Compras Sustentáveis, que busca regrar pontos de atenção no processo de aquisição e qualificação, bem como a avaliação do desempenho ambiental dos fornecedores. “Vamos qualificar e dialogar com os nossos fornecedores para entender a origem da matéria-prima, onde é que está a pegada de carbono dela, quais são os tipos ambientais dos resíduos deles”, acrescenta o CEO.

A instituição tornou-se, em 2022, o único do Sul do Brasil certificado com o ISO 14001:2015 pelas práticas ambientais e sustentáveis. Atualmente, existem oito hospitais certificados no Brasil, que incluem outros hospitais, como Sírio, HCor e Einstein, que criou em 2023 uma área específica para a coordenação das diversas iniciativas e um comitê dedicado exclusivamente à sustentabilidade, com o objetivo de ampliar as práticas sustentáveis dentro da organização.

“Começamos a construção colaborativa e de forma transversal, porque os processos já aconteciam, mas agora tem uma estrutura, um núcleo de sustentabilidade, e as pessoas se conhecem. Enquanto área principal, mapeamos os riscos, criamos a sinergia para impulsionar as oportunidades colaborativas”, conta Priscila Surita Sampaio, superintendente ESG do Hospital Albert Einstein. 

Segundo ela, para direcionar as ações e mensurar os impactos qualitativos e quantitativos, a instituição desenvolveu um plano estratégico para o período de 2023 a 2028. Ele inclui metas relacionadas à equidade, melhorias na gestão e redução de riscos nas operações públicas e privadas, além dos impactos das mudanças climáticas na saúde. A atuação com os fornecedores também faz parte das ações, que envolvem a substituição de veículos a gasolina por elétricos, iniciativas de logística reversa e descarte adequado de baterias.

Todas essas iniciativas, segundo Priscila, são acompanhadas por diversas equipes: Temos fóruns com as áreas que estão responsáveis pelas metas para discutirmos os planos de gestão. Quando começamos a disseminar um pouco essa cultura de propor a meta, vamos acompanhando sempre”.

Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

About the Author: Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.

Leave A Comment

Recebar nossa Newsletter

NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

Artigos Relacionados

Angélica Weise

Jornalista formada pela UNISC e com Mestrado em Tecnologias Educacionais em Rede pela UFSM. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou nos portais Lunetas, Drauzio Varella e Aupa.