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Hospitais serão mais digitais e interconectados com avanço do home care

Até 2025, home care poderá reduzir as demandas hospitalares, tornando o atendimento a quadros menos complexos e acompanhamento de doentes crônicos menos custosos e mais eficientes. E isso é positivo para o setor

               
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Além de impulsionar o crescimento de empresas de atendimento domiciliar e acompanhamento a distância, a pandemia da Covid-19 acelerou a discussão sobre a ética médica e flexibilizou as legislações sobre telemedicina, no Brasil e no mundo. Ao que tudo indica, essa transformação não se limitará apenas ao atendimento remoto, mas impactará de modo estrutural toda a cadeia da saúde ao longo dos próximos anos, abrindo espaço para que hospitais digitais e interconectados se tornem realidade.

De acordo com um levantamento recente feito pela McKinsey, estima-se que, até 2025, o equivalente a cerca de 265 bilhões de dólares em serviços custeados pelas seguradoras e planos de saúde nos Estados Unidos, normalmente realizados em clínicas ou hospitais, terá se adaptado o suficiente para ser realizado na casa do próprio paciente, sem impactar na qualidade ou acessibilidade do serviço prestado.

Esses serviços, que incluem atenção primária, consultas ambulatoriais especializadas, atendimentos emergenciais e cuidados paliativos, representam 25% do custo em cuidados médicos nos modelos norte-americanos (Medicare Advantage e fee-for-service). A pesquisa sugere que 15% a 40% dos gastos gerados por essas demandas poderiam ser eliminados se fossem realizadas nos domicílios, reduzindo a ocupação de leitos e oferecendo maior acessibilidade e qualidade ao atendimento.

Cuidado centralizado em casa, não nos hospitais

Grande parte das demandas de saúde que, mesmo com o avanço do teleatendimento, ainda necessitam, via de regra, que o paciente se desloque para um centro de saúde – como a coleta de exames e infusão de medicamentos, por exemplo – pode se tornar mais acessível e otimizada. Não só pela comodidade que o atendimento em casa traz para o paciente, como também pelo potencial que a conectividade tem de melhorar os processos e a qualidade dos serviços essenciais.

A pandemia nos fez refletir sobre diferentes protocolos de triagem de pacientes sintomáticos e não sintomáticos bem como ambientes mais apropriados para doentes crônicos e pacientes que precisam de assistência constante. Segundo a pesquisa da McKinsey, ao combinar a telemedicina com a adaptação do ambiente domiciliar conforme as necessidades do paciente, o cuidado será centralizado em casa e não mais no hospital.

Essa adaptação envolve desde transformações mais estruturais em casos mais complexos a wearables, dispositivos vestíveis que monitoram e registram informações de saúde e podem ser acessados e monitorados pelo médico e por outros profissionais de saúde que acompanham o usuário.

O acompanhamento rotineiro de doentes crônicos que convivem com a obesidade, o diabetes e a hipertensão é um desafio que vem sendo contornado com auxílio desses dispositivos, como analisa Marcelo Toledo, fundador e co-CEO da Klivo: “O que pode mudar o jogo da saúde é, em vez de fazer exames ocasionais, os pacientes acompanharem seus indicadores de saúde com mais frequência”. A healthtech brasileira realiza o acompanhamento contínuo e personalizado de doentes crônicos por uma equipe de saúde multidisciplinar, composta por médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos. Atualmente, a empresa atende cerca de 21 mil membros.

Esse monitoramento é realizado remotamente e utiliza-se de dados compartilhados pelos dispositivos dos pacientes, fornecidos pela empresa. No entanto, como é o caso da plataforma da Klivo, a equipe multidisciplinar também tem integração com os sistemas operacionais dos wearables disponíveis no mercado, podendo conectar-se aos smartwatches dos próprios pacientes.

Hoje, a empresa utiliza três dispositivos de monitoramento – um ativo e outros dois em fase experimental, sendo que um deles mede a glicemia e compartilha o resultado em tempo real. Dessa forma, é possível entender os indicadores de forma mais personalizada, perceber o comportamento do organismo e acompanhar quais são os estímulos estressores, entre outros fatores. “O que você não mede, você não gerencia. Isso quer dizer que, se você não sabe para onde um número está indo, você dificilmente tentará trabalhar em cima dele para melhorá-lo”, explica Toledo.

Home care nas práticas hospitalares

Home care possibilita hospitais digitais

O acompanhamento do paciente é essencial após a alta hospitalar e também um desafio, pois a readmissão é um dos principais gargalos econômicos para o setor. Além disso, a falta de entendimento sobre o quadro clínico ou diagnóstico e a falta de adesão ao tratamento também são fatores que geram retorno ao sistema de saúde, causando retrabalho e sobrecarga na camada terciária (clínicas e hospitais). Nesse sentido, o principal benefício do acompanhamento remoto é coordenar o cuidado, monitorando a recuperação do paciente para identificar com antecedência possíveis fatores de risco para quadros emergenciais.

Em uma pesquisa publicada na revista científica Nature, protocolos de monitoramento remoto em pacientes com Covid-19 foram introduzidos pela Mayo Clinic em diversas regiões nos Estados Unidos e, dentre as 7.074 pessoas acompanhadas, a taxa de engajamento foi de 78,9%. Enquanto isso, as taxas de atendimento emergencial e de hospitalização, dentro de 30 dias após a alta, foram de 11,4% e 9,4%, respectivamente. Esse exemplo demonstra tanto a aceitação do público quanto a eficácia do acompanhamento a distância.

“Em quase todos os nossos grupos de monitoramento, quando comparamos os pacientes monitorados com os não monitorados, nós dobramos a adesão ao tratamento e melhoria de hábitos do dia a dia. Algo muito simples que gera muito resultado”, conta Marcelo Toledo. “Temos uma série de oportunidades na saúde para gerar eficiência, não pensando apenas na redução de custos a curto prazo, mas na própria saúde das pessoas. Os indicadores de saúde das pessoas melhorando, consequentemente, teremos uma redução de custos”.

Transformação na cadeia de saúde

Segundo Chao Lung Wen, médico formado pela Faculdade de Medicina da USP e chefe da disciplina de Telemedicina, o que ele prefere chamar de “medicina sem distância” é o provimento de serviços de saúde de uma forma ampla e expandida independentemente do local físico. Em outras palavras, a telemedicina não está a serviço apenas do atendimento remoto, mas, sim, da otimização de toda a cadeia de saúde. Com a disponibilidade da tecnologia 5G e da internet via satélite, todo o setor poderá se beneficiar e desenvolver estratégias de logística e acessibilidade mais assertivas.

Os hospitais se tornarão hubs de saúde interconectados, com centros de distribuição de serviços de saúde, sejam eles digitais, móveis ou unidades presenciais”, prevê o médico. Em casos de internação ou procedimento eletivos, por exemplo, o paciente será atendido antes mesmo de sair de casa, em unidades móveis ou de teleatendimento onde a pré-avaliação clínica será realizada.

O mesmo vale para o período pós alta, que será monitorado por ambulatórios de acompanhamento de recuperação domiciliar. Em resumo, os hospitais não deixarão de existir com o home care, mas irão se modernizar e tornar os atendimentos e as internações mais eficientes. “As pessoas precisam estar equipadas e, nesses casos, os hospitais poderão mandar os dispositivos necessários até suas casas”, explica.

Lung Wen também acredita que, com o avanço da tecnologia e seus aprendizados, os hospitais se tornarão digitais e interconectados. Para garantir a sustentabilidade do sistema, é necessário que eles cheguem às soluções e tomem decisões em conjunto, permitindo a troca de informações. As healthtechs que irão sobreviver são aquelas que priorizam a qualidade de vida. “É urgente pensarmos em atenção primária como promoção de saúde e prevenção de doenças por estilo de vida”.

O que falta

Marcelo Toledo, fundador da Klivo, acredita que ainda temos alguns passos a percorrer para alcançar esse cenário: “Temos tecnologia para exames, mas em relação à tecnologia de gestão ainda estamos um passo atrás e precisamos melhorar bastante”.

Para muitos serviços de saúde, existem tecnologias disponíveis para serem realizadas no home care, porém ainda é necessária uma oferta mais abrangente desses recursos. Para isso, além de prover conectividade onde ainda precisa, é necessário que as unidades e profissionais de saúde e empresas de tecnologia e investidores trabalhem em conjunto.

Para Wen, até mesmo as cidades inteligentes e conjuntos habitacionais podem desempenhar um papel importante nessa virada de chave. Elas irão permitir a distribuição dos recursos e integração dos hubs de saúde no dia a dia das pessoas. Assim como existem espaços para a prática de atividades físicas nos condomínios, com dispositivos que gerenciam os resultados, existirão também os “healthcenters”. “Chamamos isso de saúde distribuída. Podemos usar um espaço compartilhado entre os moradores para fazer avaliações clínicas. Esses espaços estarão conectados com os hospitais, que, quando necessário, podem ser acionados”, explica o médico.

Hoje as casas já são conectadas à rotina das pessoas. Por que não as tornar especializadas para garantir a saúde e qualidade de vida de seus moradores? Para o ecossistema da saúde, esse é o futuro.

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