Hidroxicloroquina e cloroquina

Sobre o caos, a desinformação e a busca desesperada pela hidroxicloroquina nas farmácias

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Vocês já devem estar familiarizados com os nomes cloroquina e hidroxicloroquina. Ontem, não se falava de outra coisa no noticiário, WhatsApp e Instagram. Estamos confinados há alguns dias aqui no Brasil e desesperados por boas notícias. Todo mundo quer uma esperança, algo bom para se apegar no meio desse caos. Mas é importante deixar claro que não dá para dizer ainda que esses medicamentos fazem o esperado milagre contra o covid-19. Explico o porquê.

Antes de tudo, essas substâncias não são novas. A cloroquina e a hidroxicloroquina já são aprovadas para o tratamento de doenças como malária, lúpus e artrite reumatoide. Dois estudos foram divulgados sobre o seu potencial contra o coronavírus. Um foi realizado com um número pequeno de pacientes na França e combinou a hidroxicloroquina com um antibiótico, mostrando a redução da carga viral. Outro foi feito só em laboratório, com testes in vitro, por pesquisadores chineses. Embora ambos tenham tido resultados positivos, isso não significa que está comprovado a cura do coronavírus. Muito longe disso.

Isso pode ser difícil de entender para quem não acompanha o mundo da saúde. Mas todos os medicamentos que tomamos quando temos febre, dor de barriga, os antibióticos, os remédios contra o câncer…todos eles passam por longos testes antes de chegarem às prateleiras das farmácias. Esses testes incluem observação da eficácia, da segurança, se há ou não há efeitos colaterais. Há também um momento de ajuste da dose – porque uma dose muito forte pode torná-lo um veneno. É verdade que a cloroquina e a hidroxicloroquina já foram testadas para outras doenças, mas nunca para o covid-19. Por isso, são necessários mais estudos com uma quantidade significativa de pacientes para termos certeza se ela funciona e se é realmente eficaz. Pode ser promissor? Pode. Mas sem dados robustos é só achismo, não ciência.

O presidente americano Donald Trump disse ontem sobre testar essas substâncias com covid-19, o que acabou dando força para essa empolgação. O problema é que essas informações desencontradas e o desejo por algum tipo de segurança fez com que as pessoas fossem correndo às farmácias para comprar o medicamento. Isso é perigoso. Em primeiro lugar, ele não deve ser usado de forma preventiva contra o coronavírus (não há prova disso). O segundo ponto é que há riscos de efeitos colaterais graves. E o terceiro ponto é que quem realmente precisa tomar – os pacientes com lúpus e artrite reumatoide – não estão encontrando o remédio. Precisamos ser coerentes. O lema atual do coronavírus no Brasil é: fiquem em casa, tomem cuidado com fake news e não estoquem esse medicamento.

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