Guilherme Azevedo, cofundador da Alice: “Desperdício no setor da saúde é brutal”

Guilherme Azevedo, cofundador da Alice: “Desperdício no setor da saúde é brutal”

No mais recente episódio do Futuro Talks, Guilherme Azevedo falou sobre a inovação na saúde suplementar com o apoio da tecnologia para diminuir o desperdício e ganhar escala

By Published On: 08/04/2024
Guilherme Azevedo - Futuro Talks

A saúde suplementar enfrenta uma série de desafios nos últimos anos. Apesar de a expectativa apontar uma retomada gradual da saúde operacional desde o ano passado, fato é que ainda há uma necessidade de mudanças estruturais. Neste cenário, há iniciativas inovadoras vindo de healthtechs, que utilizam a tecnologia para aprimorar seus serviços, evitar desperdícios e ganhar escala. Segundo Guilherme Azevedo, cofundador da Alice, ao atacar de frente o problema é possível até mesmo pensar em reduzir o preço dos planos. Ele é o entrevistado do novo episódio do Futuro Talks.

Quando começaram a operar, em 2019, a Alice vendia apenas planos individuais. “Iniciamos no individual porque era o produto que conseguíamos competir com uma rede restrita”, disse. Desde novembro do ano passado, essa modalidade não é mais oferecida, sendo o foco agora apenas nos planos empresariais. A healthtech fechou o ano de 2023 com 28 mil beneficiários, em um salto que contou com a compra da carteira da QSaúde. 

Os próximos passos, segundo Azevedo, é seguir ganhando escala com o apoio de tecnologia. Neste sentido, ao longo da conversa ele destacou muito a visão de entender o que é custo-eficaz em toda a jornada. Por isso, há um foco em buscar uma integração de dados não apenas econômicos, mas clínicos com toda a cadeia. Assim, é possível entender onde estão as oportunidades de cada condição na atenção primária, secundária e terciária.

Durante a entrevista ele trouxe mais dados sobre a atuação da Alice hoje e reforçou que hoje já são mil hospitais cobertos, em todos os estados e capitais do país. “A Alice é um plano de saúde com cobertura nacional sólida”, ressaltou. E abordou ainda a importância de educar a sociedade sobre como funcionam os planos de saúde, principalmente em relação ao reajuste.

Confira a entrevista completa a seguir:

A aquisição da QSaúde pela Alice foi um dos grandes movimentos do mercado de saúde em 2023. Vocês mais do que dobraram a carteira de clientes. Qual é o momento atual da Alice?

Guilherme Azevedo – A Alice terminou o ano passado perto de 28 mil vidas e fizemos muito progresso. A Alice é uma empresa muito jovem, há 3 anos e meio tínhamos zero vidas e um hospital. Hoje, pós-aquisição, está muito focada no empresarial: 100% das vendas são empresas de vários tamanhos, de dois até mil funcionários. Estamos na nossa maior fase de crescimento e animados com isso. Ao mesmo tempo, é uma fase próspera de métricas de saúde. Construímos a Alice para conseguir fazer gestão de saúde e coordenação de cuidados. Não é algo do futuro, é do presente, o que acaba tendo consequências em métricas de saúde na população. Estamos começando a ter métricas de custo muito favoráveis. Ao mesmo tempo que entregamos saúde, entregamos um custo menor. Custo-eficácia e saúde entregue sem desperdício, para nós, é mais central do que o crescimento. O crescimento precisa partir de um modelo que faça sentido.

Quando a Alice nasceu, lá em 2019, a intenção era atingir pessoas que não tinham planos de saúde. Por que houve essa mudança de olhar para as empresas?

Guilherme Azevedo – Começamos no individual porque era o produto com o qual conseguíamos competir tendo uma rede restrita. A Alice nasceu do zero, com um hospital, uma rede de laboratórios e uma maternidade. Naquele setup de produto, era muito difícil competir no empresarial, mesmo pequenas. O arranjo de produto onde conseguíamos competir era o individual. Isso foi muito pensado. Falamos: “Vamos entrar no individual para conseguir ter um ângulo de entrada na indústria e crescer a partir dali”. Começamos com um custo médio do nosso primeiro produto para quem tinha 30 anos de quase R$ 800. Hoje temos produtos abaixo de R$ 400. Temos um range de produtos grande. Uma pessoa de 30 anos consegue comprar um produto nosso até abaixo de R$ 400, dependendo do que escolher. Fizemos muito progresso. Precisamos ganhar escala para conseguir operar em uma faixa de preço um pouco menor. Gosto muito de usar o exemplo do Elon Musk que escreveu o Master Plan da Tesla em 2006. Ele diz: “A gente vai construir um carro esporte, para depois ter um pouco de dinheiro para construir um sedã, para depois construir um sedã compacto e até chegar no carro popular elétrico”. E é uma profecia de algumas décadas. Nós nos espelhamos, porque a profecia dele está acontecendo. Pensamos muito na nossa empresa de saúde dessa forma. Vamos ganhar maturidade e escala. Quanto menor o preço, melhor operador você precisa ser, mais desafiador para competir. O nosso objetivo é sim ir reduzindo o preço e chegando em produtos mais acessíveis. Só que leva tempo.

Pensando na organização da saúde suplementar hoje, você enxerga a possibilidade de redução significativa nos preços, ou percebe isso como uma limitação?

Guilherme Azevedo – Dá para baixar o preço, porque o nível de desperdício no setor de saúde é brutal. A chamada ‘inflação médica’, na verdade, é desperdício. Estamos todos pagando por coisas que não precisavam acontecer ou não deveriam acontecer. Quando partimos desse princípio e observamos os números que vemos na Alice, de desperdício que evitamos, enxergamos muita oportunidade.

“É possível reduzir os preços, mas é necessário enfrentar o desperdício de frente e não apenas atacar pelas beiradas.”

Por exemplo, a taxa de parto cesárea na Alice é de menos de 30%, enquanto na saúde suplementar é de mais de 80% – sempre foi assim. Estamos completamente descolados do mundo. Eu não consigo enxergar de outra forma senão como desperdício. E o mais interessante é que também existem estatísticas sobre isso, da Fiocruz: mais de 70% das mulheres, ao iniciarem o pré-natal, têm a intenção do parto normal. No entanto, quando chega ao final, na saúde suplementar, menos de 20% mantêm essa intenção. Por quê? Montamos uma operação onde, por exemplo, nosso programa de pré-natal respeita a intenção da mãe, a menos que, tecnicamente, a cesárea seja necessária. Quem decide isso é a equipe técnica, junto com a mãe. Se o parto normal for possível, ele será realizado, reduzindo assim um desperdício significativo de recursos do sistema. Este é apenas um exemplo, mas poderíamos citar muitos outros.

E o parto normal também é melhor para o sistema?

Guilherme Azevedo – As estatísticas mostram que as internações neonatais por parto normal são menores do que as internações por cesárea. Portanto, ao optar pelo parto normal, se reduz as internações neonatais, o que é um recurso extremamente custoso, tanto psicologicamente para a família e para a mãe, quanto para o sistema de saúde como um todo, além de ser benéfico para o recém-nascido. Em outras palavras, essa escolha também contribui para essa redução.

E como está o tamanho da Alice hoje?

Guilherme Azevedo – Hoje, somos uma rede grande. São mais de mil hospitais cobertos pela Alice, em todos os estados e em todas as capitais. Além disso, contamos com mais de 3 mil unidades laboratoriais e mais de 5 mil médicos especialistas. A Alice é um plano de saúde com cobertura nacional sólida. Em nosso aplicativo e site, ao acessar a página da Alice Empresas, você encontrará um simulador. Nele, ao selecionar sua unidade federativa, se deseja ver hospitais, laboratórios ou municípios, o simulador apresentará a rede atualizada em tempo real. E, obviamente, quando está no app, ao inserir o endereço atual, ele georreferencia a rede mais próxima para você, conforme suas preferências. Chegar a uma cobertura nacional como essa em apenas 3 anos e meio de operação é motivo de grande orgulho para nós.

A Alice é uma operadora semi-verticalizada? Pode trazer esse conceito?

Guilherme Azevedo – Somos uma operadora semi-verticalizada. Existe a “verticalização de tijolos”, em que se é dono dos hospitais e da infraestrutura, carregando o ativo. Nós acreditamos na “verticalização lógica” e os dados são extremamente importantes. É crucial que o sistema de saúde tenha os dados clínicos verticalizados. Ou seja, a capacidade de acompanhar o paciente na atenção primária, secundária e terciária. Vamos por partes. A atenção primária é verticalizada de tijolos. O que isso significa? Temos hoje 150 funcionários, entre médicos e enfermeiros, que são parte da atenção primária. É como se tivéssemos ‘um hospital’ – um staff de 150 pessoas. Contamos com duas clínicas próprias e mais 16 unidades em parcerias espalhadas pela grande São Paulo, onde as pessoas recebem atendimento com o médico de família, presencialmente e também virtualmente. 80% de nossa operação de atenção primária, chamada de Alice Agora, é destacada com um coraçãozinho no aplicativo, pois é o ponto de entrada no sistema de saúde da Alice. Você pode falar com o time de saúde da Alice em 30 segundos. Há o atendimento episódico, onde você fala com quem estiver disponível, ou o longitudinal, onde você fala com o médico que te acompanha, mas tudo isso faz parte da atenção primária da Alice.

“50 % dos membros da Alice interagem com a atenção primária da Alice todo mês. Não encontrei referência a isso em nenhum lugar do mundo.”

É um contato proativo de vocês ou reativo?

Guilherme Azevedo –Tem ambos, mas principalmente as pessoas chegam na reativa. Casos que exigem cuidado longitudinal, há comunicação ativa. Mas, muitas vezes, a pessoa nos procura com as coisas mais simples possíveis. Dor de cabeça, por exemplo. Na Alice, ela entra e fala diretamente com o enfermeiro de uma equipe própria que está atendendo em uma tela gigante, que tem o prontuário eletrônico da Alice. O prontuário é nosso. Toda a tecnologia é nossa. Tem o sistema de protocolos da Alice, o sistema de mensagens da Alice. A pessoa está atendendo e fala: “É uma mensagem da Natalia Cuminale”. Você não precisa falar que você é a Natalia Cuminale, ela já vai e fala: “Oi, Natália. Eu estou vendo aqui que você esteve mês passado também. Ah, estou vendo que você tem enxaqueca.” Dependendo do caso, o médico vai entrar na ligação. Em mais ou menos seis segundos é o tempo que entra no nosso app o médico da Alice, que também vai ter acesso ao seu prontuário. Ou seja, é um encaminhamento do caso, da triagem para o médico. O médico faz o seu atendimento digital. E aí ele pode te encaminhar para o PS, para o especialista e tal e ter seu ponto de entrada. E é muito fácil de usar. É difícil eu enaltecer o quanto é um sistema fácil de usar, por isso que 50% usa todo mês.

E a atenção secundária?

Guilherme Azevedo – Na secundária, é uma rede de médicos especialistas da Alice também. Não são funcionários. São parceiros, que chamamos de comunidade. Esses médicos são selecionados num processo de seleção. É como se fossem funcionários, mas são parceiros e somos muito rigorosos com a seleção. Você pode ir direto para ele, isso é importante. Você não tem que passar pela primária. Pode marcar o especialista direto. É que é tão fácil usar a primária, e ela resolve tanta coisa, que as pessoas preferem. O médico da secundária também vai usar o nosso sistema. Ele vai utilizar o prontuário eletrônico da Alice, verificar o encaminhamento e o seu histórico, e saber quem você é. Ele fará as prescrições, os encaminhamentos e o registro da consulta lá também.

Os exames vão também para dentro da Alice?

Guilherme Azevedo – Sim, tanto o pedido quanto o resultado. Todos os resultados integram por API com várias redes laboratoriais. Você está trabalhando dentro de uma rede fechada, como se fosse um verticalizado, mas não é. Estou falando de uma rede de médicos aberta. Eles não são da Alice, são uma rede, mas é a nossa comunidade. E quando você vai para o hospital, se entra no hospital como urgência-emergência, o hospitalista, a retaguarda médica é a Alice. Você está internado pela Alice, vai receber visita do médico da retaguarda da Alice e ele que te dará alta. Ele que vai preencher o prontuário da Alice. Então, você tem uma verticalização lógica da jornada clínica do paciente e quem vai fazer a cirurgia é o cirurgião da secundária da Alice. Se entrar pelo caminho da cirurgia eletiva, esse médico da secundária que vai fazer a cirurgia também. Ou seja, o paciente é sempre cuidado por equipes Alice que estão integradas aos sistemas Alice. Qual é a consequência disso tudo?

“Conseguimos enxergar de uma forma muito privilegiada a prática e custo-eficácia. Por exemplo, todas as centenas de casos de dor na lombar que tivemos, sabemos quanto custou a jornada inteira, da primária até a terciária, quais foram os médicos que se envolveram, quais foram os médicos que tiveram as práticas mais custo-eficazes. E o nosso sistema começa a roteirizar. Ele começa a roteirizar o fluxo de demanda de paciente, conforme a demanda, para aqueles especialistas mais custo-efetivos.”

E vocês têm alguma linha de cuidado já dentro desse contexto? Os médicos têm que estar alinhados, esses médicos da comunidade, com os processos da Alice?

Guilherme Azevedo – A nossa comunidade tem verticais. A vertical de ortopedia, vertical de geriatria-obstetrícia. Sempre terá um líder referência, uma equipe que discutiu quais protocolos. Por exemplo, se for na ortopedia, qual é o pacote cirúrgico que vamos usar para a ligamento cruzado anterior (LCA)? Todo esse empacotamento, que foi negociado com o hospital, é alinhado com o corpo clínico. Esse é um ponto interessante. Nós temos reuniões de resultados com os especialistas. Eles vão para a Alice, numa arena que comporta 150 pessoas, e especialistas de verticais discutem as métricas de resultado da sua especialidade. Tem o ambiente para você discutir se o protocolo deveria ser alterado, se o pacote deveria ser alterado. Há uma integração muito grande e um senso de comunidade por parte dos especialistas também.

E sobre verticalizar com tijolos. Está dentro do radar da Alice de alguma forma dar esse passo?

Guilherme Azevedo – Eu não sei. Nunca esteve. Mas é muito difícil de falar que não estará. Acho que um exemplo é o Mercado Livre. Se falassem há 15 anos atrás para eles: “Ei, vocês vão ter uma frota de avião, sabia?”. Hoje o Mercado Livre tem uma baita frota de avião. Então, é nesse sentido. Estamos muito cedo no jogo ainda para conseguir fazer sentido dessa decisão. Por conceito original, não. Mas se isso se mostrar necessário, por que não? Agora, eu acho que a tecnologia, falando de tecnologia em 2024, não dos anos 90, ela deveria ser muito eficiente para evitar que a gente tenha infraestrutura física.

O fato de ser nativo digital te dá vantagem?

Guilherme Azevedo – Dá vantagens e desvantagens, mas dá algumas vantagens, sim. Nós temos uma cultura na Alice muito singular. Somos mais de 400 funcionários onde nos importamos demais com a saúde das pessoas. Todas essas métricas de saúde que estou compartilhando são lugares comuns de discussão dentro da Alice. Não é um lugar onde se discute dinheiro, é um lugar onde se discute custo-eficácia. A cultura do cuidar e a tecnologia são o que permitem que se tenha esse tipo de discussão. A Alice é uma empresa de saúde e tecnologia. Eu não a chamo de seguradora. Seguradora é uma função, uma camada para fazer o underwriting e gerenciar risco. Quando pensamos na Alice, é maior.

Foram investidos 300 milhões de reais na construção do sistema de vocês.

Guilherme Azevedo – Acho que agora já deve estar nos 350.

A tecnologia entra com um pilar muito forte dentro de todo o contexto do que é a Alice? Quais as facilidades e dificuldades dentro desse contexto?

Guilherme Azevedo – A tecnologia serve para algumas funções igualmente importantes. A primeira é gerar uma porta de entrada e engajamento com os nossos membros. Isso é superimportante e vai além da tecnologia. Essa é a nossa filosofia, a nossa cultura. O membro fala com a Alice sobre a sua saúde. O app, o canal, é para falar da sua jornada de maternidade, da sua dor lombar, e você interagir e ter solução e coordenação de cuidado nesse contexto. A pessoa pensa a Alice como saúde. É diferente olhar a tecnologia e falar que aqui eu pago meu boleto, aqui eu vejo minha rede credenciada, aqui eu peço reembolso. Isso tudo tem também. Mas tem que ter algo a mais. Esse talvez seja o principal ponto e a tecnologia permite isso.

E o segundo?

Guilherme Azevedo – O segundo ponto: a tecnologia permite integrarmos a cadeia com dados clínicos. Integrar com dado financeiro não vai te dar a métrica do que está sendo custo-eficaz, não vai resolver o problema do sistema. Nós integramos a cadeia com métricas de saúde. Nós sabemos o custo de cada jornada, de cada CID, para cada paciente na primária, secundária e terciária gerida por qual especialista. Isso dá uma capacidade de olharmos para o sistema de saúde e entender as jornadas mais custo-eficazes, onde está o desperdício e tal. A tecnologia serve essa função.

Há um terceiro?

Guilherme Azevedo – Tem um terceiro ponto que é: a tecnologia precisa tirar o fardo do profissional de saúde em lidar com a tecnologia. A tecnologia de 2024 deveria ser muito mais fácil e suave para o profissional usar do que a tecnologia de 5 ou 10 anos atrás. Aquele exemplo que você entra no chat com a dor de cabeça, com a enxaqueca, o enfermeiro ou o médico, ele vai ter que abrir o prontuário. Ele está no chat com você. É o chat da Alice, não é o WhatsApp. É fechado. Ele vai ter que registrar no prontuário eletrônico, o que chamamos de swap. Ele vai ter que registrar o teu caso clínico de acordo com uma codificação médica. Hoje é a realidade, para 100% dos atendimentos da Alice, usamos tecnologia para sintetizar aquilo que foi falado. Dá para você mandar áudio no chat também. Ele sugere já, sintetizado para o profissional de saúde, “olha, é assim que deveria ser preenchido no prontuário eletrônico. Você quer editar ou você concorda?”

“Isso, trazendo em números, num atendimento médio de um enfermeiro de chat que durava do começo ao fim, 15 minutos para fazer o registro clínico, hoje ele gasta 3. São dados reais e não é teste. Isso está rolando por toda a Alice. Esse é o papel da tecnologia. Está longe de ser ideal, mas já está muito melhor.”

É uma tecnologia própria de vocês.

Guilherme Azevedo – Sim. Fizemos API com ChatGPT, mas adaptamos e construímos para a usabilidade do nosso profissional de saúde dentro do nosso ambiente tecnológico.

E a interação com os outros players? Eu entendo que o médico da retaguarda do hospital é da Alice. Mas há alguma interação que talvez seja um pouco mais difícil?

Guilherme Azevedo – Sim, ótimo ponto. Com os hospitais, temos integração de resumo de alta dos pacientes com alguns, mas não com todos ainda. O resumo de alta sobe e computa os dados de prontuário do paciente. No entanto, o resumo de alta acontece quando o paciente tem alta. O importante é você participar da gestão enquanto o paciente ainda está internado. Nesse ponto, depende muito de pessoas. Com o tempo, isso vai evoluir. Gosto da palavra “inevitável”. É inevitável que isso vai acontecer, é questão de tempo. E não vai demorar 20 anos. Minha dúvida é se vai demorar 3, 5 ou 10. Mas vai rolar. É o que a gente está tentando.

Você sente uma abertura dos profissionais, das comunidades médicas, dos hospitais?

Guilherme Azevedo – Muito, porque eles sabem que é inevitável. Obviamente, alguns mais, outros menos. Mas temos parceiros muito especiais. Os resultados de exames das maiores redes de laboratórios estão integrados por API com o registro, com o app do paciente. Então, eu faço um laboratório A, B ou C ou das casas Alice, que também fazem exames. Os resultados integram automaticamente, você não está fazendo nada. E sobem em um ícone que chama resultados de exames e tem todo o seu histórico. Isso evita exames pedidos em duplicidade, porque há acesso a todo o seu histórico. Isso reduz desperdício. São várias coisinhas que vão reduzindo o desperdício.

Sobre sinistralidade, a da Alice está em torno de 78%, abaixo das grandes operadoras e mais próximo das verticalizadas. Como você vê isso?

Guilherme Azevedo – Esse é só o começo. Fizemos muito progresso. Os números de care cost da Alice no começo eram maiores, porque a empresa estava no começo. É difícil você olhar uma empresa que tem um ano e meio de vida e que é semi-verticalizada. É difícil fazer senso desses números em uma fase tão preliminar. Agora, ganhando escala e diluindo o custo da atenção primária, aprendendo a operar esse modelo, começar a ter o círculo virtuoso de ter os dados e começar a roteirizar os pacientes para os caminhos mais custo-eficazes. Ter a rede priorizada com aqueles provedores mais custo-eficazes. O resultado começa a vir. É um desafio, mas estamos cedo na jornada. O nosso N ainda é pequeno, e queremos ver essa operação com mais de 50 mil pessoas e como ela se comporta.

Um tema quente em saúde suplementar é em relação às novas coberturas, especificamente sobre os tratamentos de transtorno do espectro autista. Como vocês estão vendo esse assunto dentro da Alice?

Guilherme Azevedo – Estamos vendo de forma tão relevante que montamos uma operação própria. Trabalhamos com parceiros. Por isso, montamos um time especializado interno, com algumas linhas de cuidado baseadas nos diferentes espectros onde os membros são direcionados. Muitas vezes, os profissionais são contratados diretamente pela Alice. Resolvemos entrar bem a fundo no entendimento e na gestão dessas linhas de cuidado. É um assunto super relevante hoje em dia, tanto em frequência quanto em custo, e em importância social.

Uma das grandes críticas é você não conseguir acompanhar, de fato, essa jornada, quais são os protocolos. Então, tendo mais controle disso, você entende também o que está sendo feito.

Guilherme Azevedo – E você aperfeiçoa e aumenta a custo-efetividade.

Sobre a inclusão de novos tratamentos ou tratamentos de alto custo, como vocês veem essa questão? Vocês se preparam para isso de alguma forma?

Guilherme Azevedo – Estamos nessa jornada há pouco tempo para ter uma participação ativa nessa discussão. Somos uma empresa pequena, uma operadora de porte médio. Ainda não atingimos a maturidade para conseguir estar nessa pauta de discussão. Eu fico repetindo a mesma palavra, mas é custo-efetividade. Se uma terapia ou medicamento proporciona custo-efetividade para o sistema de saúde como um todo, isso faz sentido. Em outras palavras, os critérios de avaliação técnica são de extrema importância.

Sobre reajustes. A Alice faz uma publicidade falando de um reajuste controlado. É possível não ter grandes reajustes? Como vocês fazem essa equação?

Guilherme Azevedo – Primeiro, é importante entendermos o que é o reajuste e qual é a causa raiz por trás dele. A causa raiz do reajuste, embora não goste dessa expressão, é o que geralmente chamamos de ‘inflação médica’. Vale ressaltar que a inflação médica não significa que os médicos estão recebendo 40% a mais, claro que não. A inflação médica tem várias causas, mas a principal é o desperdício. O custo da saúde é quantidade x preço unitário. A quantidade refere-se à frequência de procedimentos médicos, enquanto o preço unitário é o custo de cada procedimento, como o custo por consulta, por exemplo. O desafio do setor de saúde está na gestão da frequência, que se desdobra em duas categorias: a frequência pertinente e a não pertinente. Precisamos reduzir ou até eliminar a frequência não pertinente. Mas o que é a frequência não pertinente? Refere-se a consultas, exames ou cirurgias que não precisavam acontecer, ou a opções de tratamento que, embora resolvam o problema do paciente, são menos eficazes e mais dispendiosas do que outras que proporcionam o mesmo resultado com um custo menor.

“É importante otimizar esses processos, visando um benefício tanto para o paciente quanto para o sistema de saúde.”

E o reembolso?

Guilherme Azevedo – Uma característica do sistema de saúde brasileiro é o tal do reembolso. Nós até temos o produto de reembolso na Alice, porque eventualmente a empresa quer comprar o reembolso para alguns funcionários, mas é um produto que infelizmente destrói o sistema de saúde na forma, no arranjo que ele está, que ele foi estabelecido. No momento em que você coloca uma estrutura de produto diferente, por exemplo, com coparticipação, com a rede fechada, sem reembolso, a rede fechada tem que ser boa. Quando se muda estruturalmente a estrutura de produtos do nosso centro de saúde privado, a tal da inflação médica vai cair. É inevitável.

Importante uma mudança do usuário em relação ao uso?

Guilherme Azevedo – Quando você sai do produto de livre reembolso, onde vale tudo, pode tudo, para um produto que tem mais controle, o usuário pensa: “Será que precisa desse exame mesmo? Deixa eu questionar só um pouquinho se faz sentido eu fazer isso, porque eu vou ter que pagar um pedacinho”. E não é muito, não. É só para incentivar a pessoa a fazer o senso daquela jornada. Isso tudo melhora muito o sistema de saúde. Mas a consequência disso, a premissa para isso, é que o usuário típico do plano de saúde tem que mudar a cabeça. E eu sei que é pedir demais para mudar a cabeça. Como é que o sistema de saúde do Brasil vai mudar e está mudando? Porque ficou caro. O produto tem essas características, ele é mais barato ou ele reajusta menos? Na Alica, fizemos algumas coisas. Uma delas é uma estrutura de produto que, para a empresa, ela vai ter um reajuste muito menor e ela vai pagar menos. Agora, se a empresa mesmo assim quiser o produto que tem reembolso ilimitado e sem coparticipação porque ele é mais confortável, não tem problema, você pode comprar esse produto, mas ele vai custar mais caro e o seu reajuste vai ser muito maior. Simples assim. Essa é a equação. Essa é a mágica. Não tem nada de ruim. É uma evolução do produto.

Acredita que é importante essa orientação clara de como funciona um plano de saúde?

Guilherme Azevedo – Não sei até que ponto fizemos um bom trabalho como sociedade de educar sobre o que é, de verdade, o plano de saúde em termos de quais os mecanismos, como ele funciona e como usar. Precisamos, como setor, fazer um trabalho melhor de conscientização de o que é causa e efeito. Aquela coisa de pegar os dois reembolsos do médico, o que acontece? Acontece que dos 23% de reajuste, talvez 3 pontos percentuais seja a história dos dois reembolsos. O impacto é dessa magnitude. Se alguém faz uma ressonância magnética, repetindo o exame porque perdeu o resultado anterior, isso contribui para aproximadamente 2% do reajuste do plano de saúde, por exemplo. É importante que as pessoas entendam que esse tipo de uso inadequado contribui para o desperdício e, eventualmente, impacta no aumento dos custos do plano para todos os usuários.

Falta transparência dessas informações?

Guilherme Azevedo – Este assunto de transparência de preços é bastante relevante nos Estados Unidos. Lá, eles enfrentam um problema sério com os preços unitários. As coisas são muito caras e a variabilidade de preços é surreal. O custo de uma ressonância magnética em diferentes locais pode variar enormemente. Há um grande debate sobre como garantir transparência para o consumidor americano, pois é ele quem paga. A diferença é que nos Estados Unidos, praticamente 100% dos planos de saúde possuem coparticipação e franquia. Estruturalmente, poucas pessoas sabem disso, mas, na média, quase todos os planos de saúde americanos possuem esses dois mecanismos de incentivo para que o usuário reflita sobre o que está utilizando. A franquia é o primeiro aspecto: os primeiros X mil dólares de despesas médicas são pagos pelo próprio usuário, e somente depois disso o seguro entra em vigor. Quando o seguro começa a cobrir as despesas, entra em cena a coparticipação, na qual o usuário paga uma parte do valor que o seguro cobre. Para os usuários com coparticipação, é crucial ter uma noção de quanto será. Nos Estados Unidos, a principal causa de falências individuais são as contas médicas.

“Muitas vezes, as pessoas passam por internações caríssimas e acabam com uma conta de coparticipação que não conseguem pagar. Isso não existe no Brasil, e eu considero isso predatório. Eu não gostaria que fosse assim.”

Você trouxe esse conceito da coparticipação como uma forma de consciência. Isso poderia fazer sentido aqui no Brasil?

Guilherme Azevedo – Isso faz total sentido. Não é para onerar a pessoa, é para fazer a pessoa refletir. Não é sobre a coparticipação custar um dinheirão. Acho isso péssimo. É sobre a coparticipação custar algum dinheiro e a pessoa, na hora, parar e falar: “deixa eu criticar, deixa eu refletir sobre isso que estou gerando de despesa. Faz sentido ou não faz?”. Porque se não custa nada, você nem pensa sobre isso. E aí tem desperdício.

Para 2024. Quais são os olhares e próximos passos?

Guilherme Azevedo – Estamos superanimados com a nossa agenda. Muitas empresas com algumas dezenas ou centenas de funcionários estão vivenciando esse tipo de situação, enfrentando reajustes de 30% a 40% e, após dois ou três ciclos desses, estão desesperadas nos procurando. Nós oferecemos um produto equivalente, porém mais em conta. Nosso reajuste do ano passado foi de 13%, enquanto a média do mercado foi de 24%. Isso tem sido muito próspero para nós. Além disso, nosso nível de atendimento é bastante singular, tanto para a empresa quanto para o departamento de RH. Facilitamos muito a vida da RH e estamos animados com isso, tanto com o que chamamos de PME, empresas com 5 a 10 pessoas, quanto com empresas maiores, de até 1.000 ou 2.000 funcionários. Estamos tendo muitas conversas e demandas, porque nosso produto faz sentido para essas empresas.

Vocês têm rede nacional em parceria?

Guilherme Azevedo – Exatamente. A empresa que tem 500 funcionários, dos quais 100 estão espalhados – porque hoje em dia é normal – nós vamos cobrir essas 100 pessoas espalhadas com a nossa rede nacional.

Quais são as pautas que o Futuro da Saúde precisa ficar de olho ao longo de 2024?

Guilherme Azevedo – Resultados de saúde. Pensa assim, você é a área de compras de uma empresa. Eu não estou diminuindo o tema da saúde, muito pelo contrário. Eu só estou tentando usar um framework que é: quando você compra um serviço ou um produto, você quer saber a performance deste produto. Quando compramos saúde, não temos a métrica de performance. Temos a métrica: “puxa, eu fui curado. Eu estou sendo tratado ou a minha demanda de saúde foi curada”. Mas, quanto custou para a sociedade como um todo esse processo de cura, ou de controle, ou de terapia? No sentido de ter um outro caminho que eu consiga ser curado mais rápido, melhor e custar menos. O que é custo-efetividade? Por exemplo, as métricas que eu estou falando de partos normais versus cesáreas na Alice são exemplos disso. É ser mais crítico e exigir métrica. Métrica de tudo. Isso é inevitável e vai acontecer. A questão é que nem todo mundo tem dados para mostrar, por isso que a tecnologia é tão importante. É preciso ter um senso do que é custo-efetivo, quem proporciona o melhor desfecho de forma menos dispendiosa. Precisa ser bom para o paciente e custar menos para o sistema. Não são muitas condições de saúde que representam o grande volume do custo de saúde. Esse dia vai chegar.

Natalia Cuminale

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, com as reportagens, na newsletter, com uma curadoria semanal, e nas nossas redes sociais, com conteúdos no YouTube.

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One Comment

  1. RAIMUNDO PINHEIRO 11/04/2024 at 10:51 - Reply

    Muito boa entrevista. Parabens ao Guilherme e a Natahalia. Com a expectativa de vida de 79 anos no Brasil o custo / efetividade da saude precisa ser discutido no senti de se descobrir caminhos adequados para o usuário, o prestador e o investidor

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