Giovanni Cerri, presidente do conselho do InovaHC: “Saúde digital vai transformar o setor”

Giovanni Cerri, presidente do conselho do InovaHC: “Saúde digital vai transformar o setor”

No mais recente episódio de Futuro Talks, Giovanni Cerri, ex-secretário de saúde de São Paulo e presidente do conselho do InovaHC, abordou o potencial da saúde digital na transformação do setor

By Published On: 25/09/2023

Saúde digital tem o potencial de resolver pelo menos três importantes desafios do setor: acesso, desigualdade e custo. Essa é uma das visões que Giovanni Cerri, ex-secretário de saúde do Estado de São Paulo e presidente do conselho do InovaHC – braço de inovação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) –, compartilhou no mais recente episódio do Futuro Talks. Mas o Brasil ainda está no começo dessa jornada, segundo ele. Isso porque essa transformação demanda uma mudança cultural, investimento e até mesmo avanços técnicos, como a conectividade.

Ao longo da conversa, Cerri explorou diversos outros aspectos da saúde digital e destacou que teleconsulta, por exemplo, é apenas uma pequena parte desse processo de digitalização, que envolve ainda conscientização por parte de todos os envolvidos no sistema e o avanço da interoperabilidade – que na visão dele é um passo necessário para o país, mas que avançamos pouco ainda. Para ele, inovação se faz de forma colaborativa e, neste sentido, ele trouxe o exemplo do Consórcio de Inovação em Saúde, anunciado em fevereiro deste ano, uma iniciativa que reúne academia (Insper), setor público (InovaHC) e privado (Hospital Alemão Oswaldo Cruz) – e que deve receber uma nova instituição em breve.

Cerri, que ainda é professor-titular de radiologia da Faculdade de Medicina da USP, presidente do conselho do Instituto de Radiologia do HCFMUSP e responsável pelo serviço de diagnóstico por imagem do Hospital Sírio-Libanês, além de membro titular e da diretoria da Academia Nacional de Medicina e da Academia Paulista de Medicina, preside também o Instituto Coalização Saúde (ICOS) – iniciativa que reúne empresas e instituições para discutir a saúde. Durante a entrevista, ele disse que viu um fenômeno interessante nos últimos anos: quanto mais o país avançava na polarização, o setor de saúde se aproximava para buscar soluções. Dentre elas, Cerri revelou que diversas propostas para o avanço da saúde digital no sistema público nasceram em discussões no ICOS.

Diante de todo esse cenário, Cerri avalia que estamos apenas no começo da exploração do potencial da saúde digital. De um lado, novos avanços devem chegar, como a inteligência artificial, que segundo ele servirá de ferramenta para os profissionais entregarem mais qualidade no cuidado. De outro, desafios como o envelhecimento e a necessidade de mudança de mentalidade – da doença para a promoção da saúde – devem pressionar ainda mais o setor para acelerar as inovações.

Confira a entrevista a seguir:

https://youtu.be/FFl_Q_VgZjU?si=nYrky3fPtDVYib3d

Como estamos na saúde digital tanto do ponto de vista público quanto privado?

Giovanni Cerri – Eu diria que a pandemia, com toda a tragédia que foi do ponto de vista sanitário, deixou um legado positivo que foi a tecnologia. Eu lembro que antes da pandemia via aquela resistência à questão da teleconsulta. O Conselho Federal de Medicina estabeleceu uma nova normativa que teve que ser derrubada e a pandemia obrigou a sociedade e os conselhos de que a teleconsulta deveria fazer parte da realidade, a partir do momento que as pessoas não podiam se locomover e precisavam de assistência da mesma forma. Então, a pandemia deu esse impulso na telemedicina e depois se percebeu que, na verdade, teleconsulta é uma pequena parte de um grande fenômeno da saúde que chama saúde digital. Até porque nós temos a teleconsulta, mas ela é muito melhor se for monitorada, ou seja, ao mesmo tempo em que o médico fala com o paciente, esse paciente é monitorado, pode obter uma série de sinais vitais. E todos esses aplicativos, esses devices que estão sendo incorporados à teleconsulta representam uma enorme fonte de startups, de possibilidades de inovação e empreendedorismo. E não só isso. Por exemplo, nós vimos aqui no Brasil que a mortalidade durante a pandemia de uma UTI para outra variava em três vezes e meia. O que isso significa? Que se o paciente tivesse a sorte de parar em uma UTI boa, ele tinha três vezes e meia mais chance de sobreviver do que se ele fosse parar na UTI errada. Tinha UTI no Brasil com mortalidade de 100%.

E a certa ou errada nesse contexto tinha a ver não só com a capacidade técnica, mas também com a digitalização?

Giovanni Cerri – Estava principalmente relacionado com capacitação. Qual é o papel da saúde digital em tudo isso? Através dela, passou-se a capacitar os médicos dessas UTIs. A mortalidade caiu à medida que os profissionais eram capacitados. Então, mostra que a saúde digital vai muito além de uma relação médico-paciente. Vai na introdução de tecnologia, na capacitação à distância, na capacitação em grande número. Deixa de existir fronteiras. A pessoa pode ser treinada, pode absorver conhecimentos. E também significa levar médicos, profissionais de saúde em lugares remotos. E quando eu falo em lugares remotos, não me refiro só à Região Amazônica. Me refiro, por exemplo, à periferia de São Paulo. Então, a saúde digital tem algumas qualidades muito importantes. A primeira é que ela melhora o acesso, ou seja, pessoas que têm hoje dificuldade de acesso à saúde passam a ter uma janela de oportunidade de poder se comunicar com o profissional de saúde mesmo estando à distância, mesmo tendo dificuldade.

E a segunda?

Giovanni Cerri – A segunda é a redução da desigualdade, porque antes só uma parte da população podia ter acesso à saúde, mas com a saúde digital outra grande parte passa a ser incluída na possibilidade de atendimento. E outro aspecto importante é a redução de custo. Porque esse é o principal fator que tem que ser vencido ao longo das próximas décadas. A saúde digital pode ajudar a equacionar o custo da saúde.

Estamos muito no começo dessa jornada ainda?

Giovanni Cerri – Acho que estamos bem no começo. Quando começamos a estruturar pelo InovaHC, que é o braço de inovação do Hospital das Clínicas, um projeto de saúde digital, tivemos apoio do governo britânico, porque ele foi um inspirador. Nós nos inspiramos no NHS, que é o sistema britânico de saúde pública. E ele nos apoiou a estruturar um projeto de saúde digital para o Brasil. E nós vimos que as possibilidades de aplicação de saúde digital vão desde as consultas – hoje boa parte das consultas em psiquiatria são através de teleconsulta, até reabilitação pode ser feita através dela – até a força numa questão importantíssima que é mudar o conceito que nós temos hoje de tratar a doença para um novo conceito que é promover a saúde. Grande parte das doenças crônicas que existem hoje é evitável. Com hábitos saudáveis, dieta, exercício, redução de estresse. E por que isso não acontece? Por educação. As pessoas não estão informadas, não são educadas para isso.

A saúde digital pode justamente transformar essa questão de educação e fazer com que as pessoas se preocupem mais em preservar a saúde do que trata a doença.

Todo esse conceito de comunicação, de poder transmitir informação de uma forma rápida, é que, na minha opinião, vai ajudar na transformação e reduzir o custo. Fazer com que boa parte da população do nosso país, que hoje está excluída, possa ser incluída. Mas ainda estamos realmente nos primeiros passos. Foi muito importante a criação da Secretaria de Saúde Digital. Também foi muito importante que o Governo do Estado de São Paulo colocou saúde digital como a sua primeira prioridade na saúde. Quer dizer, existe a consciência da necessidade dessa transformação.

Chegou a ser tema até de debate presencial nas eleições, lembra?

Giovanni Cerri – Lembro, claro. Lembro que o vice-presidente Geraldo Alckmin, com quem eu trabalhei no governo do estado, nós conversávamos e ele se deu conta da importância disso. Ele coordenava a transição e levou essa questão da saúde digital. Foi um projeto que foi levado pelo Instituto Coalização Saúde e também pelo InovaHC, que foram os parceiros na construção do grande projeto de saúde digital junto com o governo britânico.

Por que esse avanço da saúde digital não ocorre mais rápido na prática?

Giovanni Cerri – É uma mudança de cultura. E toda transformação cultural é um processo lento. Primeiro, as pessoas precisam se convencer que é importante. Depois fazer investimentos necessários. E aí eu introduzo outro problema que nós percebemos na implantação desse projeto no Hospital das Clínicas, que é o problema da conectividade. Porque se não tem conectividade, ou seja, se não tem uma internet eficiente, uma consulta, por exemplo, fica truncada.

Não adianta só ter o celular?

Giovanni Cerri – Exato. Esse celular precisa se conectar bem e que as duas pontas consigam falar de forma adequada, espontânea. Entendo tudo o que está sendo explicado. Isso é fundamental no consultório. Então, percebemos que existe esse problema de conectividade. Muitas vezes até nas grandes cidades é deficiente. E até em lugares mais remotos, como a Região Amazônica. E daí nós passamos a desenvolver um projeto de 5G na saúde. Nós observamos se com 5G era possível que as informações transitassem de uma forma adequada. E mais: que, por exemplo, imagens de exames de ultrassom feitos na Região Amazônica pudessem ser enviadas para São Paulo, interpretados por profissionais aqui. Bem naquele conceito de que não é só a teleconsulta, mas essa teleconsulta tem que trazer tecnologia junto, como um exame de ultrassom à distância. E um dia vai ser até possível um cirurgião de São Paulo operar um paciente em Manaus a partir do momento que a conectividade for adequada.

Para essa cirurgia à distância ser possível não pode ter delay, né?

Giovanni Cerri – Exato, não pode ter delay. Começamos a testar com 5G em exames de ultrassom. As imagens são mais complexas, mais difíceis de transmitir do que simplesmente uma conversa médico-paciente. Mas vimos que as imagens chegavam na mesma hora. Então, isso para imagens de exames radiológicos já funciona. Certamente funcionarão para informações clínicas, de prontuário, e, no futuro, isso vai possibilitar até que um cirurgião daqui opere um paciente à distância considerando que alguns especialistas estão muito localizados em alguns centros. E é muito ruim um paciente ter que sair da sua cidade, fazer uma viagem longa, trazer a família tudo. Isso tem um impacto social e econômico. Então, se no futuro, esses pacientes puderem ser atendidos próximo do local onde vivem, permitindo que os especialistas possam atender esses pacientes, vai ser um passo muito importante. Como, hoje, a saúde digital permite levar especialistas onde eles não estão. Principalmente do ponto de vista clínico. Então, acredito que sim, no futuro até o cirurgião possa atender à distância, por meio de robôs operados remotamente.

Utilizando braços robóticos.

Giovanni Cerri – Sim, por braços robóticos, usando uma tecnologia atrelada a essa conectividade. Um robô no centro cirúrgico operado à distância. Nós já fazemos isso. Um dos nossos outros projetos em saúde digital é operar equipamentos à distância, de tomografia e de ressonância magnética. Qual a importância disso? Hoje, muitos equipamentos de tomografia e ressonância magnética ficam parados no final de semana ou de noite por falta de pessoal especializado, um biomédico, um técnico. Fica muito caro você ter um profissional no fim de semana para atender dois ou três casos, mas esses dois ou três casos são urgentes. Às vezes é um AVC, algo que precisa de um atendimento. Então, nós desenvolvemos um projeto que já saiu do projeto piloto e pode ser executado, em que se pode, a partir de um determinado local, operar vários equipamentos de ressonância tomografia à distância. Veja as possibilidades que surgem com saúde digital, que impactam muito no custo. Você põe o equipamento de ressonância, que é caríssimo e muitas vezes ficam parados por falta de operadores e opera a milhares de quilômetros de distância com a mesma qualidade. Ainda precisa de um profissional de enfermagem que coloque o paciente na mesa, mas o equipamento é operado por especialistas à distância com a mesma eficiência que se estivessem presentes.

Antes de encerrar essa pauta, já faz um ano que a gente tem 5G no Brasil. Você acha que a gente já evoluiu?

Giovanni Cerri – Eu acho que 5G está um pouco como a saúde digital, ainda está no começo. Ainda não é algo que está totalmente disponível. Muitos equipamentos, muitos celulares ainda não são adequados. Mas o que nós fizemos também é, como sabemos que em alguns lugares do país as grandes redes de telefonia não vão chegar, nós vamos ter uma alternativa que é Open Care 5G. Ou seja, dá para montar uma rede de 5G privada que não dependa das grandes redes telefonia.

Essa é uma solução, por exemplo, para a Região Amazônica. Então, é possível conectar com 5G mesmo regiões que não serão conectadas pelas grandes redes de telefonia muitas vezes por falta de densidade.

Apesar de estarmos no começo, as coisas estão caminhando e a mesma tecnologia que tem lá fora tem aqui também?

Giovanni Cerri – Sem dúvida. Eu acho que a transformação digital, no caso da saúde digital, é algo que veio para ficar. Uma necessidade incrível. E poderá ser implantada em velocidades diferentes dependendo da região do país, mas será implantado. Foi como vieram os computadores, os celulares. Talvez o ritmo vá depender um pouco dos governantes, do empenho, dos investimentos. Mas essa é uma realidade fundamental para poder reunir aspectos importantes num país como nosso, como a questão do acesso e da desigualdade.

Agora, isso também vai começar a ser demandado pela sociedade, certo? Mesmo que não esteja na pauta prioritária dos governantes, as pessoas vão entendendo essas possibilidades.

Giovanni Cerri – Claro. E eu cito outro exemplo. Na saúde, um grande problema é que as pessoas sentem alguma coisa e vão para pronto socorro. Nas pessoas que têm menos acesso é porque posto de saúde não funciona, não tem médico, a UBS não atende direito. Eles correm para o pronto-socorro porque não tem para onde correr. E mesmo em pessoas que têm mais condições e tem um plano de saúde, ou seja, um acesso melhor, também há a cultura do pronto-socorro. Através dos recursos da saúde digital, e isso é uma coisa que já é feita, se pode orientar o paciente para ir ou não pronto-socorro. Qual a importância disso? Quando pessoas que não devem estar no pronto-socorro estão lá, isso cria dois problemas. Primeiro, porque que atrapalham as pessoas que realmente precisam do pronto-socorro. Segundo, porque se submetem ao risco de uma infecção. Então, essa cultura do pronto-socorro pode ser minimizada através da saúde digital.

Queria entrar no tópico do consórcio entre o InovaHC, Insper e Hospital Alemão Oswaldo Cruz. O quanto já andou e por que houve essa união com outros players?

Giovanni Cerri – Em breve teremos um outro player que vai se unir a esse consórcio, que é o Hospital Sírio-Libanês. Nós somos complementares. Inovação só se faz de forma cooperativa. Ninguém faz inovação sozinho. Eu aprendi em Stanford que é o médico tinha ideia, mas ele não sabia muitas vezes implementar essa ideia. E inovação avançou quando se trouxe um engenheiro para dentro do hospital, pelo papel de complementaridade. Então, inovação se faz com profissionais que tem uma visão complementar. Médico, engenheiro, economista, profissional de saúde. Esse consórcio uniu instituições que são complementares. Primeiro, o pessoal das Clínicas, um grande hospital público. O Oswaldo Cruz, de saúde privada. E uma instituição de ensino de referência, o Insper, que veio agregar essa questão multiprofissional, mas principalmente na questão dos engenheiros. Ou seja, profissionais de saúde podendo desenvolver junto com os engenheiros ou administradores do Insper projetos inovadores na área da saúde. À medida que as instituições de saúde vão descobrindo as dores, os engenheiros ajudam aos processos de saúde a desenvolver soluções inovativas que possam melhorar a assistência dentro de uma customização adequada para o nosso país. Eu acho que durante a pandemia nós percebemos que não podemos ser dependentes de importar tudo. Não há nenhuma razão para não fazermos respiradores, luvas e até vacinas aqui. O Brasil é o único grande país do mundo que não produziu sua vacina. A Índia produziu. China, Rússia, Europa, Estados Unidos. Então, nós observamos que nós temos deficiências. E a principal deficiência é depender de importados na saúde. O Brasil importa 80% do consumo na saúde. Isso não é necessário.

Nós temos uma boa academia, bons cérebros. O que falta justamente é poder unir essas forças complementares. Criar um ecossistema de inovação e poder desenvolver as nossas soluções. Isso vai trazer grande economia e vai melhorar o acesso da nossa população a uma saúde de qualidade.

Quais projetos estão rodando pelo consórcio?

Giovanni Cerri – Existem alguns projetos relacionados com saúde digital, outros com devices, aplicativos que possam melhorar a jornada do paciente. O projeto 5G, através do Open Care, foi um projeto selecionado também. Então, cada um traz propostas de projeto e de como trabalhar juntos.

Falando ainda em parceria, queria trazer outra que o InovaHC firmou com a Unimed. Qual é a expectativa para essa parceria?

Giovanni Cerri – Ela vai na mesma linha. Quando desenvolvemos o InovaHC, enxergamos ele como um grande hub de inovação aberta com parceiros públicos e privados. As Unimed são os maiores sistemas de saúde privado do país. Eles são segmentados, mas são os que atendem mais pacientes privados no país. E, evidentemente, eles sentem a mesma dificuldade que tem o sistema de saúde pública, de atender em larga escala, o acesso, as teleconssultas, soluções para poder melhorar o atendimento, a jornada do paciente. Cito, por exemplo, a jornada de um paciente no HC. O paciente, para fazer uma consulta presencial, sai de casa cedo, muitas vezes tem uma limitação física, uma pessoa de idade, que tem que mobilizar um parente, que deixa de trabalhar. Às vezes tem que pegar duas conduções, gastar duas horas para chegar, ficar esperando e ser atendido. Tudo isso pode trocado por uma consulta online, com hora marcada. Ninguém precisa se locomover. Acho que muitas pessoas não se atentaram como a jornada do paciente é importante e como, através de tecnologia, podemos tornar essa jornada muito mais agradável e muito mais eficiente. E é por isso que, com a tecnologia, o foco tem que estar no paciente. Ele tem que ser o centro do sistema de saúde. Quais são as necessidades do paciente? Como podemos atender melhor? Como podemos conectar esse paciente ao sistema de saúde? É uma mudança de conceito essa transformação digital. O paciente passa a ser o centro do sistema de saúde e todos têm que desenvolver soluções para melhorar essa jornada do paciente. E esse é um pouco a questão do entendimento com a Unimed. Quer dizer, como vamos conseguir fazer com que os pacientes de um grande sistema de saúde possam ser atendidos de uma forma mais eficaz e que fiquem mais contentes com os cuidados que têm recebido.

Neste contexto do paciente no centro das decisões, com sua experiência, o que é o mais importante para paciente dentro de toda a jornada?

Giovanni Cerri – O mais importante para o paciente é preservar a saúde. É perceber que é muito mais importante ter a saúde do que tratar a doença. Ou seja, todo o sistema de saúde, público e privado, começarem justamente a educar a nossa população que promoção é muito melhor do que tratamento. Eu sempre digo que o Ministério da Saúde devia se chamar o Ministério da Doença, porque só se fala em doença, só se trata a doença, enquanto se fala muito pouco em promoção. Bilhões poderiam ser economizados. Aliás, o maior custo da saúde no país são as doenças crônicas evitáveis. E eu acrescentaria uma outra coisa nesse conceito de saúde digital que é a interoperabilidade. Você vai fazer seus exames no laboratório do Fleury, por exemplo, mas o exame fica lá. E assim é em qualquer sistema. A pessoa vai no posto de saúde, na UBS, aí de repente ele tem uma dor abdominal e vai para o hospital. E cadê os exames dele? Então, o grande passo que vai melhorar muito nosso sistema de saúde é a interoperabilidade, ou seja, seus dados de saúde estão na nuvem e disponíveis em qualquer lugar onde você for atendido. Os dados são seus e você vai ter acesso em qualquer lugar, seja sistema público ou privado. Isso vai ter grandes consequências. Primeiro, de economia. Depois, de eficiência. Ou seja, quando chegar no pronto-socorro de outro estado já vão saber tudo que você fez, já vão ter seus últimos exames de sangue, sua tomografia. Essa é uma conquista necessária para o país. Nós precisamos ter vontade de fazer.

Por que isso não avança mais rápido na saúde?

Giovanni Cerri – A vacina na pandemia, por exemplo, mostrou que é possível. Quando falamos de Imposto de Renda, vemos como o governo é eficiente em ter acesso a todos os nossos dados. Então, é uma questão de vontade, porque tecnologicamente não é nem tão complexo assim, principalmente desde que é possível guardar os dados na nuvem. Antes você precisava ter grandes computadores.

Na saúde há muitos dados, é muito difícil, mas hoje existe forma de armazenar e compartilhar. Então, eu diria que é mais uma vontade política do setor público e do setor privado. O setor privado bancário teve vontade de fazer. Esse exemplo tem que ser seguido pela saúde.

Nós vamos conseguir interoperabilidade no Brasil inteiro ao mesmo tempo? Não. Mas temos que começar em algum lugar. Então, para o Estado de São Paulo, que tem uma rede de atendimento, uma estrutura melhor, o Sudeste, deveriam começar. As instituições privadas, a Anahp, Abramed. Acho que tem que ter essa coragem de começar a compartilhar os dados, porque isso vai ser muito bom para os pacientes.

Aproveitando esse ganho, queria entrar no tópico do Instituto Coalização Saúde. Estando lá dentro, como você tem visto a evolução dessas discussões na prática? Você sente que as lideranças estão mais dispostas a trocar e dar o próximo passo?

Giovanni Cerri – O ICOS foi uma ideia muito interessante. Foi uma ideia de reunir o setor produtivo da saúde e discutir convergências, uma agenda comum, porque dentro de saúde nós temos a indústria dos farmacêuticos, indústria eletromédica, temos as operadoras, hospitais filantrópicos e privados, temos o setor diagnóstico. Dentro desse grupo identificamos que existem divergências. Claro, as seguradoras querem pagar menos, os hospitais querem receber mais, a indústria quer vender produtos. Então, a nossa agenda foi uma agenda de reunir temas que nós consideramos importantes e que o setor pudesse discutir numa agenda propositiva, de propor para os governos e para a sociedade medidas que poderiam melhorar a saúde. E nós avançamos muito em vários setores. Na judicialização, por exemplo. E, mais recentemente, na saúde digital. As nossas últimas propostas que levamos ao comitê de transição através do vice-presidente Geraldo Alckmin. Tem a questão da reindustrialização na área da saúde, que é pauta prioritária do governo, e a questão também do financiamento, que é um tema muito difícil. Ou seja, as pautas do ICOS sempre buscaram ser propositivas, que interessassem todo o setor e pudessem ajudar a transformar a saúde do Brasil. Mas temos que sair do discurso e partir para a ação.

Mas nesse ponto da execução, a impressão que dá é que poderia ir mais rápido, não é?

Giovanni Cerri – Sem dúvida. Nós sempre esperamos que o Brasil pudesse avançar mais rápido do que a realidade. Temos essa expectativa de que o Brasil se transforme. Talvez pelas dimensões, pela complexidade. Até muito por uma falta de união, de direção única. Saúde como política de governo, não de Estado. Até a questão da dificuldade de investimentos. Nós somos um país de renda média, que adotou um sistema de saúde universal. Mesmo países hoje como a Grã-Bretanha, França, Alemanha, países europeus que têm um sistema social muito mais desenvolvido, são muito mais ricos, hoje têm dificuldades de oferecer uma saúde de qualidade para o cidadão. Porque o grande impacto que nós estamos tendo é a questão do envelhecimento da população. O paciente idoso custa de 3 a 4 vezes mais um paciente jovem. Os países desenvolvidos tiveram esse problema do envelhecimento – o problema é que o Brasil também está envelhecendo rápido – tiveram um impacto no custo da saúde que eles não estavam preparados. Então, essa questão do envelhecimento da população e as doenças crônicas que acompanham formam um desafio enorme. Por isso que temos que sair com soluções que sejam realistas. E, sem dúvida, saúde digital eu vejo como a melhor possibilidade de podermos reduzir o custo da saúde. E quando fala de saúde digital, não só a questão de dar acesso para quem precisa de tratamento, mas simplesmente na questão da promoção da saúde.

Voltando para o tópico das lideranças, você sente que há mais espaço para o diálogo?

Giovanni Cerri – Esse é um aspecto muito interessante. À medida que o país foi polarizando – e eu acho que isso é um desastre – a saúde foi se unindo. Então, vejo que o setor produtivo da saúde – e nós reunimos 80% do setor produtivo da saúde – foi tendo mais identificação com propostas construtivas. Muitas vezes as divergências vão sendo deixadas de lado por uma pauta propositiva que possa atender os interesses gerais do cidadão. Então, senti que o setor caminhou ao contrário, nas convergências, enquanto o país está muito polarizado. Acho isso positivo. Acho que existe uma consciência da necessidade de se trabalhar juntos. Não adianta hospitais brigarem com operadoras e brigarem com a com a indústria farmacêutica. É importante que se encontre uma forma de convivência adequada, onde seja um ganha-ganha e se possa construir um sistema de saúde menos disfuncional.

Agora entrando no cenário de futuro, com inovações e inteligência artificial, há quem diga que dentro da radiologia isso deve avançar bastante. Como você vê esse cenário?

Giovanni Cerri – Há cinco anos teve um cientista que disse que deveriam parar de formar radiologistas, porque a tecnologia e a inteligência artificial fariam os laudos. Foi um diagnóstico totalmente equivocado. Porque a inteligência artificial é um instrumento. É algo que ajuda o radiologista. Então, eu diria que a interpretação mais correta é que os radiologistas que não usam inteligência artificial serão substituídos pelos que usam. A próxima geração vai ter que usar a IA porque ela melhora eficiência, pode ajudar na segurança, no diagnóstico, pode reduzir os erros, melhorar o fluxo. A inteligência artificial em radiologia, em medicina, em saúde e em outras áreas vai ajudar os profissionais a serem mais eficientes, precisos, vai dar mais segurança para o paciente. Mas como tudo, a inteligência tem que ser regulada. Assim como os computadores foram regulados ou como qualquer produto da saúde.

Não se pode simplesmente deixar a tecnologia tomar conta do mundo. O homem tem que regular a tecnologia para que esse uso seja para o bem da humanidade.

Muita coisa está mudando, não é?

Giovanni Cerri – É porque na era digital que nós vivemos as transformações são muito rápidas. É por isso que é difícil responder onde estaremos daqui a 10 anos. Antigamente nós conseguíamos responder onde estaríamos dali a 50 anos. Mas agora as transformações são rápidas e certamente muito disso que nós conversamos sobre a saúde digital estará lá presente na vida do cidadão em 10 anos, talvez não em três meses, como nós gostaríamos. Mas eu acho que até essa absorção gradual da tecnologia é importante. As pessoas têm que se preparar. Têm que absorver, estabelecer as indicações certas. Tudo isso faz parte de um processo de transformação necessário.

Você acha que a gente corre o risco de evoluir para um cuidado menos humanizado?

Giovanni Cerri – Vi um dado uma vez que nos foi trazido pelo governo britânico de que mais de 85% dos pacientes que eram atendidos através de teleconsulta na grã-bretanha achavam esse atendimento ótimo, bom ou superior. Era um NPS de satisfação de atendimento que mostrou que o paciente atendido de forma remota era melhor do que o presencial. Fizemos isso no HC e o resultado foi exatamente o mesmo. Esse atendimento à distância também pode ser humanizado. Deve ser humanizado. Por isso que dentro da nossa proposta de saúde digital é muito importante o ambiente desse relacionamento médico-paciente. A claridade, a conectividade, o ambiente onde isso tudo corre, a apresentação do profissional de saúde. Essas são condições que transformam a experiência em algo mais agradável. A linguagem clara. Tem toda uma técnica para o atendimento digital e os profissionais vão ter que ser capacitados para isso. Mas à medida que essas técnicas forem usadas e essa relação for bem estabelecida, não há necessidade de perder a humanização no atendimento apenas por estar à distância.

Tem uma outra pauta que não abordamos ainda que é a regionalização. Queria um pouco da sua perspectiva sobre essa questão. É uma pauta importante?

Giovanni Cerri – É tão importante que meu primeiro projeto de saúde, quando eu fui secretário em 2011, foi a regionalização da saúde. Sempre acreditei que a saúde tem que estar perto do cidadão. Se o paciente precisa de um tratamento, sim, claro, ele pode ter que viajar, mas tem que viajar pouco. Em São Paulo isso até que funciona relativamente bem, nós temos grandes centros em Rio Preto, Ribeirão, Campinas, São José, Marília. Tem centros universitários espalhados pelo Estado. Mas não é uma realidade nacional. Então, a regionalização da saúde é fundamental. A saúde tem que estar perto do cidadão, tem que estar perto da família, porque esse é um fenômeno também de desagregar família, de trazer problemas financeiros por causa do trabalho. Então, a importância social que está por trás da regionalização é enorme. E a saúde digital é um instrumento que ajuda a regionalização. Tanto que uma das propostas que fizemos é o AME digital no Estado de São Paulo – o ambulatório médico especialidades. A ideia dos AMEs foi levar os especialistas de forma regional onde eles não existiam. A saúde digital pode justamente ajudar nessa regionalização.

E você percebe que está avançando?

Giovanni Cerri – Acho que sim. O secretário Eleuses, aqui no Estado de São Paulo, levantou essa pauta novamente. Acho que estamos caminhando. Porque existia muito essa cultura de que todo o município tinha que ter o seu hospital, sua maternidade. Imagina, se não tiver maternidade não vai nascer cidadão na cidade. Agora já pode ter numa maternidade fora do município o registro de nascimento em outro município. Era uma mentalidade que existia. Mas é impossível em termos de custo que cada município tenha a sua maternidade ou um hospital. É importante que um consórcio de municípios tenha um hospital, maternidade, atendimento especializado.

Caminhando para o fim, como está sua perspectiva para 2024?

Giovanni Cerri – Primeiro, temos que olhar as dificuldades econômicas no país. As crises serão periódicas. Nós vivemos um pouco como uma terra de altos e baixos. Essa é a nossa realidade e será assim. Mas o que temos que buscar é uma estabilidade na saúde, ou seja, ir adiante com as políticas de incentivo em relação à saúde, à incorporação tecnológica, grandes programas como a questão da interoperabilidade, da conectividade, de reduzir a desigualdade. Então, tenho esperança para 2024 que esses projetos se consolidem. Tenho certeza que não vão estar presentes, mas que tenham andado. Ou seja, que algumas regiões de saúde sejam atendidas, que possamos ter comunidades remotas sendo atendidas de forma digital, que esse projeto de reestruturar a indústria da saúde do Brasil tenha avançado. Mesmo com as eleições, com eventuais crises financeiras. Espero que exista uma continuidade na política de saúde, já que eu tenho impressão de que todos entenderam o caminho. Agora é executar. Reconstruir esta saúde e poder realmente entender o cidadão como o centro dos cuidados.

Natalia Cuminale

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, com as reportagens, na newsletter, com uma curadoria semanal, e nas nossas redes sociais, com conteúdos no YouTube.

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