Gestão algorítmica deve transformar perfil dos profissionais de administração

Gestão algorítmica deve transformar perfil dos profissionais de administração

Novos administradores precisam se preparar para ambiente que usará cada vez mais dados e tecnologia para tomar decisão, sem deixar de lado valores éticos e boas práticas de ESG

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By Published On: 27/09/2023

Não é de hoje que a tecnologia tem reinventado a sociedade. Se na década de 90 a expansão da internet e dos sistemas de informações empresariais fez com que diversos profissionais se adaptassem, trinta anos depois uma nova onda de avanços tecnológicos desafia áreas como a de gestão a se reestruturarem. Enquanto nos últimos anos a automatização foi o grande fator de transformação das empresas, hoje a ideia de uma “gestão algorítmica” é que faz brilhar os olhos – com o apoio da inteligência artificial, a organização e interpretação de dados nortearão as decisões e, consequentemente, o perfil dos novos administradores.

“Hoje, avançamos para um mundo de algoritmos, inteligência artificial e big data, que torna viável um nível de escalabilidade inimaginável no começo dos anos 2000”, afirma João Paulo Bittencourt, coordenador acadêmico do curso de administração da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein – que recebeu a sua primeira turma este ano. “Tudo isso impulsiona o movimento de empresas que têm se transformado em verdadeiras plataformas responsáveis por um novo contexto, permeado pela gig economy”.

Embora a gestão algorítmica seja relativamente recente quando falamos em prática, as conversas sobre a metodologia que inspiraria a aplicação dos algoritmos na gestão começaram desde que a Administração foi organizada como campo de conhecimento. Um exemplo da aplicação que se torna possível atualmente é a pesquisa de Frederick Herzberg, um psicólogo norte-americano que em 1959 identificou e explorou dezesseis fatores, que ele conseguiu classificar em duas categorias – aquelas, que foram altamente relatados como levando à satisfação no trabalho, e aquelas, que foram muitas vezes ligadas à insatisfação. Entre fatores ligados positivamente à satisfação e motivação, Herzberg identificou 1753 eventos possíveis. Além disso, ele encontrou 1844 ligados à insatisfação e desmotivação. Hoje, com a gestão algorítmica, plataformas como o Uber conseguem aplicar esses fatores e eventos na motivação de seus trabalhadores. Os fundamentos da Administração fazem parte da estrutura que vemos por trás das infinitas plataformas com as quais temos contato todos os dias – não apenas em um contexto de redes sociais.

Se o futuro aponta para a tecnologia, o novo administrador deve então estar preparado não apenas para manusear os dispositivos e ferramentas, mas também para repensar o seu papel no ecossistema administrativo. Com esta nova fase da profissão, surge uma demanda de novas habilidades, uma vez que o gestor deixa de “fazer o trabalho, para desenhar o trabalho”, como pontua o coordenador acadêmico. Isso não significa um trabalho mais fácil, mas sim uma nova lógica e propósito.

“Os papéis gerenciais estão se transformando. Nessa era da inteligência artificial, o líder precisa abraçar a incerteza, porque ela é parte da vida. A tecnologia nos possibilita aumentar a ampliação de nossa atuação, mas traz consigo desafios significativos”, avalia Bittencourt. “Temos um desafio de pensar o trabalho, as regras e as suas variações – como num jogo de xadrez gigante – para entender aquilo que pode ser padronizado, aquilo que pode entrar numa régua algorítmica e o que pode ser fazer parte de um processo que gera feedback automático”.

As empresas brasileiras parecem ter compreendido a importância de investir em tecnologia da informação: de acordo com a Associação Brasileira de Empresas e Softwares, o país aplicou um total de US$ 45,2 bilhões em 2022 na área e é o líder em investimento na América Latina.

Além da gestão algorítmica, mudanças da sociedade demandam novo profissional

Ao mesmo tempo que essa transformação abre a possibilidade de que empresas ganhem escala em suas atividades, ela traz o desafio de ter que aliar as mudanças com a ética organizacional – tema que sempre foi discutido dentro de corporações mundo afora, mas ganha cada vez mais destaque.

Isso porque consumidores, clientes e pacientes passam por um momento de reavaliar os hábitos de consumo, e hoje, preferem estar associados a marcas que estejam alinhadas aos seus valores pessoais. Esta nova estrutura de pensamento afeta não apenas o varejo, mas toda a cadeia produtiva. Por isso, o novo gestor deve entender e incorporar o conceito de ESG – sigla em inglês que significa governança ambiental, social e corporativa – para garantir que a empresa esteja alinhada com boas práticas.

Além disso, habilidades como capacidade analítica e a prática baseada em evidências, boa comunicação, sensibilidade e senso de propósito passam a ser ainda mais exigidas desse profissional. Mais do que nunca, o bom líder de hoje deve ter como objetivo não apenas o lucro final da companhia, mas diversos outros aspectos humanos que afetam diretamente os colaboradores e, indiretamente, o desempenho da empresa.

E há ainda a adaptação do modelo tradicional de trabalho, que torna o horário comercial dentro de um escritório mais flexível e traz o desafio de se criar um modelo de gestão à distância eficiente. De acordo com o Índice de Confiança Robert Half (ICRH), relatório divulgado no começo do ano, 69% dos profissionais empregados têm preferência pelo modelo híbrido e 21% preferem o trabalho totalmente remoto.

O que a saúde pode ensinar para os gestores?

Neste contexto de mudanças, Bittencourt destaca como o curso de Administração do Einstein foi construído para absorver o melhor da área da saúde para a gestão, e vice-versa. “A saúde tem características muito interessantes para quem quer atuar como gestor. É uma área, por exemplo, em que as pessoas respiram propósito, que tem uma cultura de tomada de decisão a partir de evidências e frameworks consolidados, o que ainda não é tão comum nas organizações em geral”, aponta.

Outra característica que foi incorporada de maneira pioneira na instituição de ensino foi o uso da metodologia de simulação realística no curso de administração, que tradicionalmente costuma ocorrer apenas nos cursos da área de saúde. Assim como na saúde, ter uma boa comunicação interpessoal, soft skill cada vez mais valorizada no mercado de trabalho, é indispensável para quem atua em posições de gestão e liderança em qualquer setor.

“Nossos alunos vão para a prática desde o primeiro semestre, nos estágios que temos dentro das nossas próprias organizações – no total, são possíveis 2.500 de horas práticas adicionais, a maior carga horária do país. Para isso, precisamos prepará-los para cenários reais”, revela Bittencourt. “Eles passam por uma trilha de simulações realísticas que permitem o treino de situações como a demissão de um colaborador que reage de maneira conturbada, com a participação de atores que seguem um script”.

Ele explica que enquanto um aluno participa da simulação com o ator, não apenas os demais alunos, mas também professores, assistem através de uma câmera em uma sala paralela. “A ideia é que não apenas os alunos identifiquem as próprias dificuldades, mas que os professores também possam avaliar quais tópicos devem ser mais trabalhados com a turma”, pontua.

O coordenador acadêmico comenta ainda que a mais recente atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de Administração do MEC tem contribuído para uma melhor formação: “Tínhamos uma DCN de 2005, quando o mundo era totalmente outro. Em 2021, o MEC instituiu a nova DCN, que tem ajudado e muito no desenvolvimento dos cursos. “Hoje, eu tenho uma série de competências atualizadas em relação ao mundo atual, como a análise e resolução de problemas, a abordagem sistêmica, o pensamento analítico e o computacional, relacionamento interpessoal, gestão de recursos. E há muitas possibilidades de trabalhar tais habilidades com o estudante, que devem e podem ser exploradas”.

Falta de profissionais qualificados na saúde

A saúde, especificamente, vive um momento crítico, com diversas pressões ao mesmo tempo, de custos à falta de profissionais qualificados. Bittencourt lembra de uma situação vivida pelo Einstein durante a pandemia. “Em 2020, precisávamos contratar 400 profissionais da área corporativa. Temos um curso que tem 70 vagas anuais. Mesmo que a gente empregasse todos os alunos egressos do curso, não conseguiríamos suprir a necessidade do Einstein, imagina do Brasil”.

Como estratégia para suprir esse déficit, o curso no Einstein conta com uma carga horária de 700 horas apenas sobre gestão de saúde. Ele ressalta, contudo, a importância de todo gestor, independente da área de atuação que deseja seguir no futuro, conhecer minimamente os setores disponíveis para atuação. Desenvolver um currículo que equilibre a abordagem geral com aspectos mais específicos de cada indústria não é tarefa fácil.

“A administração não existe sem potencializar outras profissões. O curso de Administração do Einstein vem para acelerar essa formação e suprir essa demanda que é urgente. Além disso, o administrador que souber atuar em um cenário complexo como o da saúde, articulando excelência, alta confiabilidade e propósito, poderá liderar em qualquer outra organização”, avalia.

As inscrições para o vestibular da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein estão abertas e o prazo vai até 5 de outubro. Além do curso de administração, há ainda as graduações de medicina, enfermagem, fisioterapia, engenharia biomédica, odontologia e nutrição.

Isabelle Manzini

Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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  • Rafael Machado

    Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

  • Isabelle Manzini

    Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

  • Sidney Klajner

    Cirurgião do Aparelho Digestivo e Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Possui graduação, residência e mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, além de ser fellow of American College of Surgeons. É coordenador da pós-graduação em Coloproctologia e professor do MBA Executivo em Gestão de Saúde no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. É membro do Conselho Superior de Gestão em Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de S. aulo e coautor do livro “A Revolução Digital na Saúde” (Editora dos Editores, 2019).

Isabelle Manzini

Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.