Gaetano Crupi, presidente da BMS: “Descobertas da indústria serão cada vez mais complexas”

Gaetano Crupi, presidente da BMS: “Descobertas da indústria serão cada vez mais complexas”

No mais recente episódio de Futuro Talks, Gaetano Crupi fala sobre a transformação da indústria farmacêutica e os principais desafios na saúde

By Published On: 05/06/2023
Gaetano Crupi, presidente da BMS, em entrevista ao Futuro Talks

As inovações da medicina vão chegar às pessoas que mais precisam? Embora a indústria farmacêutica tenha avançado no desenvolvimento de novos tratamentos, o acesso da população a essas inovações ainda é uma questão crucial. Este foi apenas um dos temas do último Futuro Talks, que recebeu Gaetano Crupi, presidente da Bristol-Myers Squibb. Para ele, é preciso pensar em soluções que garantam não apenas igualdade de acesso aos tratamentos médicos, mas também uma maior representatividade da população nas pesquisas clínicas, pois saúde é um direito humano fundamental e a inovação não deve ser limitada por questões financeiras ou geográficas.

Durante a conversa, Crupi também abordou como a indústria farmacêutica está se transformando em diversas frentes. Do ponto de vista de tecnologia, a inteligência artificial deve contribuir cada vez mais para as inovações. Do lado da sustentabilidade do setor, novos modelos de negócios devem continuar despontando para buscar um equilíbrio nas contas. E na questão do futuro, ele não enxerga mais que a indústria terá aqueles medicamentos conhecidos como os blockbusters, mas sim uma atuação mais forte em doenças raras ou em câncer – com inovações cada vez mais complexas e atuação mais próxima de médicos, fontes pagadores e demais players. Neste sentido, ele acredita que é fundamental o país desenvolver logo uma Política Nacional de Câncer, pois isso ajudará a nortear as ações e até o orçamento da saúde.

O executivo, que possui mais de 20 anos de atuação na indústria farmacêutica, também destacou outros pontos importantes, como a atuação do novo governo, a ideia do Complexo Industrial da Saúde, o papel das agências reguladoras – e as burocracias que impedem o Brasil de avançar mais no cenário da pesquisa clínica – e a importância da diversidade não apenas nos ensaios, mas na atuação das empresas – uma pauta pessoal de Crupi enquanto gestor.

Confira a entrevista a seguir:

https://youtu.be/M-DN1lF-lq4

Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo no setor da saúde. Como você vê esse cenário?

Gaetano Crupi – Nenhuma analogia é perfeita, mas eu acho que é importante a gente trazer para uma analogia. Quando eu olho para aquilo que vivemos hoje – do ponto de vista do paciente, e do ponto de vista da ciência que a gente está desenvolvendo como indústria para esse paciente – é uma analogia que eu faria é como nós pensarmos no nosso Sistema Solar. Há muitos anos, se achava que estávamos sozinhos. E à medida que fomos evoluindo, fomos vendo que existem outros sistemas e uma série de outros lugares, e o universo é muito maior. Quando você me faz a pergunta, eu estou olhando para esse ambiente de hoje, esse ecossistema que leva em consideração uma série de coisas que estão pré-estabelecidas. À medida em que você parte deste princípio, nós entramos num modo que é muito mais de apagarmos crises do que termos um fluxo normal das coisas. E eu diria o seguinte: tudo começa com o paciente no centro. Esse paciente que vai viver mais, que vai estar exposto a uma série de informações e que sabe tudo aquilo que ele poderia ter. E aí você tem todo o sistema entrando – eu diria que não em colapso, por enquanto – mas num atrito muito grande, porque a conta não fecha. Essa é a temática que nós estamos vivendo no dia a dia.

E há outras formas de garantir que o paciente tenha acesso, pensando nesse sentido do paciente no centro?

Gaetano Crupi – Sem dúvida nenhuma. Eu vou te dar um exemplo muito prático. Este ano nós estamos celebrando 10 anos do lançamento do ipilimumab, que foi o primeiro produto imuno-oncológico a realmente trazer a possibilidade de que médico e paciente com melanoma poderiam começar a planejar a cura. Coisa que antes disso você falava “arrume a sua vida pelo menos nos próximos 6 meses”. Então, é uma mudança que transformou tudo. O ipilimumab era um dos checkpoints que a gente tem dentro do nosso próprio corpo, que nos ajuda a nos defendermos de ataques. Hoje nós já estamos entrando em três checkpoints. Então, veja essa evolução. O número de cânceres que hoje podem ser tratados com imuno-oncologia é uma enormidade. Nós estamos aumentando dramaticamente a sobrevida e realmente curando pacientes. Aí você descobre, por exemplo, que dentro do organismo, a célula cancerígena tem uma habilidade de se transformar que é impressionante. Antes da inteligência artificial como é que você descobria isso? Você descobria no microscópio, com tentativa e erro chegava lá. Agora, imagine, através de inteligência artificial você poder fazer esses potenciais mudanças biológicas do tumor numa rapidez enorme. E como é que você faz para que esse paciente tenha acesso a isso? Essa discussão nós precisamos ampliar.

Com todo esse avanço e a discussão de acesso, dá para pensar que vai ter, por exemplo, uma diminuição de preço ou novos modelos de negociação?

Gaetano Crupi – Claro. Novos modelos de negociação, sem dúvida. Isso nós já estamos fazendo e, com certeza, vamos evoluir. A questão da precificação, eu tenho algumas frases – depois de tanto tempo na indústria, você acaba acreditando em algumas coisas que são básicas –, que vou dizer em inglês: science drives business [ciência comanda o negócio, em tradução livre]. A indústria farmacêutica não é uma que você olha para o negócio para depois ir atrás da ciência. Se ela fizesse o negócio antes da ciência, ela não existiria hoje. A ciência é que vai dirigir o negócio, porque a ciência coloca o paciente no centro de tudo. Eu trabalhei quase 5 anos no Canadá. Trabalhei muito tempo gerenciando uma joint venture no Japão, morando nos Estados Unidos, trabalhei na Venezuela. Sou brasileiro, minha família mora na Itália. Estou exposto a sistemas de saúde diversos. E eu posso te dizer: não tem nenhum sistema de saúde hoje, em nenhum lugar do mundo, que possui a chave de todas as coisas. Você precisa trazer responsabilidades e participação do paciente e de todo esse sistema. Porque senão, você não vai ter fundos suficientes. Saúde talvez seja a única coisa na vida que você realmente precisa ser um egoísta. Porque se você não se autocuidar, se você não tomar para você a responsabilidade de buscar uma saúde melhor, para que você não precise do sistema no futuro, a conta também não fecha. Hoje, por exemplo, em alguns países há uma diferença muito grande do acesso que um paciente fumante tem quando ele é diagnosticado com câncer de pulmão. Nós sabemos que a probabilidade de ter um câncer de pulmão sendo fumante é muito grande. Então, com quem você divide essa responsabilidade? Nós estamos desenvolvendo cada vez mais produtos para que a gente possa curar o câncer de pulmão. Quando você me pergunta onde é que está o custo, o custo não está na hora de você fabricar o produto. Mas para eu desenvolver esta ciência muito complexa, é aí que vem o valor agregado. E hoje nós não temos espaço para desenvolver ciência deste padrão para melhorias incrementais.

Como indústria, não estamos buscando ou investindo naquilo que é só incremental, porque o sistema não consegue pagar o incremental, ele vai pagar o inovador.

Quando você fala de incremental…

Gaetano Crupi – O incremental é o que não muda muito, melhora pouco. Nós estamos trabalhando no revolucionário. Por exemplo, nós tivemos aprovadas em 2022, três novas drogas pelo FDA. O FDA tem nove critérios para você qualificar. Você tem que ser o primeiro, mudar todo o status da doença. Das três drogas que foram aprovadas da Bristol, nós temos uma para tratar a cardiomiopatia hipertrófica. Ele é o primeiro produto na história que vai interferir no processo da doença. Existe uma série de produtos que melhoram um pouco os sintomas, a qualidade de vida, enfim, que melhora um pouco o dia a dia de um paciente com cardiopatia hipertrófica, mas nada que muda a doença. A gente sabe que trazer mais um produto que só fizesse isso, seria incremental. E como eu entro nisso? Você imagina o quanto isso nos custou, porque nós erramos muitas coisas. O Brasil será o quarto país no mundo a lançar esse produto. A gente não é um país que vai ser o último a lançar ou um país que fica lá para trás. Nós estamos lançando como número 4. Isso foi um trabalho muito bom também feito pela Anvisa, pela Cmed, de diversas áreas.

Esse olhar para o revolucionário é uma tendência da indústria como um todo?

Gaetano Crupi – Eu diria que é uma tendência muito sedimentada neste momento do ponto de vista de indústrias com base em pesquisa e desenvolvimento. Não existe espaço para que você não olhe por este caminho.

Dificilmente veremos pela frente aqueles famosos blockbusters?

Gaetano Crupi – Dentro deste caminho do revolucionário, quais são as doenças hoje, que que você não tem uma situação em que nada realmente a transforme? Se você pensar em doença mental, é o Alzheimer. Estamos muito longe ainda de dizermos que já existe um produto. Esse sem dúvida nenhuma, é um novo Sistema Solar que nós vamos encontrar. Isso é revolucionário. Agora, nessa tentativa – eu acredito que com inteligência artificial, a gente vai poder acelerar muito isso – você tem muitas perdas pelo caminho. O custo do medicamento, quando ele vier para o mercado, tem que cobrir tudo isso que você perdeu. Não é simplesmente depois que você tem uma fórmula, fabricar o produto. Nós vamos viver mais com a probabilidade maior de termos um câncer. Alguns médicos vão dizer que não é uma questão de “se”, mas de “quando” um indivíduo desenvolverá um. E quando nós chegarmos lá, o que você quer? Você quer ter a certeza de que você tenha um produto que realmente seja eficaz no tratamento e seguro, para que você tenha uma sobrevida que você acabe morrendo de alguma outra coisa, menos daquela doença. Hoje nós vamos ter um produto que vai transformar radicalmente o controle do colesterol? Eu diria que a probabilidade de trazer alguma coisa melhor do que existe hoje, com controle de alimentação, dieta e mais os medicamentos que já foram lançados – e que a maioria hoje já tem uma versão genérica – é muito baixa. Então, estes blockbusters, eu não vejo no futuro que eles serão repetidos como a gente viu no passado. Eu entendo que a gente vai ter produtos muito mais complexos. A indústria vai entrar numa questão – do ponto de vista científico – de muito mais profundidade com o médico, com o provedor, com o pagador, para que haja um entendimento disso. Ao mesmo tempo, nós veremos ciclos de vida mais curtos. Porque à medida que você acelera o desenvolvimento, você com certeza já vai trazer a próxima geração, que vai realmente ser muito melhor do que a geração que foi a primeira a chegar ao mercado.

E se são terapias que de fato curam ou trazem esse ganho enorme, você vai começar a olhar para outros alvos, né?

Gaetano Crupi – Esse é o objetivo. O ser humano é uma máquina fascinante. Você olha para uma série de coisas que nós não tínhamos antes, passamos a ter, e coisas novas vão surgindo. A Covid-19 é um grande exemplo do que a indústria pode fazer. Dentro desse ecossistema, a indústria não saiu perguntando “olha, se nós desenvolvermos uma vacina que vai custar tanto, vocês estarão dispostos a pagar?”. Você imagina esse diálogo antes de você começar a pesquisar? Não. A vacina está pronta e eu estou muito feliz por tudo aquilo que a gente alcançou e chegamos nesse momento.

Nessa analogia do Sistema Solar, o novo governo está com esse olhar mais integral para a saúde? Estão tentando entender que, eventualmente, vai ter que mudar a mentalidade de como os negócios e o acesso são feitos?

Gaetano Crupi – Essa é uma pergunta interessante. Pelo sistema, eles partem de um princípio do que estão usando, o que vai ser adicionado, o que vai ser cortado do orçamento anterior. E o orçamento anterior não foi feito com base na demografia brasileira. Nós temos hoje uma demografia que é muito diferente. Então, não acredito que, com uma visão de quatro anos de um governo, haverá uma disposição para que se volte à estaca zero do dia seguinte. Aquele famoso orçamento base zero. Eu vejo o seguinte, como brasileiro, eu tenho muito orgulho do programa de HIV, também do programa de Hepatite C. Eu participei diretamente dos dois, através da Bristol, com os produtos que nós temos. Porque foi um programa de governo, foi um programa nacional. Então hoje, todos os produtos para HIV, os mais modernos, estão à disposição de todos os pacientes. Mas havia um programa nacional. O programa de Hepatite C, nós curamos a Hepatite C, também feito dessa forma.

Eu vejo, por exemplo, quando você olha para o câncer, hoje é a nossa maior preocupação. Não temos uma política nacional. À medida em que você não tem uma política nacional, você estrangula o orçamento só para cuidar dessa classe terapêutica. Imagine todas as outras que nós temos.

Então, eu acredito que a intenção que nós temos, o que eu ouvi até agora, têm sido muito positivos. Porém, se nós não tivermos alguma mudança radical, em como a gente calcula o orçamento e como a gente aloca recursos, acho muito difícil a gente sair desse círculo vicioso. Nós vamos estar aqui respirando o mesmo ar, se a gente não cuidar do ecossistema, ele não vai funcionar. Para mim essa é a grande encruzilhada. Algumas propostas já estão encaminhadas. Uma política nacional de câncer que eu acho fundamental. Se você me falar, “puxa, quais são as duas?” Eu falo de câncer e cardiologia.

Para fechar esse tópico de governo, como você vê essas iniciativas em relação ao complexo industrial de saúde?

Gaetano Crupi – Minha opinião a respeito do complexo industrial da saúde tem que ser muito pragmática. Quando você vai buscar a produção local de uma tecnologia é importante você avaliar algumas coisas. Uma é se você precisa dessa tecnologia porque só existe um ou dois supridores globais e não quer ficar na mão disso. É uma questão de segurança nacional. Se você faz por este motivo, você vai ter todos os parâmetros para poder trazer essa tecnologia. Se você faz pelo motivo de que também quer participar, também quer ter esse produto, nas condições que o Brasil tem hoje, de custos, de impostos – que está entre os 3 primeiros que mais pagam impostos sobre medicamentos –, nós não seremos competitivos. Nós vamos trazer uma tecnologia que provavelmente já está disponível, porque ela perdeu a sua patente, a um custo muito maior. Eu acho que isso vai tirar recursos do sistema. E a terceira opção é: será que estou disposto a acreditar na ciência e trazer uma tecnologia não porque a patente já expirou, mas porque quero fazer parte deste momento de criação? Aí é um diálogo totalmente diferente, que nós não temos tido ainda com o governo. E eu digo isso porque participei de ponta a ponta, de uma transferência de tecnologia, no caso do atazanavir, para a Farmanguinhos, seja com a matéria-prima, seja com o produto acabado.

Agora voltando para a questão da política nacional de câncer, como anda isso? O que a gente precisa, de fato, para ela ser implementada?

Gaetano Crupi – O primeiro passo foi dado. Há uma comissão estabelecida com gente muito interessada e obviamente muito bem assessorada. O que nós precisamos é entrar na pauta. O tempo voa, nós logo já vamos chegar no primeiro ano de governo, e então essa entrada na pauta é muito importante.

Você falou de impostos na sua fala. Dá para gente pensar na isenção fiscal de medicamentos? Isso já funciona de alguma forma?

Gaetano Crupi – Se você comparar, por exemplo, no passado, nós já tiramos impostos de produto cujos preços não eram controlados. Se você tira o imposto, por exemplo, de um produto hortifrutigranjeiro, o qual não tem preço controlado, você diminuiu o preço em um dia. No dia seguinte a gente ter uma chuva fora de controle. O consumidor não vê diferença, porque ele (preço) vai subir por uma questão de demanda e oferta. No caso da indústria farmacêutica, como preço é pré-estabelecido, controlado e recebe aumento simplesmente para a recuperação inflacionária, quando você tira o imposto, você tira de uma vez, ela abaixa naquele momento, 18%, 20%, 22%. Enfim, dependendo do imposto. Nós optamos por um caminho junto com o Sindusfarma. Fizemos um pedido para nos tornarmos isentos do ICMS e PIS/COFINS. Tivemos sucesso nessa batalha. Tudo isso foi votado pelo Confaz, uma série de coisas. Então hoje nós temos realmente – do ponto de vista para o pagador, para o seguro de saúde privada – esse grande benefício. Desde 2 de janeiro deste ano ele está, em alguns estados, mais barato pela isenção. Então, é possível. É muito burocrático, nem todos os produtos pedem ou entram nesse processo, mas no nosso caso nós tivemos sucesso. Isso é muito importante.

Nos Estados Unidos, recentemente, o FDA lançou um guia para promover as pesquisas clínicas de forma descentralizada. Como você vê essa questão?

Gaetano Crupi – O exemplo americano, na verdade, é uma representatividade das empresas multinacionais – e ele é global. O que acontece hoje? Pesquisas mostram que – ao construir o modelo estatístico de um estudo clínico – se você não amplia a tua diversidade, você acaba não produzindo um dado que é significativo em relação à distribuição da população de um determinado país. Nós vimos, por exemplo, que a ausência de negros em estudos clínicos para algumas doenças, você não tem o dado que seja significativo para essa população – seja onde ela estiver estabelecida. É muito conhecido hoje em dia – já por questões demográficas, de ciência – que a incidência de câncer gástrico na população oriental é muito maior do que na população ocidental. Então, quando você tem que desenhar um estudo, é importante que haja um balanço. Por isso, eu vejo isso de uma maneira extremamente assertiva, muito pontual e com um senso de urgência muito grande.

Estamos muito atrás aqui no Brasil?

Gaetano Crupi – Para o Brasil, essa é uma notícia fantástica, porque olha a diversidade do nosso país. Onde é que estamos hoje? Eu posso falar como indústria, mas principalmente como Bristol.

Nós temos muitos estudos clínicos no Brasil, mas poderíamos ter no mínimo o dobro do que já temos se tivéssemos um processo regulatório de aprovação mais rápido. Hoje o grande problema que o Brasil tem na competitividade global é o tempo de aprovação de um protocolo.

Nós temos duas agências que fazem isso. Temos o Conep e a Anvisa. Há projetos de lei para que a gente pudesse ter uma só agência fazendo isso, como é normal em outros países. Como potencial, estamos trabalhando para aumentarmos os nossos centros de pesquisas para as áreas cuja representatividade a gente não tem hoje. Nós temos as populações indígenas, temos negros que estão em distribuições diferentes em todo o país, para que a gente possa aumentar essa mostra, essa representatividade em todos os estudos. Algo que é muito importante a gente trazer: nós falamos muito de acesso e eu queria dar um exemplo. Uma das maneiras onde os americanos garantem o acesso a terapias, de altíssimo custo, sem que haja impacto no sistema de saúde, é através dos estudos clínicos. A gente tem várias histórias: o paciente hoje está diagnosticado, tem alguma coisa, e ele sabe a doença que ele tem. A primeira coisa que ele faz é entrar no ClinicalTrial.gov. Ele vai encontrar todos os estudos clínicos sendo realizados nos Estados Unidos para aquela doença. E aí é muito mais fácil você encaixar. Ele entra no tratamento – uma vez qualificado para isso –, e aí esse é um paciente que não está sendo um peso – ou nenhum custo – nem para o governo nem no privado. Eu acho que a gente não usa isso desta maneira, porque se pudéssemos ampliar o número de estudos clínicos, nós estaríamos beneficiando muitos pacientes.

Esse debate está avançando?

Gaetano Crupi – O debate está avançando. Mas vamos trazer agora um dos pontos nevrálgicos nesse sistema. Quando você olha para a nossa agência reguladora, a Anvisa, hoje ela tem um número de funcionários para cada 100.000 habitantes, que é um quarto do que a Argentina tem. Não é só uma questão de dizer “poxa, o Brasil demora no protocolo”, mas nós temos que equipar as agências reguladoras também para isso. Eu diria que o entendimento da necessidade está claro. O que nós precisamos é tomarmos uma decisão de alocarmos um orçamento para que essa agência esteja preparada para avaliar os protocolos numa velocidade maior, e que a gente possa ter mais estudos clínicos no Brasil. Como a gente olha para trás, só para o que foi o orçamento do ano passado, ninguém vai dizer “nossa, mas eu vou precisar aumentar o orçamento da Anvisa quatro vezes?”. Então, você tem que voltar para uma base zero. Acho que ninguém tem dúvidas do benefício lógico, intelectual, de que estudo clínico é bom. A questão é que nós precisamos tomar uma ação.

Entrando na questão do pipeline da BMS, o que que está no radar?

Gaetano Crupi – Nós temos dois produtos em imunoterapia, que são dois checkpoints. Com esses dois checkpoints,hojetemos uma série de combinações. Então, parte das inovações que você verá no futuro são combinações: combinações dos checkpoints com quimioterapia, com radioterapia. Estamos evoluindo nisso. Esse é o aprendizado que a gente está olhando, porque as mutações acontecem e a gente vai reagindo a isso. Nós seremos a primeira empresa com um terceiro checkpoint, o relatilimab. E aí um produto, já lançado nos Estados Unidos, que deve chegar perto do final do ano. Então vamos ter mais um imunoterápico para tratar câncer. O primeiro lançamento é em relação ao melanoma. E é aquilo que eu te falei antes. Existem pacientes que não respondem bem a um ou outro tratamento e nem às combinações. E aí a gente foi descobrir que aquele paciente tem uma célula cancerígena extremamente inteligente, que usa um outro checkpoint, e conseguimos transformar esse checkpoint num medicamento. Isso vai acontecer. Na área de cardiologia, a gente vem com o tratamento para cardiomiopatia hipertrófica. Também teremos uma revolução grande nas doenças autoimunes para o tratamento da psoríase. É um produto que deve vir em 2024. Nós temos nove novos produtos vindo, no curto, médio prazo. E obviamente estamos avançando muito na hematologia. Temos dois CAR-T que já foram lançados nos Estados Unidos, para linfoma e mieloma, que também vamos trazer para o Brasil, que é uma nova galáxia. Isso tudo é um mundo novo para a gente, e é fruto de uma das aquisições que nós fizemos. Acabamos de comprar uma fábrica no estado de Illinois, nos Estados Unidos, para aumentarmos a capacidade. Porque hoje o gargalo que a gente tem em relação aos CART-T, é manufatura. Você imagina, você tira o sangue de uma pessoa aqui no Brasil, você tira a Austrália, você tem que trabalhar isso, você tem que mandar para fábrica, você tem que produzir…enfim, tem uma série de coisas. Nós também estamos em fases bem preliminares em neurociência – que é uma área que já atuamos bastante no passado.

Olhando para Alzheimer?

Gaetano Crupi – Ainda não posso definir em que área, mas com certeza neurociências é uma das áreas que você tem que entrar nesse mundo para realmente transformar a vida do paciente.

Uma pauta que tem evoluído é esse olhar para a qualidade de vida. Como você tem visto esse cenário?

Gaetano Crupi – Por exemplo, na cardiomiopatia hipertrófica, nosso produto nasce por esse momento. O que você hoje encontra com o paciente que que sofre dessa doença? Você tem um paciente que se adaptou a uma qualidade de vida, que eu diria, sub-ótima. E eu vou te falar isso com o coração muito aberto, porque minha esposa tem a condição. Você pode participar de um torneio de tênis com toda intensidade que poderia? A resposta é não, porque você sabe das suas limitações. O caso dela não é um caso com obstrução, mas você pega os pacientes com HCM obstrutiva, hoje não sobem em uma escada. Você tem pacientes que dependendo do tamanho da rua que ele tem que atravessar, ele não atravessa, porque ele sabe que ele vai ter um problema para fazer isso. Então, você desenvolve um produto para dar a este paciente uma qualidade de vida perto do normal. Pode praticar esporte, pode caminhar. Essa é a preocupação também quando a gente vai buscar doenças que não estão tratadas da forma adequada.

Nós temos, por exemplo, um projeto com o hospital Sírio-Libanês e a Ernst & Young, em que acompanhamos os pacientes que estão recebendo tratamento para o câncer de pulmão, para ver se esse tratamento, após a utilização do produto, está trazendo os benefícios que estávamos esperando. Ou seja, estamos confirmando, na vida real, aquilo que os estudos clínicos nos disseram.

Vocês devem ter resultados quando sobre esse projeto?

Gaetano Crupi – Espero que até o final desse ano a gente já tenha um número, porque o resultado vai depender do número de pacientes que a gente tem para que ele seja, estatisticamente, importante para ser publicado.

Em julho do ano passado, estivemos juntos no Global Fórum, em Brasília. Lembro que você falou muito da importância de deixar um legado para a próxima geração. Dentro de tudo o que a gente conversou hoje, qual vai ser o legado?

Gaetano Crupi – Eu posso dizer a parte que eu faço para esse legado. Aquilo que que eu tenho trabalhado – e a gente tem feito isso como Bristol e algo que eu acredito no mercado de saúde – é nós, realmente, empoderarmos. É trazermos o paciente – para nós, ele já está no centro de tudo aquilo que a gente faz – mas eu vejo que existe um potencial enorme para que a gente possa dar ao paciente esse sentimento de ser um pouco mais egoísta com a sua própria saúde.  De ele se cuidar mais, de estar inserido no mercado de trabalho por um tempo significativo, para que ele esteja cuidando da sua saúde mental e seja produtivo. Vejo que o grande legado é nós estendermos aquilo que a gente pode controlar, e não necessariamente você lançar mão dos custos adicionais que você pode prevenir, que pode demorar para que isso aconteça. É para mim um aspecto muito importante.

E do ponto de vista da Bristol?

Gaetano Crupi – Me incomoda muito a diferença de “Brasis” que temos. Por exemplo, há hoje aprovado pela Conitec dois imunoterápicos, um da Bristol e um de uma outra indústria. Ambos aprovados para o tratamento do melanoma metastático – e isso foi em 2018. Até agora, nós não tivemos a compra, a utilização deste produto por parte do Ministério da Saúde, para que o paciente que esteja diagnosticado com um melanoma metastático tenha acesso à imuno-oncologia.  Isso me dói muito. Para mim, um legado é que, se tivéssemos – e agora eu vou conectar os pontos – uma política nacional de câncer, a Conitec estaria olhando para as classes terapêuticas que trazem melhores resultados e já teria aprovado uma delas. E aí, como é que nós viabilizamos isso? Não vai ser fácil você viabilizar quando você olha para trás e simplesmente pegou o orçamento do ano passado. Porque os pacientes que morreram, infelizmente, com melanoma, nos últimos orçamentos estavam sendo tratados com um quimioterápico que não vai trazer aquilo que a gente sabe que a imuno-oncologia traz. Por isso que a sobrevida mudou, por isso que hoje você fala em cura. Esse legado a gente precisa trazer. Se nós sabemos que não vamos conseguir com todas as classes terapêuticas, quais são aquelas que realmente causam maior dor hoje na população? Câncer é uma delas. Não tem a menor dúvida disso.

Queria entrar um pouco na questão da sua trajetória e nas metas pessoais que você tem relacionadas à gestão e igualdade.

Gaetano Crupi – Me sinto uma pessoa muito privilegiada por ter tido a oportunidade de sair do Brasil profissionalmente. Vivi muito tempo fora do Brasil e é como pegar um helicóptero e sair da floresta – antes você só conseguia ver uma árvore, mas começa a ver floresta toda. Morar nos Estados Unidos trouxe para mim um chamado dizendo o seguinte: o que você está fazendo com o teu país com relação à diversidade racial? E aí você começa a entender o que são as ações afirmativas. Começa a entender que, naquele país, as piadas não são aceitas como são aceitas no teu país, que você tem que respeitar esse próximo. Que a dor que você causa ao não respeitar é muito grande. Isso foi para mim uma transformação enorme. Quando eu voltei ao Brasil em 2006 – claro, não esperei – fiz aquilo que podia, que é abraçar essa causa e olharmos para aquilo que temos que fazer e abrir a discussão. Eu sou a favor das cotas, debato esse assunto com quem você quiser, porque com 300 anos de escravidão você não vai simplesmente trazer equidade, porque você não parte do mesmo princípio. No Canadá ou Argentina você não teve escravidão. Se você quiser fazer uma comparação, você sai basicamente, uma vida difícil, pobreza, uma série de coisas. Tudo isso é igual, e você vai buscar. Mas a questão, quando você sai de 300 anos de escravidão, até você ter esse acesso é muito grande. Tudo aquilo que eu posso fazer, pessoalmente, estou fazendo.

E como empresa?

Gaetano Crupi – Como empresa, temos um grupo para o desenvolvimento das lideranças negras do mundo inteiro. Começou nos Estados Unidos e o Brasil foi o segundo país a aderir a este grupo. Estamos olhando para métricas claras. Toda vez que você abre uma vaga, a grande pergunta é: quantos candidatos negros compareceram para essa vaga? Eu posso te dar um exemplo: a probabilidade hoje de você fazer um anúncio, seja por uma posição de trainee, seja para uma posição inicial exigindo inglês, para que um candidato negro esteja apto, ela é perto do zero, é muito pequena. Porque para que você tenha hoje – por todo esse passado – um negro que realmente tenha tido oportunidade de fazer uma escola, onde ele tinha um segundo idioma, uma série de coisas, é muito mais baixo. Então, vimos que do jeito tradicional não atrai ninguém. E a gente descobriu também que você atraía candidatos que, quando o inglês não era talvez tão bom quanto parecia, a gente acabava investindo no desenvolvimento. Então, a gente abre mão desse requisito – claro, ele vai ser importante no desenvolvimento da pessoa – mas a pessoa vai receber treinamento e vai poder fazer o curso. Isso já abre demais o número de possibilidades de entrada dentro da empresa. Esse é um caminho que a gente tem, não só de Brasil. Acho que no Brasil, de 2006 até hoje, eu vejo que a gente caminhou bastante. Pelas organizações – eu trabalho muito com a Universidade Zumbi dos Palmares – vejo que estamos no caminho certo. Agora, a questão é dosar a velocidade.

Tem uma pergunta que eu sempre faço para todos os meus convidados antes de fechar: quais são as pautas quentes que a gente precisa olhar para a saúde?

Gaetano Crupi – No ano de 2023, uma pauta quentíssima é alocação de recursos no orçamento do Ministério. Precisamos ter a habilidade de separar o que foi Covid, o quanto de recurso foi utilizado, o quanto isso acabou negligenciando outras áreas da saúde. E a gente tem que endereçar isso. Nós precisávamos chegar o mais perto possível do orçamento base zero do ponto de vista de saúde e do ponto de vista governamental. Do ponto de vista do mercado privado, nós vamos ter que fazer alguma coisa, diria que semelhante. Se você avaliar hoje, por exemplo, as perdas que as seguradoras estão tendo é muito grande. E eu falo dos dois lados, eu sou um dos custos da seguradora, pelos nossos produtos, mas eu compro seguro para os nossos funcionários. As seguradoras se beneficiaram de um período em que, infelizmente, cerca de 50.000 pessoas com câncer não foram diagnosticadas e acabaram chegando no sistema de saúde em fases avançadas. Isso é mais caro. Então eu vejo que a gente está saindo de uma fase em que praticamente as seguradoras não tiveram o número de sinistros – que elas esperavam normalmente – para uma aceleração. Também não podemos reagir para dizer que agora está tudo errado, isso vai normalizar. Temos que olhar isso um pouco mais a longo prazo. Além disso, a política nacional do câncer tem que sair do papel, porque ela é fundamental. Se não, vamos ter problemas e perder vidas, que são vidas que poderiam estar ativas, trabalhando, pagando impostos, gerando riquezas. Enfim, dando qualidade às famílias que estão precisando dessas pessoas. E o outro ponto – saindo de orçamento tanto no privado, como no público – é dizer que a nossa missão está numa aceleração enorme. Nós estamos investigando e descobrindo produtos para coisas que pensávamos não haver uma saída. Então, acho que é importante que o paciente volte para o centro de tudo isso, que o paciente tenha consciência que ele tem como colaborar. Que é uma melhor saúde, um melhor cuidado. Prevenir é muito melhor do que remediar, e muito mais barato. Eu acho que essa é uma pauta interessante a gente começar a falar do egoísmo que a gente precisa ter com a nossa saúde.

Natalia Cuminale

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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    Equipe de jornalistas da redação do Futuro da Saúde.

  • Fernando Maluf

    Diretor Associado do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein e fundador do Instituto Vencer o Câncer. É formado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde hoje é Livre Docente. Possui Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialização no Programa de Treinamento da Medical Oncology/Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em New York.

  • Natalia Cuminale

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