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O futuro da telemedicina no pós-pandemia

Expectativa do setor é garantir a telemedicina de forma integrada às possibilidades presenciais, melhorando a jornada do paciente

               
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Foto: Fabio H. Mendes

(Conteúdo oferecido por Hospital Israelita Albert Einstein)

Há pouco mais de dois anos, a telemedicina ainda crescia a passos tímidos no Brasil. Por vezes vista com certa desconfiança entre pacientes e até médicos, a prática também vivia um limbo jurídico, pois até então sua última regulamentação era de 2002. Fato é que, de lá para cá, o cenário da saúde mudou completamente. Hoje, não é exagero dizer que essa vertente da medicina foi essencial no combate à pandemia de Covid-19.

De acordo com dados da Saúde Digital Brasil (SDB), entidade representativa dos prestadores de serviço de telessaúde brasileiros, mais de 7,5 milhões de atendimentos foram realizados via telemedicina no país, entre 2020 e 2021. Desse número, estima-se que 1% foram fundamentais para a manutenção de vidas, representando 75 mil pessoas salvas.

“É comum confundir a chegada do novo coronavírus como o ponto inicial de adoção da prática. Mas, na realidade, ela foi um grande catalisador. Não podemos tratá-la como um agente isolado”, aponta Carlos Pedrotti, gerente médico do Centro de Telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein.

A própria instituição, inclusive, foi uma das pioneiras no exercício da atividade. Desde 2012, o Einstein já atuava com as chamadas interconsultas de médico para médico. Nessa vertente da telemedicina, os clínicos do hospital contribuíam remota e virtualmente com outros profissionais que passavam visitas em Unidades de Terapia Intensivas (UTIs) fisicamente distantes. Já em 2017, foi feito um programa de teledermatologia com Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde um médico atendia o paciente e conversava com um dermatologista do Einstein, que indicava a conduta a ser adotada.

“Em 2019, antes da pandemia, começamos o atendimento direto ao paciente. Vimos que existia uma série de condições de saúde de baixa complexidade, que nos permitia chegar a um diagnóstico sem o exame físico tradicional, mas realizando a anamnese, observando o estado e os dados do paciente. Isso, claro, sem que houvesse intercorrências na questão da segurança”, explica Eliézer Silva, diretor de medicina diagnóstica e ambulatorial do Hospital Israelita Albert Einstein.

Se no começo de 2020, cerca de 150 mil usuários podiam acionar o serviço de telemedicina disponibilizado pelo Einstein a qualquer hora do dia, as restrições sociais impostas pela Covid-19, que chegou ao Brasil em fevereiro daquele ano, e o próprio risco de contágio ao visitar uma unidade de pronto-atendimento fizeram com que esse número explodisse. Em poucos meses, a base saltou para 2 milhões de pessoas.

Regulamentação normativa e legislativa

Foi apenas em fevereiro de 2020, com a declaração do Ministério da Saúde de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) causada pela pandemia de coronavírus, que a telemedicina passou a ser provisoriamente regulamentada, por meio da Lei nº 13.989/2020.

“Até então existia um vazio jurídico. A última regulação era de 2002, uma época bem distante das realidades de conectividade e acesso que temos hoje. Isso impedia investimentos na área, dificultava contratos e trazia insegurança”, recorda Carlos Pedrotti.

Ainda de acordo com a pesquisa da SDB, mais de 50 mil médicos realizaram atendimentos via telemedicina no Brasil. Além disso, 91% das consultas avulsas de pronto-atendimento tiveram seu problema resolvido, dispensando a ida ao pronto-socorro em segunda instância. Para 90% dos pacientes, o atendimento remoto foi classificado como ótimo ou bom.

Considerando o ecossistema do Einstein, o percentual de encaminhamentos para uma consulta presencial de um usuário que iniciou seu atendimento online variou entre 3% e 5%. Já a taxa de retorno manteve-se no mesmo patamar do físico, também oscilando entre 3% e 5%. O serviço remoto também é muito bem avaliado, superando a do próprio pronto-socorro padrão, segundo Eliézer Silva.

Ou seja, os dados corroboram que é possível, sim, fazer medicina à distância, sem perder um dos pontos mais importantes da jornada: a percepção de qualidade dos pacientes.

Agora, mesmo com a divulgação da portaria que declara o fim da ESPIN, a telemedicina não perde sua legitimidade. Além de ter sido devidamente regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) por meio da Resolução nº 2.314/2022, já tramita no legislativo o Projeto de Lei nº 1.998/2020, que autoriza a prática da telessaúde. Aprovado pela Câmara em abril, o PL está em tramitação no Senado, para depois ser sancionada pela Presidência.

Pós-pandemia: desafios e expectativas

As restrições impostas pelo novo coronavírus fizeram com que os brasileiros descobrissem e utilizassem a telemedicina. Já está incorporada à rotina de muitos desses pacientes entrar em contato com o sistema de saúde digitalmente, seja para marcar uma teleassistência ou até para obter orientações se devem, ou não, ir ao hospital pessoalmente.

Entretanto, apesar da base de atendimento remoto do Einstein se manter elevada, as visitas ao pronto-socorro físico para situações de baixa complexidade retornaram ao que era no cenário pré-pandemia. De certa forma, esse ponto de ajuste e equilíbrio já era esperado com as possibilidades de atendimento presencial.

“Precisamos entender melhor quem está usando, pois não se trata de um grupo específico de pacientes que voltou a ser atendido no PA”, observa o diretor de medicina diagnóstica e ambulatorial. Na opinião do especialista, o movimento reflete uma mudança de comportamento que ainda está acontecendo. “A adoção da telemedicina é um processo cultural. Quanto mais as pessoas utilizarem e melhor for a experiência, maior será a fidelização”, completa.

É importante ressaltar que esse processo de aculturamento passa, também, pela experiência de usabilidade e navegação dos pacientes nos aplicativos e plataformas de saúde. Garantir a acessibilidade de todas as faixas etárias e estratos sociais é uma responsabilidade que não se restringe apenas às prestadoras de serviços digitais, mas de todos os profissionais que estão, de alguma forma, envolvidos no processo de transformação digital.

De acordo com Carlos Pedrotti, a tendência é que a adoção da telemedicina cresça ainda mais conforme houver a ampliação do portfólio, que ainda é restrito. “Hoje, não é tão fácil marcar uma consulta com um especialista, por exemplo, sem conhecê-lo previamente. Não temos isso disponível amplamente nas operadoras”, observa.

Com a regulamentação da prática da telessaúde, a expectativa é que a área receba os investimentos necessários para aumentar o leque de serviços oferecidos de maneira online. “É assim que a telemedicina vai crescer de forma horizontal. Mais do que oferecer esse atendimento episódico, que foi o grande foco da pandemia, a ideia é ter uma jornada completa, indo desde a atenção primária até a medicina ultraespecializada e de reabilitação, e integrada com o sistema físico”, complementa o gerente médico do Centro de Telemedicina do Einstein.

Futuro da telemedicina: benefícios do sistema “figital”

A expectativa para o futuro é ter um sistema de saúde híbrido, em que a telemedicina esteja intimamente integrada ao atendimento presencial, tornando-se algo único. “Nunca foi a ideia substituir o atendimento presencial pela teleassistência. O objetivo sempre foi complementar, facilitando a jornada de saúde do paciente”, diz Carlos Pedrotti.

Não à toa, o próprio Ministério da Saúde classificou a telessaúde como componente da Estratégia de Saúde Digital para o Brasil, cuja principal finalidade é a expansão e melhoria da rede de serviços médicos.

Dentre os principais benefícios desse ambiente fluido e integrado, entre físico e digital, está a democratização e a otimização de toda a estrutura de saúde, transpondo barreiras socioeconômicas, culturais e geográficas, reduzindo filas de espera e evitando deslocamentos desnecessários de pacientes e profissionais de saúde.

A chamada heterogeneidade de especialistas, por exemplo, é uma questão que pode ser melhor distribuída com o uso da telemedicina. Assim, profissionais de uma determinada especialidade podem dar suporte a pacientes localizados em regiões menos favorecidas.

“Aqui no Einstein, temos uma parceria com o Ministério da Saúde na região Norte. Por meio das teleinterconsultas, atendemos sete diferentes especialidades: pneumologia, psiquiatria, endocrinologia, neurologia e neurologia infantil, cardiologia e reumatologia. São 130 postos ativos e mais de 25 mil assistências realizadas”, compartilha Pedrotti.

Outro ponto de extrema importância é a otimização dos custos do sistema, que estão relacionados, principalmente, às questões de estrutura e mobilidade. “Quando somos capazes de retirar os pacientes de baixa complexidade do presencial e atendê-los em um ambiente diferente do hospitalar, com total segurança, conseguimos redimensionar a estrutura assistencial, de recursos humanos, de tecnologia e de espaço. Tudo isso demanda altos investimentos. Mas, diante dessa nova adequação, o custo para a organização de saúde também cai”, avalia Eliézer Silva.

Por fim, um dos grandes benefícios da telemedicina é a geração de dados e a interoperabilidade. O uso de big data combinado ao machine learning, por exemplo, permite um melhor conhecimento dos usuários, assim como a otimização dos processos analíticos, que contribuem com predições e tomadas de decisões muito mais assertivas.

“No atendimento online, os profissionais tendem a usar ferramentas digitais. Com isso, é muito mais fácil você interoperar com outros sistemas e disponibilizar essa situação de forma mais segura e horizontal entre os prestadores desse paciente. O usuário vai ter muito mais consciência da sua jornada e controle dos seus dados”, conta Carlos Pedrotti.

Tudo isso, sem nunca perder de vista o cuidado em saber exatamente o momento de direcionar uma pessoa para a assistência presencial. “Nesta situação, eu consigo localizar onde ele está, direcioná-lo para a nossa unidade de atendimento mais próxima e já abrir uma passagem para o pronto-socorro físico, dispensando o check-in e a triagem. Isso só é possível por conta da tecnologia e se o profissional souber das limitações da telemedicina”, finaliza Silva.

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